Meus Favoritos de 2014

1400

Nightwalk, de Scott Barley

Como sempre o critério da lista são filmes vistos pela primeira vez por mim este ano realizado nos últimos três anos.
Primeiro um destaque especial para três curtas essenciais: Gradiva (Leos Carax), Nightwalk (Scott Barley) e A Propos de Venice (Jean-Marie Straub)
Menções honrosas: (100-76): 22 Jump Street (Phil Lord, Chris Miller), Aberdeen (Pang Ho-Cheung), All the Light in the Sky (Joe Swanberg), Annie (Will Gluck), Bad Grandpa (Jeff Tremaine), Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós), Canções do Norte (Soon-Mi Yoo), Com os Punhos Cerrados (Pedro Diogénes, Luiz & Ricardo Pretti), O Congresso Futurista (Ari Folman), Dom Hemingway (Richard Shepard), A Família de Elizabeth Teixeira (Eduardo Coutinho). Go For Sisters (John Sayles), I Used to Be Darker (Matthew Potterfield), L for Leisure (Lev Kalman, Whitney Horn), O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese), O Menino e o Mundo (Alê Abreu),Nebraska (Alexander Payne), Need For Speed (Scott Waugh), Non-Fiction Diary (Jung Yoon-suk), Obvious Child (Gillian Robespierre), Permanência (Leonardo Lacca), R100 (Hitoshi Matsumoto), Les Rencontres D’Apres Minuit (Yann Gonzalez), Vidas ao Vento (Hayao Miyazaki), The White Storm (Benny Chan). (75-51): +1 (Denis Iliadis), Aquilo que Fazemos com Nossas Desgraças (Arthur Tuoto), Black Coal, Thin Ice (Yi’nan Diao), Burying the Ex (Joe Dante), Carta ao Pai (Edgardo Cozarinsky), Costa da Morte (Lois Patiño), A Datilógrafa (Regis Roinsard), From Gulf to Gulf to Gulf (Shaina Anand, Ashok Sukumaran), Grand Piano (Eugenio Mira), O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson), The Guest (Adam Wingard), O Homem de Tai Chi (Keanu Reeves), The Homesman (Tommy Lee Jones), How to Disappear Completely (Raya Martin), The Iron Ministry (J.P. Sniadecki), Listen Up Philip (Alex Ross Perry), Minha Amiga Victoria (Jean-Paul Civeyrac), Mockinbird (Bryan Bertino), National Gallery (Frederick Wiseman), Pássaro Branco na Nevasca (Gregg Araki), Queen and Country (John Boorman), La Sapienza (Eugene Green), Sem Escalas (Jaume Collet-Serra), Sob a Pele (Jonathan Glazer), Uncertain Terms (Nathan Silver). 145050) El Escarabajo de Oro (Alejo Moguillansky, Fia-Stina Sandlund)
Uma farsa sobre financiamento internacional de cinema, a guerra dos sexos e a representação histórica co-dirigido pelo argentino Moguillansky e a sueca Sandlund (que não se conheciam antes de serem convidados por um festival dinamarquês para realizar juntos um filme) com uma assistência notável do grande Mariano Lliñas que o co-escreveu e co-montou. Filme de aventura no qual o método de produção e a questão de quem domina o olhar é colocada em primeiro plano o tempo todo. 144949) Duas Irmãs, Uma Paixão (Die geliebten Schwestern) (Dominik Graf)
Um belo filme do irregular, mas talentoso Dominik Graf e também uma das suas maiores produções. Nada poderia estar mais distantes das preocupações e formas favoritas dos cinéfilos em geral do que um novelão de época de duas horas e meia sobre a vida amorosa de Friedrich Schiller, mas não é por isso que possa ignorar o trabalho de Graf de tamanha leveza, agilidade e cuidado dramatúrgico. 144848) Mille Soleils (Mati Diop)
Uma imagem busca outra, assim como retomamos sempre o passado. Haverá em Mille Soleils as imagens de Touki Bouki, clássico do cinema senegalês dirigido por Djibril Diop Mambéty (tio da diretora) e a imagem hoje do protagonista do filme Magaye Niang. O ponto de partida poderia produzir só um jogo de espelhos, mas o que interessa a Diop é a necessidade constante da fabular sobre a própria herança (a de Niang e a dela própria), encontrar novas formas de renova-la. 144747) Pare ou Eu Sigo em Frente (Arrête ou je continue) (Sophie Fillières)
