Filmes Favoritos de 1986

Rosa la Rose, Garota de Programa (Paul Vecchiali)

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Dois meses atrás eu decidi que faria uma lista de favoritos de um ano aleatório dos anos 80 e terminei escolhendo 1986. Passei os últimos dois meses vendo/revendo filmes do ano e montando a lista abaixo (creio que não tem mais que meia dúzia que eu não assisti em algum ponto da última década). Ela é bem longa, mas não diria exaustiva ou especialmente objetiva e acredito que todos eles valem ser vistos por quem se interessar por eles. Como sempre gosto de reforçar nessas listas a ordem é bem pessoal e aleatória e se eu diria que gosto mais do 24º do que do 48º e que este que o 72º, não teria a mesma certeza quando comparado a filmes que ficaram 3 ou 4 posições acima ou abaixo de qualquer um deles.   

Inventário da Rapina

Meus curtas favoritos do ano são Inventário da Rapina (Aloysio Raulino) e Night Music (Stan Brakhage). Alguns outros que gosto bem Alger la Blanche (Cyril Collard), L”Empire de Médor (Luc Moullet), Meeting’ WA (Jean-Luc Godard), New York, NY (Raymond Depardon) e T’as de Beaux Escaliers, tu Sais (Agnes Varda).

150) Born to Defend (Jet Li)
A lista inclui muitos filmes de ação de Hong Kong que estavam no seu momento de explosão então vou repetir o elogio a coreografia e o cuidado com o movimento vai ser recorrente aqui. Este foi o único longa que Jet Li dirigiu, bem próxima de Bruce Lee como herói do nacionalismo chinês e está qualidade musical é visível.

149) Noir et Blanc (Claire Devers)
Conto perverso de sedução e masoquismo em algum lugar entre Fassbinder e Jamursch.

148) La Noche de los Lapiches (Hector Olivera)
Filme sobre a política de “desaparecimento” da ditadura argentina feito logo após a sua queda e de um imediatismo que lhe empresta muita força.

147) Rosa Luxemburgo (Margarethe Von Trotta)
Política como um teatro de verdade. A performance de Sukowa é o significado do filme.

146) Witch from Nepal (Ching Siu-Tung)
Filme de super-herói, romance supernatural, filme de horror, aventura exótica. Cabe tudo aqui e tem um Chow Yun-Fat ótimo e como sempre em Ching Siu-Tung imagens expressivas e alucinatórias.

145) Big Joys, Small Sorrows (Keisuke Kinoshita)
Kinoshita no final da carreira num melodrama familiar que exemplifica bem seu olhar humanista.

144) Jazz Daimyo (Kihachi Okamoto)
As dicotomias entre oriente e ocidente pela lente satírica de Okamoto.

143) Parting Glances (Bill Sherwood)
As coisas acabam, mas o desejo por mais permanece.

142) True Stories (David Byrne)
David Byrne no auge da popularidade de Talking Heads aproveitou para fazer este filme que exibe a sua veia populista no que ela tem de mais excêntrica e acolhedora. Só a fotografia do Ed Lachman já justificaria estar na lista.

141) The Devil’s Honey (Lucio Fulci)
É bem o que esperaríamos de um drama erótico de Fulci, ou seja, é torturado e decadente muito mais que prazeroso. Já vale pela cena em que saxofone é usado como vibrador.

140) A Hearty Response (Norman Law)
Um destes filmes de Hong Kong com elementos dispares muito equilibrados começa quase com uma comédia leve e termina trágico e violento.

139) Curtindo a Vida adoidado/Ferris Buller’s Day’s Off (John Hughes)
Eu sou bem mais frio a respeito de Hughes do que muitos críticos, mas este é perfeitamente concebido e muito engraçado.

138) A Noite dos Arrepios/Night of the Creeps (Fred Dekker)
Surpreendentemente triste para um pastiche como este.

137) Regalo di Natale (Pupi Avati)
O mundo numa mesa de poker.

