Um Passeio pela obra de Johnnie To – Parte I: Introdução

Johnnie-To

Um projeto novo aqui para blog: um passeio cronológico pela filmografia de Johnnie To. Algo que torna To uma figura fascinante para um exercício do tipo é que ao contrário da maioria dos autores contemporâneos, ele trabalhou aos poucos dentro da indústria até construir uma obra, incluindo muitos trabalhos relativamente anônimos no começo da carreira. É uma trajetória bem mais comum a cineasta pré-1960. Vou dividir a série em 10 posts:

I – Introdução que lida só com sua estreia The Enigmatic Case, de 1980.
II – Os anos na Cinema City (1986-1990) com 7 filmes majoritariamente feitos para a produtora Cinema City, na sua grande maioria comédias.
III – Os anos de cineasta de contrato (1990-1994) – 10 filmes incluindo os 2 primeiros da série A Momento f Romance que ele só produziu, período bem irregular e variado, notório sobre tudo por The Heroic Trio e suas duas parcerias com Stephen Chow.
IV – Periodo pré Milkyway (1995-1997) – Somente 4 filmes, mas onde o que costumamos pensar como “um filme de Johnnie To” começa a ganhar forma.
V – Primeiros anos da Milkyway (1997-1999) – 11 filmes, majoritariamente como produtor, geralmente thrillers policiais estilosos e duros, a produtora rapidamente firmou o nome como nova alternativa para fãs ocidentais de filmes de ação asiáticos.
VI – Milkyway se expande (2000-2002) – 12 filmes majoritariamente comédia e frequentemente co-dirigidos por Wai Kai Fai. Anos bem ecléticos que ajudam a firmar a Milkyway comercialmente e também são bem importantes para estabelecer To como mais do que autor de filmes policiais.
VII – O Biênio 2003-2004 – To dirigiu 7 filmes nestes dois anos, uma explosão de criatividade que não tem creio nenhum equivalente no cinema contemporâneo (vou mover Breaking News para post seguinte). Eles irão de travelogos policiais noturnos a homenagens a Kurosawa passando por OVNIs budistas indescritíveis.
VIII – Retorno ao filme policial (2004-2007) – 5 filmes de Breaking News a Mad Detective, provavelmente a sequencia de filmes nos quais a reputação ocidental dele se baseia.
IX – Novo período eclético (2007-2011) – 8 filmes entre dirigidos e produzidos bem variados e tateantes.
X – Filmes recentes (2011- ) – De Life Without a Principle ao recente Don’t Go Breaking My Heart 2 que com sorte já terá legendas em inglês ou português quando eu chegar aqui.

Vou tentar incluir sempre que possível comentários sobre os filmes de To como produtor. Sobretudo nos primeiros anos da Milkyway é visível como ele frequentemente opera como principal propulsor criativo de filmes independente de assina-los ou não.

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Para este primeiro post vou falar exclusivamente sobre a estreia dele The Enigmatic Case (1980) até por ser um falso começo que existe bem a parte do resto da sua filmografia.

O filme foi co-assinado por um certo Andrew Kam. Como este não é um típico filme do diretor e Kam tem uma filmografia solo pequena e obscura (ele é mais conhecido como assistente de Tsui Hark e John Woo ao longo da década de 80), é muito difícil ter certeza sobre quem foi responsável pelo que. Vou ignora-lo aqui, mas é bom ter em mente de que é impossível ter certeza sob a extensão das contribuições dele ao projeto.(1)

Johnnie To tinha 25 anos quando realizou o filme, antes disso trabalhara por um par de anos na TVB, uma das duas grandes emissoras de TV locais. O filme é contemporâneo do chamado Cinema Novo de Hong Kong, cujos realizadores na sua grande maioria tiveram as primeiras oportunidades na mesma TVB. To é ligeiramente mais jovem que a maior parte deles: a título de comparação, To nasceu em 1955, Ann Hui e Allen Fong em 47, Patrick Tam em 48, Tsui Hark em 50, Alex Cheung em 51 e Yim Ho em 52. Se há algo de fascinante ao pensarmos The Enigmatic Case hoje é justamente como o filme se encaixa perfeitamente no contexto daqueles filmes, a despeito de To jamais ser discutido nestes termos. Em particular, The Enigmatic Case se aproxima do filão dos Wu Xias (filmes de espadachins) revisionistas como The Butterfly Murders (1979) e The Sword (1980), estreias respectivamente de Tsui Hark e Patrick Tam.

Todos os três filmes partem do gênero que fez a fama de King Hu – e é útil ter em mente que os Wu Xias haviam a muito sido suplantadas pelos filmes de artes marciais como centro da produção de ação local – e buscam despi-lo da maior parte dos seus adornos. Todos eles buscam uma impressão maior de autenticidade e narrativas sombrias com gosto pela fragmentação (o filme do Hark o mais radical dos três literalmente termina no ponto que o terceiro ato esta por começar). O filme tem uma narrativa simples que ele busca compensar com ambiguidade: um tesouro escondido, um espadachim que foge da cadeia e pode ou não ter matado três homens e saber a localização do tesouro. A maior parte da ação depois da seção inicial a prisão se dá na cavalgada na estrada compartilhada entre o herói (Damian Lau) e a jovem (Cherie Chung) que ele vira a descobrir depois ser filha de um dos homens mortos. Se fosse um filme da Shaw seria material bem básica ao qual tenta envolver num clima nebuloso. A trilha sonora que frequentemente cita temas ocidentais da ares de faroeste italiano picaresco que não combina muito com o tom do filme no resto do tempo.

