Arquivo do mês: maio 2010

Segurança Nacional

Crítica na Cinética.

Também na Cinética repostaram minha crítica de Solo do Ugo Giorgetti da época da Mostra.

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Revisitando Howard Hawks, semana 2: Paid to Love (1927)

Paid to Love é não só um dos trabalhos mais raros de Hawks, mas um dos filmes que parecem mais desagradar seu realizador. Com o tempo ganhou certa reputação como o “filme de arte” de Hawks que a combinação da sua invisibilidade com as palavras duras do cineasta ajudou a espalhar. É verdade que o filme como muitos dos trabalhos realizados na Fox logo após os copiões de Aurora começarem a circular lança mão ocasionalmente de fotografia à Murnau (apesar do trabalho de câmera majoritariamente ter a simplicidade de sempre de Hawks), mas passa bem distante desta descrição.

Isto dito, Paid to Love coloca Hawks em curioso território estrangeiro muito mais próximo de Lubtisch do que do seu cinema habitual. O cineasta emprega um olhar bem mais seco e pragmático sobre o universo retrato do que o habitual no subgênero dos filmes que vendiam exotismo europeu (geralmente com tramas importadas de operetas) bem populares à época. Ainda assim é inegável que aristocracia européia é um espaço estranho ao Hawks, assim como o romance de verve lubtischiana e por mais que ele busca preencher o filme de detalhes que lhe interessem, há um desencontro entre cineasta e objeto que nunca se resolve de todo. Não surpreende a informação de que este seja dos poucos projetos de Hawks que ele não desenvolveu – precisou arranjar um projeto extra após alguns dos que viam desenvolvendo atrasaram –, o que explica um pouco da má vontade de Hawks para com o filme. È interessante apontar que o roteirista original do filme, Seton Miller, se tornou o principal escritor de Hawks nós quatro anos seguintes, o que sugere que a experiência de Paid to Love foi provavelmente melhor do que Hawks sugere.

Uma descrição da trama principal é muito informativa: um país fictício do leste europeu que vê um empréstimo ameaçado pela falta de interesse do príncipe herdeiro em mulheres, o que obriga o rei e o embaixador americano importar uma dançarina para despertar o interesse do rapaz. Só que eles se conhecem sem saber da identidade um do outro e se apaixonam. Qualquer bom editor diria que eu apresentei a sinopse de forma a enterrar o que seria o principal. Só que é assim que Paid to Love se apresenta (o filme gasta vinte dos oitenta minutos com a introdução e não porque ele busque algum ritmo mais deliberado). É como se a moldura do filme tomasse conta dele, sufocasse toda a ação central.

É um filme curioso para este projeto na medida em que é um dos mais frágeis do cineasta e ao mesmo tempo um dos que lhe apresentam mais distantes do seu meio natural. A reação fria é conseqüência disso ou de algo inerente ao filme e somente a ele? Eu diria que o segundo é mais provável, apesar da ausência de familiaridade certamente ajudar a ele não receber o desconto que muitos filmes menores de mestres freqüentemente levam. O próprio Hawks parece buscar esta familiaridade com elementos como os hobbies do protagonista ou a maneira como a dançarina sugere um primeiro protótipo da mulher da vida que de Louise Brooks em A Girl From Every Port a Angie Dickinson em Rio Bravo surgem para de forma mais ou menos benigna atraplhar a vida dos seus heróis. O resultado final sugere dois personagens hawksianos perdidos em meio a maquinações que pouco lhes dizem respeito.

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Cannes

Alguns filmes certamente imperdiveis

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Revisitando Howard Hawks, semana 1: Fig Leaves (1926)

Já a algum tempo tateio com está idéia que finalmente coloco em pratica: visitar/revisitar toda a filmografia do Howard Hawks em ordem cronológica. Em parte pelo prazer cinéfilo inegável que a obra dele me proporciona, mas muito também como exercício crítico. A carreira de Hawks afinal é “repetitiva”, com os mesmos temas, situações e por vezes personagens essencialmente reaparecendo em múltiplos filmes. É um cinema convidativo para uma abordagem autorista, mas também perfeito para exercermos certa preguiça crítica. Eu próprio tenho curiosidade em saber se ainda terei muito a dizer na altura de meado dos anos 50, espero que sim, já que parte do meu objetivo aqui é justamente buscar o que me fascina nestes filmes tanto nas suas generalidades como nas suas particularidades. Não pretendo fazer apartes sobre a crítica, mas o projeto é mesmo tanto sobre ela – e especialmente minha atividade nela – como sobre Hawks. Poderia fazer alguns artigos de auto-analise, mas tenho certeza que está série de textos será muito mais produtiva para mim e bem menos chata para vocês.

Algumas considerações gerais antes de começar:
– A idéia é cobrir um filme por semana, mas tenho certeza que falharei ocasionalmente. Pelas minhas contas cobrirei 38 filmes e me dou por satisfeito se Rio Lobo for coberto no fim de Abril do ano que vem. Espero que sejam pacientes já que a primeira metade da filmografia dele é marcada por filmes pouco vistos hoje: o primeiro que muitos devem ter visto, Scarface, é o 7º na minha ordem aqui e só a partir de Levada da Breca, o 16º, é que os filmes conhecidos se tornam mas comuns que as raridades. Eu mesmo só conhecia 3 dos primeiros 10 filmes (A Girl in Every Port, A Patrulha da Madrugada e Scarface), então estas primeiras semanas terão um olhar mais limpo da descobertas. Alias, usem estes textos de desculpa para ver os Hawks que não conhecerem, A Patrulha da Madrugada seria o melhor filme de 2010. Tenho certeza disso!