136) Acta General de Chile (Miguel Littin)
Um filme processo sobre dar conta da ditadura chilena.

135) Dangerous Close (Albert Pyun)
Pyun é um grande cineasta do pós-apocalipse mesmo quando a distopia é o aqui e agora.

134) Max mon Amour (Nagisa Oshima)
É uma proposta mais que um drama, mas Oshima tira dali um retrato surpreendentemente terno.

133) Down by Law (Jim Jamursch)
Três formas de imaginar e vivenciar o mundo mediadas por Jamursch.

132) Armour of God (Jackie Chan)
Jackie quase se matou no set deste para a diversão dos seus fãs então o mínimo que eu posso fazer é inclui-lo aqui. Não é um Police Story, mas as três sequencias principais de ação são exercícios físicos concebidos e executados como poucos.

131) Last Song in Paris (Chor Yuen)
Uma das melhores coisas do cinema de Hong Kong dos anos 80 é que eles tinham uma linha de produção infinita de jovens estrelas este aqui tem Leslie Cheung, Anita Mui, Cecilia Yip e Joey Wong, todos excelentes e passeia com desenvoltura por melodrama romântico, comedia e números musicais.

130) Hannah e Suas Irmãs (Woody Allen)
Um dos filmes mais acessíveis de Allen, a ciranda amorosa entorno das irmãs é bastante mecânica, mas como ela é bem menos dependente da personalidade dele, bem mais satisfatória também.

129) Cabaret (Haruki Kadokawa)
Cinema se misturando a vida noturna. As imagens de Kadokawa se mistura as texturas do clube no centro da ação.

128) Two Friends (Jane Campion)
Primeiro filme de Campion feito para TV australiana e acompanhando de trás para frente a dissolução da amizade de duas adolescentes. O talento dela para capturar o ritmo particular de um personagem já era bem visível.

127) Modern Girls (Larry Kramer)
Tão low key que é quase experimental na sua dedicação a lugar e tempo.

126) Magic Crystal (Wong Jing)
Somente Wong Jing poderia decidir copiar Indiana Jones e ET ao mesmo tempo e terminar com um filme bem mais divertido. A coreografia de ação é espetacular e embora nada faça sentido tem sempre algo insano acontecendo.

125) The Ladies Club (Janet Greek)
Um dos filmes mais curiosos vindos do subgênero de filme de estupro e vingança e faz coisas mais interessantes com ele que muitas das tentativas revisionistas recentes.

124) Brotherhood (Stephen Shin)
Um dos primeiros filmes feitos na cola do sucesso de A Better Tomorrow. Tem sua boa dose de tiroteios, mas como manda o gênero é mesmo sobre homens sofrendo sobre como amam outros homens. E o diretor Shin balanceia o filme muito bem entre lealdade e desespero financeiro que leva a criminalidade.

123) Happy Din Don (Michael Hui)
Michael Hui já era uma estrela em Hong Kong fazia uns bons 15 anos quando fez Happy Din Don, tempo o suficiente para fazer o que quiser inclusive refilmar Quanto Mais Quente Melhor porque deu vontade.

122) Le Paltoquet (Michel Deville)
Essencialmente um experimento para atores e Deville usa alguns dos melhores disponíveis para um cineasta francês no meio dos anos 80.

121) Great Shanghai 1937 (Chang Cheh)
Chang Cheh depois da Shaw Brothers. O misto de panorama histórico e conto de irmandade que ele sempre adorou, mas numa versão mais crua e menos sedutora que nos anos 70.

120) Peggy Sue, seu Passado a Espera/Peggy Sue Got Married (Francis Ford Coppola)
Um dos melhores filmes de encomenda de Coppola. Merece estar aqui nem que fosse pela forma que a Kathleen Turner varia entre interpretar uma adolescente e uma mulher de trinta e tantos anos exclusivamente via linguagem corporal.

119) Comboio do Terror/Maximum Overdrive (Stephen King)
Obviamente um filme de amador, mas não lhe falta visão e como imagem de uma sociedade consumindo a si mesma é uma alegoria de horror bem forte.