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Tanto The Butterfly Murders como The Sword contrapõe uma secura de encenação com momentos nos quais entregam imagens fortes e memoráveis, algo que The Enigmatic Case, a parte por um duelo final elaborado, pouco é capaz de produzir. A consequência disso é que dos três filmes é o que mais se aproxima do típico exercício revisionista que equipara negar a convenção com uma forma de realismo mais autentico. As limitações desta opção ficam nítidas quando The Enigmatic Case é colocado lado a lado com The Convict Killer, filme de artes marciais com ecos de um policial de vingança que Chor Yuen realizou no mesmo ano para a Shaw Bros que alcança a densidade e sobriedade dramáticas almejadas por To sem o mesmo desespero para se distanciar da tradição.

Um dos pontos fortes do filme é que graças as conexões de esquerda do seu pequeno estúdio, The Enigmatic Case pode ser rodado na China. Trata-se de algo bastante incomum na época, com os filmes de ação de época sendo majoritariamente rodados em estúdio e os ocasionais filmes que apostavam em externas buscando países alternativos para dublar a China já que era difícil conseguir autorização do governo comunista para rodar lá (2). A paisagem de The Enigmatic Case é bem única dentro dos filmes de ação de época do fim dos anos 70, começo dos 80, o que ajuda a reforçar a atmosfera de autenticidade do filme.

The Enigmatic Case foi um grande fracasso e To retornou a TVB onde passou a primeira metade da década de 80. Uma das consequências disso é que ele jamais é discutido como um cineasta ligado ao Cinema Novo a despeito da sua estreia se encaixar facilmente numa retrospectiva do período. A outra curiosa é que o diretor permaneceu distante de filmes de ação históricos dali por diante (3). Nenhuma produção da Milkyway até hoje trabalhou sobre Wu Xia ou filme de artes marciais ou buscou se ambientar na China histórica, é possível que trata-se simplesmente de um cuidado do Johnnie To produtor que sempre deu preferencias a produções médias com mais ênfases em estrelas locais do que gastos desmedidos frequente em superproduções de época, mas dada as tendências do mercado local e das facilidades de co-produção com a China é uma ausência curiosa. O único outro filme de ação sério de To localizado na China pré século é The Barefoot Kid (1993), refilmagem de um filme de Chang Cheh. Quanto a The Enigmatic Case é um falso começo, uma nota de rodapé na obra do autor, mas uma que não deixa de apontar, um pouco como os filmes iniciais de Tsui Hark, para toda uma carreira alternativa.

(1) Kam também é co-diretor de The Big Heat (1988), o que sugere que ele e To talvez fossem próximos no período, mas também é possível que seja somente uma coincidência já que o filme é uma produção de Tsui Hark com que Kam trabalhava regularmente. Não deixa de ser interessante pensar que três dos primeiros cinco filmes de To foram co-dirigidos, o que reflete o modo bastante colaborativo da indústria de Hong Kong nos anos 80, algo que ele retomaria na Milkyway anos mais tarde.

(2) Como perspectiva histórica é bom ter em mente que estamos a apenas 30 anos da revolução e que a indústria de Hong Kong era na sua maioria formado por imigrantes da indústria de Shangai que chegaram na colônia britânica fugindo dos comunistas.

(3) Ele trabalhou extensivamente no gênero para TVB para a qual dirigiu varias séries históricas. Nunca vi nenhuma delas, mas o Asian Torrents tem 3 com legendas em inglês: Duke of Mt Deer (1984, 40 episódios), The Yang’s Saga (1985, 12 eps) e The New Heaven Sword & Dragon Sabre (1986, 40 eps). Todas co-dirigidas por outros nomes.

(2) Como perspectiva histórica é bom ter em mente que estamos a apenas 30 anos da revolução e que a indústria de Hong Kong era na sua maioria formado por imigrantes da indústria de Shangai que chegaram na colônia britânica fugindo dos comunistas.

5 Comentários

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5 Respostas para “Um Passeio pela obra de Johnnie To – Parte I: Introdução

  1. daniel

    Esse tem disponível em algum lugar?

  2. Filipe Furtado

    Tem no KG, no Surreal Moviez, no Asian Torrents, imagino que no Cinemaggedon.

  3. Bruno Castro

    Parabéns pela jornada! Aguardo os próximos capítulos! Grande nome do cinema! Pena que é tão pouco explorado por aqui.
    Você acredita que a causa para ele ser colocado de lado é o enorme fracasso que o Eleição teve por aqui?

    Continue o bom trabalho!

  4. Martín

    filipefurtado,O que achou do trailer do próximo To? design for living.

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