Fillières não é muito conhecida por aqui, mas é uma diretora francesa de obra considerável, aqui parte de um formato dos mais consagrados do filme de festival (o filme de crise de casal) e do casal semi oficial de certa geração do cinema francês (Mathieu Amalric e Emanuelle Devos) e constrói um filme muito forte a partir do contraste entre a leveza da sua encenação e o tom neurótico do material. A Imovision e a Pandora inundam os seus cine bistrôs com filmes franceses similares a este, mas raramente com uma execução tão cuidadosa e Devos não estava tão bem num filme em muito tempo. 144646) Os Dias com Ele (Maria Clara Escobar)
O filme da Maria Clara Escobar sobre sua tentativa de extrair do pai intelectual suas memórias de ser preso durante a ditadura. No centro do filme, está uma disputa por poder. Todo o duelo entre pai e filha sobre como o filme deveria ser expõe um campo de batalha mais amplo onde estão em jogo o patriarcado (e a na história de Carlos Henrique Escobar, a própria pátria) e o poder da cineasta. Os Dias com Ele pode se apresentar como uma longa conversa/encontro com Carlos Henrique Escobar, mas é em verdade um filme de montagem, cujos sentidos são todos dados posteriormente. A revolta do personagem tem um limite claro, justamente na medida em que a montagem vai conduzi-lo em direção à ficção que mais interessa ao filme. 144545) Garota Exemplar (Gone Girl) (David Fincher)
A comédia de recasamento chabroliana de Fincher. Filme doente e engraçadíssimo de um dos grandes misantropos do cinema contemporâneo. Um filme de modelos, que pouco podem fazer, mas aceitar os papeis impostos de antemão a eles, filmados com a precisão obsessiva particular de Fincher. Cada quadro estudado e emoldurado até chegar a uma prisão estética que não deixa de refletir a clausura social dos seus tipos. 144444) A Pele de Vênus (Venus in Fur) (Roman Polanski)
Um dos melhores filmes tardios de Polanski. O seu cinema está sempre no seu melhor quando ele se dispõe a se expor ao máximo como aqui (pensemos em Lua de Fel). O corpo é tomado pela palavra, a linha tênue entre fabulação e autobiografia se reduz e na precisão da sua encenação Polanski encontra um ponto de saída para si mesmo. 144343) Pompéia (Pompeii) (Paul W.S. Anderson)
Cinema de Anderson é espetáculo, mas não o da indústria de entretenimento ao qual serve, mas sim um que manifeste sua essência de grande drama. Se os gladiadores do filme são atores, o que o filme retira deles são gestos, movimentos e ações. A grande sequência de ação na arena serve justamente para propor o combate não como esporte, mas como teatro que se põe a reencenar a batalha que abrira o filme. Que um filme todo construído através do digital e de uma dramaturgia intencionalmente tão rala, posso justamente encontrar e eternizar a grandeza do gesto só reforça como o cinema contemporâneo segue muito saudável. 144242) Favula (Raul Perrone)
Outro filme de invenção de estúdio, no caso estúdio caseiro como tudo nos vídeos de Raul Perrone e como sempre rodado na sua cidade natal Ituzaingó. O filme existe em algum lugar entre Josef Von Sternberg e Kiyoshi Kurosawa numa floresta encantada que consome a tudo e todos que passam por ela. Favula é o estagio seguinte ao do anterior P3ND3J05, se nele tínhamos um filme de horror em processo com corpos a desaparecer, aqui já serão todos fantasmas desde o primeiro plano. 144141) Dois Disparos (Dos Disparos) (Martin Rejtman)
Primeiro longa de ficção de Martin Rejtman em mais de uma década e uma lembra-se de que ele segue um dos cineastas argentinos essenciais. Como sempre em Rejtman o que dá o tom é o inexplicável do mundo, Em Dos Disparos, o olhar preciso do diretor serve só para reforçar mais a opacidade de cada uma das ações: elas existem por si mesmas, sejam elas um tiro, um beijo, uma fuga. Uma garota pode lhe dar bola e quase forçar a barra numa festa na presença do namorado e desaparecer da sua vida semanas depois, ou uma bala pode sumir dentro do seu corpo e seguir ressoando como um fardo constante. O longo verão passa e só reforço o mistério das coisas a sua volta. 144040) Los Angeles Red Squad: The Communist Situation in California (Travis Wilkerson)