118) A Cena do Crime/Le Lieu du Crime (Andre Techiné)
Não tão bom quanto os dois grandes filmes que Techiné fizera imediatamente antes, mas quando Deneuve encontra com o jovem criminoso, ele encontra uma força notável no desespero mutuo dos dois.

117) Morrer Mil Vezes/8 Millions Ways to Die (Hal Ashby)
Na verdade tem uma só: deixar seu vício, seja qual ele for, te consumir por completo. Um filme cheio de defeitos sem dúvidas, que na presença de Jeff Bridges, no seu melhor, como o detetive alcoólatra para o qual toda a ação serve como um grande espelho das suas tentações e fracassos mais do que se justifica.

116) Ticket (Im Kwon-taek)
A lista inclui os dois filmes que Im Kwon-taek fez em 1986 e ambos podem ser descritos como sátiras causticas a sociedade local impulsionadas pela emoção de melodrama. Este aqui é um filme sobre prostituição bastante forte no que cabe lidar com dissolução e exploração de um grupo de mulheres.

115) Le Couteau Sous la Gorge (Claude Mulot)
Giallo francês feito nos últimos suspiros do gênero. Um encontro entre Brian De Palma e Jesus Franco. Poucos exemplares passam a impressão de que o olhar do cineasta está em tanta sincronia com o do assassino.

114) Polly Perverse Strikes Again (Dan Sallitt)
Estados Unidos dos anos 80 tirado da ordem de forma complementar a própria estética crua do vídeo.

113) From Beyond (Stuart Gordon)
Stuart Gordon, Brian Yuzna se reunindo com as estrelas de Re-Animator (Jeffrey Combs, Barbara Crampton) para outra adaptação de HP Lovercraft sobre o que se pode representar no horror e como nossos desejos abre espaço para mais absurda imaginação.

112) Handsworth Songs (John Akomfrah)
Historiografia do presente, do passado, do conto de fantasmas permanente.

111) Forest of Bliss (Robert Gardner)
Etnografia como cinema. A câmera é personagem. O olhar do espectador parte do processo.

110) Inspector Chocolate (Philip Chan)
Este é o primeiro filme de Michael Hui que ele não dirigiu desde 1974 e tem uma premissa mais básica que o habitual com sua sátira de filme policial, mas as gags seguem inspiradíssimas e sua persona pouco afável é posta para muito bom uso.

109) Um Verão Muito Louco/One Crazy Summer (Savage Steve Holland)
Da arte de ser orgulhosamente estupido.

108) Martial Arts of Shaolin (Lau Kar-leung)
Como quase todos os filmes do Lau Kar-leung tem uma coreografia notável e um respeito profundo por artes marciais. Foi um dos primeiros filmes de Hong Kong filmados na China depois do acordo do retorno da colônia e o último filme produzido pela Shaws Brothers antes de fecharem o departamento de cinema.

107) Act of Vengeance (John Mackenzie)
Um filme sobre disputas de sindicato com excelente elenco, dirigido com paciência, um ar de tragédia inevitável e ótimo olho para classe trabalhadora por um dos mais subestimados cineastas britânicos.

106) Vicious Lips (Albert Pyun)
Pyun é um grande formalista do mais puro detrito cultural. Temático e materialmente.

105) Death Shadow (Hideo Gosha)
O formalismo de Gosha perfeitamente aplicado de forma que cada plano seja uma armadilha em cores fortes. E pouca gente filma uma luta de espadas tão bem.

104) Le Passage (René Manzor)
Ficções de apocalipse. Uma fantasia sobre imagens que criamos, com a simplicidade de um filme infantil, direção de arte que mataria de inveja Tim Burton e uma morbidez muito particular.

103) Nenhum Passo em Falso/52 Pick Up (John Frankenheimer)
Eu desconfio que Frankenheimer não tinha nenhuma ideia de que dirigia uma comédia de recasamento. Provavelmente para o bem já que metde da graça é o desarranja entre o sadismo hiper realista da direção dele e as ironias do Elmore Leonard. A outra metade é o elenco excepcional.