– Os textos vão ser mais longos do que o habitual aqui. Pelo menos 3 mil toques, mas prometo que nada tão interminável quanto os 22 mil que gastei com Rio Lobo uns 6 anos atrás.

– Como a idéia aqui é acompanhar a carreira completa de Hawks devo entrar com freqüência em detalhes de produção para dar um contexto maior aos filmes.


Howard Hawks partiu para as filmagens de Fig Leaves (26), tão longo acabara de finalizar sua estréia The Road to Glory. Segundo o diretor – sempre fonte questionável dada a sua mitomania – o segundo filme surgiu como espécie de resposta ao primeiro, numa tentativa de mostrar que poderia realizar um longa com grande apelo junto ao público (as descrições existentes sugerem que The Road to Glory era um melodrama um tanto pesado e muito pouco ao afeito do seu cineasta). Como empreendimento suas premissas são bem claras com uma estrutura tirada do muito popular Os Dez Mandamentos original de Cecil B. DeMille (prelúdio bíblico seguido de ação contemporânea) e uma trama cômica ligeira de guerra dos sexos com um par de atores muito populares (George O’Brien, Olive Borden). Começamos com Adão e Eva reencenando as agruras de um casamento num Éden todo anacrônico com um Adão turrão e uma Eva que não para de reclamar de que precisa de vestidos melhores até dissolvemos para os EUA em 1926 quando o encanador Adam Smith está as turras com a pressão da esposa Eve que quer uma mesada maior para poder comprar obviamente mais vestidos.

Se o gancho da estrutura é primeiramente uma forma de vender o filme junto ao espectador, ele termina por ser essencial ao projeto como um todo.Permitindo ao filme costurar uma sensação constante de permanência que termina diferenciando-o de outras comédias do tipo feitas á época. Não pelo contraste, a piada óbvia, ou pela simples repetição, mas pela forma como a postura de George O’Brien permanece imutável seja diante da estilização cartunesca do Éden ou do suposto naturalismo de estúdio das cenas contemporâneas. A comédia é a mesma no espaço absurdo como na ilusão do real, assim como o casal.

Fig Leaves se destaca pela sua forma arejada e moderna. É um filme que soa estranhamente atemporal na medida em que parece existir a parte do cinema da época. A concepção de comédia de Howard Hawks tem pouca relação seja com a boa ou com a má comédia muda, o que fica claro por exemplo na forma como o filme coloca ênfase na troca de diálogos nos intertítulos. O humor de Fig Leaves parece existir seis ou sete anos deslocado no tempo e ficaria mais a vontade na primeira época das screwball comedies.

Há algo de extremamente arejado no projeto do filme como um todo. Primeiro sinal da atitude “do que podemos fazer para nos divertirmos um pouco aqui?” que é tão freqüente na filmografia do diretor. As seqüências do Éden, por exemplo, estilizam toda a direção de arte e figurino de forma a criar um absurdo constante e brincar de forma jocosa com a percepção do espectador do que seria o paraíso (que termina soando mais com uma “idade da pedra” cartunesca do que o habitual sentido bíblico). Mais tarde, quando o diretor precisa filmar uma série de desfiles de moda – uma das complicações da trama é justamente Eve se tornar secretamente uma modelo – procura se evitar o tom protocolar da mesma maneira mesmo que contando com muito menos elementos para isso. Nesta busca acaba sendo muito útil a presença de George O’Brien cuja figura um tanto aborrecida poucas vezes fora tão bem utilizada.

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Os Amantes do Pont Neuf

Artigo escrito por mim para o folheto da Sessão Cinética sobre o belo filme do Leos Carax.

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William Lubtchansky (1937-2010)

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As Melhores Coisas do Mundo (Lais Bodanzki,10)

O maior mérito de As Melhores Coisas do Mundo é justamente o que ele tem de conservador que captura bem certo universo de colégios classe média alta. Infelizmente vem em parte daí a pior qualidade do filme a forma que o suposto afeto do filme esconde um olhar impiedoso contra quem desvie do seu universo “positivo”.  O problema é muito menos o que este olhar tem de excludente e mais de que ele vem acompanhado de um esforço constante de soar afetuoso e terno, lembrete de que ver Truffaut de mais na sua formação pode ser algo muito nocivo a um cineasta.  Isto soma num outro problema do filme que a pesquisa sobre o universo dos adolescentes resulte justamente nisso uma pesquisa que se encaixa num roteiro absurdamente costurado em que nada na vida dos seus jovens exista sem estar lá perfeitamente amarrado ou para servir como exposição do trabalho de pesquisa ou para mover seus dramas. Para um filme que se propõe a primordialmente ficar ali em meio a suas personagens e seu mundo é curiosamente desprovido de momentos que façam justamente isso, tudo aqui é um dado e uma função. Seu mundo é mais asfixiante que natural. O outro grande problema é algo que Luis Carlos Oliveira Junior flerta na crítica dele na Contracampo: há dois filmes aqui, o que acompanha os adolescentes e o drama da dissolução familiar e eles simplesmente funcionam pessimamente juntos. Casa a Lais Bodanzki partisse para realizar só um deles, o resultado final certamente teria uma força maior.

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