Outras das lições históricas de Travis Wilkerson, parte de um novo projeto do cineasta de lidar com a presença da policia na sociedade americana. No caso o grupo policial que lidou com a “presença comunista” (leia-se sindicatos e pequenos grupos de esquerda) na California no intervalo entre as duas guerras mundiais. Wilkerson é um resistente e num momento em que a policia é tão discutida tanto lá quanto aqui seu filme é essencial. 143939) Amor a Primeira Briga (Les Combattants) (Thomas Cailley)
Uma das gratas surpresas do ano esta comédia romântica francesa que venceu a Quinzena dos Realizadores. De uma leveza e sentimento de invenções próprios assombrada por um tom apocalíptico que sugere uma Europa consciente que chega ao fim, e ao mesmo tempo dominada por toda energia da presença de cena dos seus jovens amantes. 143838) Do que Veio Antes (Mula sa kung ano ang noon) (Lav Diaz)
O cinema de Diaz nunca abandona o fantasma histórico da ditadura de Ferdinando Marcos, mas poucas vezes o confrontou de forma tão direta como aqui. Uma obra terrível sobre como o pensamento fascista aos poucos toma conta de uma sociedade. Não sei se o filme chega a ser tão inventivo como os melhores trabalhos de Diaz, mas é uma experiência muito forte. 143737) The Midnight After (Fruit Chan)
Chan esta no seu melhor sempre quando lida mais diretamente com o que significa pertencer a Hong Kong como nesta alegoria sobre identidade local que passeia por gêneros (comédia, sci-fi, terror, musical) com a mesma desenvoltura com que faz livres associações com vários fantasmas que assombram os habitantes da cidade. Muito bom ter o bom Chan de volta. 143636) Batguano (Tavinho Teixeira)
A meia idade de Batman e Robin como um casal gay saído de um filme de Jacques Nolot. Um retrato de desejo e desaparecimento no meio de um espaço de dejetos de cultura pop. Sem dúvidas um dos grandes momentos de invenção do cinema brasileiro recente. Confesso que a dificuldade do filme de circular, mesmo aqui no Brasil, segue me surpreendendo um cenário no quais os filmes (mesmo os melhores) frequentemente não resistem a certo apelo fácil, Batguano é um OVNI muito especial. 143535) Journey To West (Tsai Ming-liang)
Corpos no espaço. Tsai Ming-liang segue o projeto de Walker neste média ainda mais radical. A entrada em cena de Denis Lavant, o grande ator físico do cinema atual, casa perfeitamente com a encenação de Tsai, 143434) Minhas Sessões de Luta (Mes séances de lutte) (Jacques Doillon)
Jacques Doillon parte de algumas ideias caras a sua geração do cinema francês (a centralidade do casal, o amor como algo que reduz o homem a puro instinto) e as torna literais com grande vigor. O filme puxa seu conceito a tal extremo que é impossível não admira-lo. A ultma meia hora em particular é notável na forma como reduz a encenação ao essencial: dois corpos atraídos. Still from Clint Eastwood's Jersey Boys33) Jersey Boys (Clint Eastwood)
Jersey Boys é um filme perverso, um musical que conserva a musica, mas perde os seus números. Se o filme foge de ser um musical ou uma biografia, sua preocupação  principal é a de estabelecer um mundo: o da colônia italiana de Nova Jersey nos anos 1950, seus hábitos e pequenos gangsters. Pode-se dizer que estamos menos num filme musical do que num filme de gangster nos quais os pequenos criminosos evoluem não para uma vida de grandes crimes, mas para a de pop stars. Jersey Boys dedica boa parte de suas forças a estabelecer aquele lugar do qual será impossível escapar, independente de fama e dinheiro. Trata-se, porém, um pouco como Honkytonk Man – a experiência anterior de Eastwood com o musical híbrido – menos de um filme de nostalgia do que de um filme memorialístico. 143232) Pays Barbare (Yervant Gianikian, Angela Ricci Lucchi)
Um império sonha com conquista e deixa traços de horror para trás. A função do cinema é de encontrar eles e dar lhe peso material. Como todos os filmes do casal Gianikian e Ricci-Lucchi trata-se de uma imersão terrível nos restos visuais da destruição do capital e seus efeitos colaterais humanos. 143131) The Guests (Ken Jacobs)