102) Mix-Up ou Meli-melo (Françoise Romand)
Dos prazeres de um bom causo e de como encontrar a distância exata para melhor conta-lo.

101) Avenging Force (Sam Firstenberg)
Durante uma década entre 1983 e 1992 Sam Firstenberg foi um dos melhores diretores de ação do mundo com uma facilidade enorme de usar orçamentos limitados com criatividade e um bom olho para movimento. Este aqui bem próximo do O Alvo do Woo se mais punitivo que exuberante.

100) A Promise (Yoshishige Yoshida)
Yoshishige Yoshida voltou aos cinemas depois de mais uma década para esta investigação sobre envelhecimento e morte. Um filme muito duro sobre a lei dos homens e da sociedade e como elas nem sempre são reconciliáveis.

99) La Mansion de Aracuiama (Carlos Mayolo)
O autor Álvaro Matis escreveu o romance para provar ao seu amigo Luis Buñuel de que existia algo que poderíamos chamar de gótico tropical e o diretor Carlos Mayolo o adapta como um estudo sobre o que o “lugar maldito” significa por aqui.  

98) Il Était une Fois la Télé (Marie Claude-Treilhou)
Num espaço muito particular entre documentário e ficção, uma evocação da vida do interior da França num misto de curiosidade e um formalismo controlado e se movendo entre os impulsos contraditórios como se eles fossem contínuos. Treilhou é uma cineasta que merecia ser bem mais conhecida.

97) House on Fire (Kinji Fukasaku)
Para além do seu talento natural para destruição anárquica, Kinji Fukasaku foi um brilhante satirista e observador social e este é um dos seus filmes mais engraçados a partir do que a princípio é um material dos mais nobres e respeitáveis.

96) A Cor do Dinheiro/The Color of the Money (Martin Scorsese)
Paul Newman é tão bom aqui que é uma pena que o filme não seja mais memorável, mas os primeiros oitenta minutos são ótimos. Um filme corrupto sobre como corrupção é excitante.

95) Adjustment & Work (Frederick Wiseman)
O olhar metódico de Wiseman aplicado para uma escola que reconduz deficientes para o mundo do trabalho ao mesmo tempo um filme sobre a ideia de capturar trabalho e uma reflexão sobre o que significa “socializar”.

94) Ópera do Malandro (Ruy Guerra)
Como quase todos os filmes tardios de Ruy Guerra esta adaptação do musical do Chico Buarque é bastante específica nas suas peculiaridades sobretudo na forma que busca estilizar e estabelecer sua ideia de boemia carioca. O cinema do Guerra sempre teve este não pertencimento na sua relação com o país e este deve ser o seu filme que mais reforça este olhar estrangeiro.

93) Por Volta da Meia-Noite/Round Midnight (Bertrand Tavernier)
Um pouco mais sentimental do que deveria, mas para fãs de jazz um filme imperdível no seu retrato do meio e na atuação do Dexter Gordon.

92) To Sleep So as to Dream (Kaizô Hayashi)
Uma espécie de pastiche de seriado mudo como filme de detetive. Cinema tanto como memória coletiva e um espelho do inconsciente.

91) O Meu Caso/Mon Cas (Manoel de Oliveira)
E Manoel se diverte no seu dia de Bressane.

90) Inspetor Lavardin/Inspecteur Lavardin (Claude Chabrol)
Segundo dos quatro filmes de Chabrol protagonizados por Lavardin, como ele está mais no centro deste fica mais óbvio que o jogo aqui é questionar se a história de detetive clássica não é uma forma de mascarar um desejo perverso de assistir e usar as pessoas com quem o protagonista se envolve.

89) Il Commissario Lo Gatto (Dino Risi)
Como são tolos os homens italianos – parte I. Dino Risi se divertindo satirizando o interior da Itália e seu detetive de cidade grande tolo, A grande sacada é que ao mesmo tempo que Lo Gatto passa mais tempo de distraindo com os biquinis das mulheres a sua volta a intriga em que ele está envolvido é tratada por Risi com profundo respeito.

88) La Machine au Decoudre (Jean-Pierre Mocky)
Cinema é uma arma e um vetor de libido descontrolado. Mocky grande satirista se divertindo horrores.

87) A Investigação/L’Inchiesta (Damiano Damiani)
Um filme materialista sobre as origens do catolicismo do comunista Damiani estruturado como uma história de detetive existencial que traça como os ensinamentos de Cristo se transformam de uma questão pratica e política da vida da Palestina para base de uma crença.

86) Saving Grace (Robert M. Young)
De certa forma um filme que completa bem o de Damiani. Inclusive por lidar também com questões de fé católica a partir da diferencia de ação e simbologia religiosa. Lembra muito algumas das comedias humanistas do Leo McCarey. Tom Conti e Giancarlo Gianinni inspiradíssimos. Young é um dos meus diretores favoritos na periferia da Nova Hollywood.

84) Crawlspace (David Schmoeller) e Link (Richard Franklin)
Dois belos exercícios de horror perverso construídos sobre atuações possuídas, em Crawlspace de Klaus Kinski como um voyeur nazista e em Link de um macaco possessivo. Ambos os filmes bem perturbadores na forma como observam suas relações centrais e muito eficientes na construção das sequencias de horror. Schmoeller confessa abertamente que ele e seu produtor consideraram matar Kinski num “acidente” então no caso de Crawlspace os desejos assassinos estavam mesmo no set.

83) Stammhein: The Baader-Meinhof Gang on Trial (Reinhard Hauff)
O julgamento do grupo terrorista apresentada da maneira mais seca possível: a corte e os atos dos envolvidos. Um filme sobre atuação política no gesto e no espaço, sobre indivíduo e estado e o que define a ideia de terror.  

82) Nem Tudo é Verdade (Rógerio Sganzerla)
As origens do cinema brasileiro segundo Rogério Sganzerla. Uma comédia amarga sobre fracasso.

81) Love Unto Waste (Stanley Kwan)
Se Love Massacre do Patrick Tam fosse um filme do cinema novo de Taiwan. E tem em cena Chow Yun Fat em estado de graça, todo o sentimento do filme nos olhos desejos dele observando a distância os protagonistas.

80) Working Girls (Lizzie Borden)
Dinheiro e performance social. As imagens que criam para alocar o capital. É um filme muito inteligente e bem observado sobre uma série de processos perversos.

79) Women Who Do Not Divorce (Tatsumi Kumashiro)
Eu considero Tatsumi Kumashiro o melhor cineasta japonês surgido entre a explosão do cinema novo japonês e aparecimento de Kiyoshi Kurosawa e Takeshi Kitano na passagem para anos 90. Seus melhores filmes foram nos anos 70 quando ele filmava pequenos dramas eróticos desesperados para a Nikkatsu, Women Who Do Not Divorce é de um momento posterior mais afluente, mas os sentimentos seguem de uma crueza própria. E as irmãs Chieko e Mitsuko Baisho estão maravilhosas em cena.

78) The Last Emperor (Li Han-Hsiang)
É meio que o oposto do filme do Bertolucci, de uma simplicidade e austeridade e um retrato não do homem símbolo saltando de suas funções, mas da sua completa inadequação.

Matador (1986)

77) Matador (Pedro Almodóvar)
O filme de Jesus Franco do Almodóvar. Feito antes dele virar autor de modo e ainda um dos meus favoritos. Uma grande comédia sobre a ideia do assassinato como gozo recorrente no cinema de horror.

76) Sarraounia (Med Hondo)
Talvez uma das formas mais radicais de fazer um cinema anticolonialista seja fazer um cinema sobre a barbaridade do europeu. Med Hondo apropriasse do que seria uma ideia de épico ocidental para implodi-lo na paisagem africana.