Ken Jacobs pega um pequeno filme dos irmãos Lumiere e o retrabalha como um longa metragem 3D. The Guests se constrói neste intervalo entre o cinema do século XIX e do século XXI. Poderia se chamar “O Discreto Horror da Burguesia”, ainda convencido que o moleque da fila da frente viajou no tempo de um filme de criança possuída dos anos 80 para uma festa de casamento francesa do fim do século XIX. 1430142929) El Futuro (Luis Lopez Carrasco) e The Second Game (Corneliu Porumboiu)
Lembro que quando escrevi sobre estes dois filmes durante o Olhar de Cinema em Junho passado ficou óbvio para mim que terminei com dois textos muito parecidos justamente porque o mecanismo dos dispositivos deles recuperarem a História a partir de triangulações semelhantes. No filme de Carrasco se reconstrói uma festa que comemora a primeira vitória nas eleições locais do partido socialista, no de Porumboiu um clássico de futebol arbitrado pelo seus pai as vésperas da revolução romena. Um fora de campo informa as ações das imagens (produzidas no filme espanhol, retiradas de um VHS velho no filme romeno) que são ao mesmo tempo repensadas pelas situações presentes. No caso do filme do Carrasco troque o PSOE pelo PT e começo dos anos 80 pelos 2000 e os paralelos para nós brasileiros são bem perturbadores. 142828) At Berkeley (Frederick Wiseman)
O documentário de Wiseman sobre a Universidade de Berkeley, quatro horas imersivas que para além de nos instalarem nos corredores da universidade captam um momento chave das discussões sobre ensino público. Filme capital nestes tempos em que o governo Alckimin usa a Folha para lançar balão de ensaio da ideia de semi privatizar a USP. DUMB AND DUMBER TO, from left: Jim Carrey, Rob Riggle, Jeff Daniels, 2014. ph: Hopper27) Debi e Loíde 2 (Dumb and Dumber To) (Bobby & Peter Farrelly)
Debi e Loide 2 não é só um retorno aonde tudo começou numa tentativa de reviver as glórias passadas, mas, de forma muita consciente, um filme sobre o espaço de vinte anos que o separa do primeiro filme. O filme que ele traz à mente é Os Irmãos Caras de Pau 2000, que John Landis e Dan Aykroyd também realizaram vinte anos após o sucesso de Os Irmãos Cara de Pau, mas este novo filme é, menos um lamento, como o de Landis, do que uma grande celebração, um gesto de independência que reforça que o misto de grosseria e sentimentalismo de Lloyd Christmas e Harry Dunne foi o que primeiro tornou seus diretores famosos, e de que é a ele que desejam retornar. 142626) Amar, Beber, Cantar (Aimer, boire et chanter) (Alain Resnais)
O derradeiro filme de Alain Resnais. Outra aula de uso do artificio teatral, aqui com ênfase no fora de campo, para construção cinematográfica. O comentário metalinguístico do texto é um pouco fácil, mas Resnais encontra formas de anima-lo com seus planos precisos. O filme rendeu meu texto crítico favorito do ano, cortesia do Boris Nelepo. 142525) A Professora do Jardim de Infância (Nadav Lapid)
Lapid segue seu projeto de dissecar as psicoses israelenses. Ao contrário de Polieman, existe muito mais espaço para ambiguidade e ambivalência na alegoria aqui (assim como uma notável disposição para fazer com que o garoto poeta sob o qual o filme todo gira signifique tantas coisas diferentes a cada momento), ao mesmo tempo em que se constrói com uma precisão matemática até um plano final inevitável. 142424) A Princesa da França (La Princesa de Francia) (Matias Piñeiro)
No principio há uma pelada de futebol que a posição da câmera torna palco de teatro. Da liberdade do jogo, chega-se a um jogo de cena. Pois se este novo trabalho acrescenta novos elementos ao cinema do diretor argentino, é justamente ao permitir que este jogo entre liberdade e controle ganhe contornos ainda mais fortes: em A Princesa da França, o prazer da fabulação ao mesmo tempo permite ao filme grandes saltos de imaginação, mas também obriga suas personagens a lidarem com os papeis que cada uma recebeu. Pode-se dizer que seja um filme sobre esta negociação, esta busca pela liberdade em meio a uma intriga pré-determinada. 142323) Phantom Power (Pierre Léon)
O último trabalho de Pierre Léon é um bloco de notas livre de coisas que lhe apaixonam e ao mesmo tempo assombram. Me fez pensar muito nos filmes diário do Jairo Ferreira. Tem a mesma liberdade e abertura para o mundo alternando o registro da colagem até momentos encenados com o cuidado que esperamos de Léon. Me agrada em particular como as sequencias ficcionais são inseridas ao longo do filme produzindo um respiro com a presença dos seus jovens atores que reforçam a lufa dear renovador que o filme como um todo promete. 1422142121) De Volta ao Jogo (John Wick) (Chad Stahelski, David Leitch) e It Follows (David Robert Mitchell)
Os dois melhores filmes de gêneros americanos de 2014. De Volta ao Jogo é um filme de ação dirigido por dois dublês que compreendem muito bem como coreografar movimento e valoriza-lo com suas encenação e demonstra uma grande imaginação e disposição para abraçar a selvageria que seu material pede. De quebra, a melhor sequencia de ação do ano (a do tiroteio no clube noturno) unindo múltiplos espaços e um movimento dramático constante que encontra novas formas para renova-la. Já It Follows é um filme de terror carpenteriano que une um trabalho de composição cuidadoso digno deste com o bom olha para vida adolescente nos subúrbios que já caracterizava o trabalho de David Robert Mitchel. É um filme retro que nem por isso se vê preso ao passado. 142020) A Vida Invisível (Vitor Gonçalves)
O grande retorno do Vitor Gonçalves após 27 anos. A incerteza da juventude de Uma Rapariga de Verão se torna as decepções da meia idade. Todo um país em suspensão vivendo numa casa assombrada envolto nas sombras. Uma verdadeira vida invisível. Um grande complemento a Cavalo Dinheiro, já que tratam de dois relatos dos mortos vivos portugueses a partir de olhares de classe diferentes. 141919) O Ciúme (La jalousie) (Philippe Garrel)
Philippe Garrel revisita o divorcio de seus pais num filme de tamanha simplicidade que quase se desmancha diante de nós. O olhar de Garrel tem a segurança de quem tem uma vida toda de dores amorosas para apoiar este retorno e em Anne Mouglais (como a nova amante do pai) uma das suas melhores atrizes. Uma beleza de se ver. 141818) Ela Volta na Quinta (André Novais Oliveira)
André Novais estreia no longa metragem fabulando sobre o fim fictício do casamento dos pais. Ela Volta na Quinta é um filme que o une a aspereza do tema com a generosidade de olhar. Um filme onde as coisas estão sempre prontas a desaparecer, coisas estas que são todas muito caras ao realizador. Um apocalipse particular a partir da desunião do casal nuclear da família. E como o Raul Arthuso bem observou na Cinética tem também um olhar sobre popular bem único no cinema brasileiro (não só recente). 141717) It Felt Like Love (Eliza Hittman)
O despertar sexual de uma adolescente de 14 anos observado com cuidado e aspereza raros. Um mergulho concreto em corpos, objetos, gestos bruscos, olhares perdidos. Tem a força do relembrar no sentido concreto do termo: dele sobram momentos furtivos, coisas, pequenos relances, como as nossas lembranças de verões adolescentes tendem a ser. Uma abordagem que faz todo sentido num filme tão ocupado pelo desejo de recuperar um olhar adolescente para o sexo. Um belo filme de estreia. 141616) Belluscone: una storia siciliana (Franco Maresco)
Espécie de resposta tardia ao Il Caimano do Moretti. Berlusconi aqui é menos o criador de uma Italia doente e dominada por uma vulgaridade do que hábil explorador de um mal estar geral que esteve sempre ali. Trata-se no final das contas de outra das tragicomédias da vida italiana que Maresco e seu antigo parceiro Danielle Cipri se especializaram em contar, mas a tragédia aqui abarca toda a Itália. Uma exploração da psicose de uma nação que se recusa qualquer cartase, Berluscone pode deixar o poder, mas Maresco sabe que sua presença segue sentida. Os interesses de Maresco são claras (cultura italiana na era da televisão, a máfia e o estado como forças complementares e Berluscone como o momento que elas se casam) e o subtexto nunca mencionado de que as ascensões de Berluscone e Cipri/Maresco serem paralelas dá ao filme uma força extra. Isto sem falar Ciccio Mira, um produtor de shows com ligações com a máfia e duplo siciliano do ex-presidente e estrela maior do filme, um personagem que na sua grandeza e existência ao mesmo tempo tão terrível e engraçada que só poderia mesmo surgir de um filme de Franco Maresco. 141515) Um Novo Dueto (Une Autre Vie) (Emmanuel Mouret)
Mouret troca a comédia pelo melodrama, mais conserva seu gosto por formas antigos e o caráter renovador das suas imagens. Como uma recuperação do espirito romanesco, Um Novo Dueto não deixa nada a dever ao último James Gray. É o melhor filme de Mouret até aqui e solidifica o projeto cinematográfico dele, um dos mais subestimados da atualidade. 141414) Bird People (Pascale Ferran)
Bird People é, entre muitas outras coisas, uma das mais originais variações sobre Janela Indiscreta já feitas. À investigação sobre a natureza do cinema de Hitchcock, Ferran soma seu questionamento sobre liberdade para afirmar o cinema como este espaço no qual, com devida coragem e imaginação, tudo será possível e aceitável; basta a disposição para dar um salto no desconhecido. 141313) Hard to be a God (Aleksey German)
Um mergulho num mundo próprio de um simulacro de idade média reconstruída como uma obsessão por detalhes sem iguais. Antes de qualquer outra coisa um destes raros filmes que promovem uma experiência única. O desejo regressivo de uma parcela do cinema russo jamais encontrou tradução tão forte. 141212) Bem Vindo a Nova York (Welcome to New York) (Abel Ferrara)
Bem Vindo a Nova York é carregado de informações, locações, pontas de figuras verídicas associadas ao caso. Muita informação, muito trabalho de pesquisa e toda uma pretensa autenticidade, só amplificada pelo corpo de Depardieu (exposto sempre) que entrega uma segunda verdade e associações tanto sobre a figura Depardieu como a de Dominique Strauss-Kahn. O filme, porém, trabalha na direção de dissolver toda esta autenticidade em luz, formas, sombras. Se num filme como A Hora Mais Escura, a informação parece bastar como um valor em si, em Bem Vindo a Nova York ela é só um primeiro passo, a pretensa autenticidade é um ponto de partida que precisa ser superado para chegar numa ideia plena de representação 141111) Snowpiercer (Bong Jong-ho)
A parabola de Bong Jong-ho sobre a necessidade de buscar novas formas de representação é um dos filmes políticos mais interessantes do ano justamente pela maneira com que busca imaginar uma quebra de paradigma. Bong segue um dos cineastas mais inventivos e dispostos a alterar tons e buscar saídas inesperadas a trabalhar numa chave de cinema popular. 141010) Seventh Code (Kiyoshi Kurosawa)
Um thriller de conspiração a partir de uma comédia romântica asiática. É um filme sobre os prazeres do contar uma história, previsto sempre na antecipação, nossos desejos e expectativas. O uso de uma não atriz (a cantora de J Pop Atsuko Maeda) e a ênfase constante na ideia de personas e atuação (o filme literalmente quebra a quarta parede no seu final) e clima conspiratório sugerem Jacques Rivette, particularmente o de meados dos anos 70, revisto sem o mesmo peso. “Não confie em qualquer um”, a protagonista ouve em duas ocasiões, e o filme é todo construído sobre a ideia da confiança entre espectador e o filme, até que ponto ela pode ser estendida e as possibilidades da imaginação em preencher este espaço. 14099) Adeus a Linguagem (Adieu au langage) (Jean-Luc Godard)
Quando Godard fala em linguagem sabemos que se refere ao olhar de cinema. O homem visto pelo cão. Meus Godards favoritos costumam ser aqueles que unem desencanto elegíaco com um um retorno a um primitivismo dos corpos, que apresentam um homem num estado animalesco (em suma, meu Godard favorito é o dos anos 80), fazia tempos que ele não fazia um filme numa nesta chave. Mas tem mais Godard nunca diz adeus a algo sem ao mesmo tempo propor outra coisa em troca e no seu uso de 3D localiza uma das suas mais ricas formas de repensar nossa percepção. 14088) Cavalo Dinheiro (Pedro Costa)
A revolução dos Cravos revista pelo olhar de Ventura. Um filme sobre a historia, da história com poucos paralelos no cinema recente. É uma pena que ele venha justamente no momento que a cinefilia resolveu finalmente elevar Costa ao panteão dos mestres pois boa parte das celebrações do filme apagam muito do que ele tem de especifico, o que étão importante num fllme dedicado a recuperar este olhar de Ventura. E Vitalina é outra grande personagem descoberta por Costa. 14077) The Tale of the Princess Kaguya (Isao Takahata)
A despedida de Takahata da animação vai até uma antiga lenda japonesa para realizar uma defesa apaixonada da animação japonesa tradicional. Filme de uma delicadeza de encher os olhos de lágrimas. 14066) Tristeza e Alegria (Sorg og glæde) (Nils Malmros)
Menos físico, mas tão duro auto exame quanto o melhor dos filmes autobiográficos de Maurice Pialat. Tristeza e Alegria vai a um território muito duro sobre estar numa posição priveligiada tanto no set de filmagens quanto na vida de um casal, sobre arte como forma de auto expressão e sobre o que significa se entregar a outra pessoa. O filme de Malmros parte de uma tragédia real que lhe abateu três décadas atrás que é difícil até de pensar sobre e chega até um ponto final de graça que é conquistada. Este é o último filme de Malmros e pela evidencia dele trata-se de um mestre que precisa ser redescoberto. 14055) Three Landscapes (Peter B. Hutton)
Quando monto estas listas sempre digo a amigos que a coisa menos importante delas é a posição dos filmes, mas isto vale em dobra no caso de Three Landscapes pois vi o filme pela primeira vez esta semana e é uma destas experiências marcantes que ainda não assentou por completo. Três espaços, três paisagens marcadas pela presença do homem e três experiências de progresso. Vendo o filme pensei muito em Straub. Há muita coisa para escrever e pensar sobre o filme, mas o que primeiro ficou para mim é a maneira como Hutton consegue filmar o vento. 14044) Noites Brancas no Píer (Nuits blanches sur la jetée) (Paul Vecchiali)
Uma experiência de luz. Vecchiali parte do livro de Dostoevski i para filmar a noite e como a luz incende sobre corpos, espaços, a agua do cais. Filme belíssimo. 14033) A Moça e os Médicos (Tirez la langue, mademoiselle) (Axelle Ropert)
Um conto de três pessoas perdidas na noite cheia de desejo e incerteza e uma diretora disposta a permitir que a graça as alcance de surpresa. Me fez pensar numa ver~são em miniatura do Medos Privados em Lugares Públicos. E a fotografia da Celine Bozon segue a arma secreta do melhor cinema francês: aqueles planos da Louise Bourgoin andando pela noite do bairro chinês com aquele casaco vermelho por si só vale muitos e muitos filmes. 14022) Jauja (Lisandro Alonso)
Jauja se passa não no século XIX argentino mas na terra das possibilidades de cinema. Sua beleza intimamente ligada a sua disposição em transformar Argentina em puro mito cinematográfico. O único equivalente que consigo pensar do filme são os primeiros filmes do João César Monteiro (Veredas, Silvestre) que fazem algo similar com Portugal medieval. A cada novo movimento Alonso consegue tornar seu filme mais especial e assombroso. Um filme essencial na sua obra menos por abrir novos caminhos, mas por afirmar o que já estava lá desde de La Libertad que Alonso é sobretudo um grande fabulista. O que Alonso produz aqui é um ato de generosidade para o próprio país com poucos paralelos: pegar sua paisagem e sua história e transforma-los em algo que só possa existir como cinema. 14011) Dialogo de Sombras (Dialogue D’Ombres) (Jean-Marie Straub, Danielle Huillet)
Uma imagem leva a outra, O cinema sempre pronto a retornar ao passado e mantê-lo vivo. O mais belo filme de cinema desde Le Genou d’Artemide no qual não por coincidência Straub também lidava com sua relação com Danielle Huillet.

2 Comentários

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2 Respostas para “Meus Favoritos de 2014

  1. everaldo pontes

    ……..o que é a linguagem comparada à epifania da sala escura e a experiência do contato da retina com a dança da luz…………bat-guano
    e a sensação do quadrado da vida.

  2. Pingback: Ni | Hai, dozo

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