75) Bound for the Fields, the Mountains, and the Seacoast (Nobuhiko Obayashi)
Sobre crescer num Japão psicótico as vésperas da Segunda Guerra. Só sobra para a criança olhar de forma anárquica para aquele mundo doentio adulto.

74) Tomara Que Seja Mulher/Speriamo che sia femmina (Mario Monicelli)
Como são tolos os homens italianos – parte II. Monicelli em seu elemento. Amargo e engraçadíssimo. E que grande elenco.

73) She’s Gotta Have It (Spike Lee)
Uma estreia de imenso frescor tanto nas imagens do Lee que parecem sempre encontrar algo novo como na maneira que se aproxima cada um dos seus personagens centrais.

72) Royal Warriors (David Chung)
Um favorito sentimental pois foi o primeiro filme de Hong Kong que eu assisti. Um trabalho de coreografia de ação dos mais ricos e variadas, uma passagem levando a outro sempre em registros diferentes que se adaptam aos diferentes espaços habitados pelos personagens.

71) Havre (Juliet Berto)
Um dos três longas que a Juliet Berto dirigiu nos anos 80. Muito assombrado por uma imagem fantasma do que teria sobrado da Nouvelle Vague naquele momento, mas numa interpretação personalíssima. Berto parte do espaço do porto tão frequentemente privilegiado no cinema francês para repensar suas imagens a sua maneira.

70) Homem Olhando Para o Sudeste/Hombre Mirando al Sudeste (Eliseo Subiela)
Investigação fantástica sobre um mal-estar indescritível.

69) O Ladrão de Cavalos (Tian Zhuangzhuang)
É fascinante observar o maneirismo muito controlado da quinta geração chinesa aplicada a um filme de paisagem radicalmente diferente dos trabalhos de estúdio que primeiro fizeram o nome de Kaige e Yimou.

68) Highlander (Russell Mulcahy)
Pode um ideal romântico sobreviver a um presente de MTV? Um filme construído sobre o contraste entre uma ideia de aventura mítica de um passado épico e idealizado e um presente inóspito e como as opções estéticas de Mulcahy sobretudo a câmera constantemente móvel e a direção de arte excessiva trabalham para construir uma continuidade entre eles. Mulcahy tem filmes melhores antes e depois, mas é este idealismo que mantém seu filme mais conhecido.

67) Dust in the Wind (Hou Hsiao-hsien)
Revendo Dust in the Wind para este projeto me caiu a ficha que uma das coisas que me fazem responder com força para os filmes do cinema novo de Taiwan é como as premissas deles se assemelham a um western: o conflito constante entre as necessidades do individuo e sociedade e os sacrifícios envolvidos, o olhar historiográfico, a presença recorrente do memorialismo, o trauma e excitação de formação nacional. Dust in the Wind, o título podia ser um faroeste da Universal de 1956, tem tudo isso e o controle formal habitual de Hou.

66) Sleepwalk (Sara Driver)
A cidade e as narrativas fantásticas presentes nela. Um filme de paranoia contemporânea e a promessa de ficções para acomodá-la.

65) True Colours (Kirk Wong)
Um dos vários filmes de Heroic Bloodshed que explodiram em Hong Kong em 1986 e como este é protagonizado por Ti Lung é muito fácil de aproximar de A Better Tomorrow, mas Kirk Wong não é John Woo, sua abordagem é mais sensacionalista e sem o mesmo sentimento de divino. Se existe a passagem de um modo de ver o mundo, ele só é substituído por um materialismo bruto.

64) Sombras no Paraíso (Aki Kaurismäki)
Os lixeiros também sonham. Kaurismäki fez este mesmo filme uma porção de vezes, mas este é um dos mais romanticos e a presença da morte confere ainda mais sentimento.

63) Assim é a Vida/That’s Life! (Blake Edwards)
Falando em cineastas que fizeram muitas vezes o mesmo filme, Edwards cansou de fazer variações de expor suas fobias. Este sobre mortalidade não é um dos mais engraçados, mas é de um desespero amargo. O ataque de madrugada de Jack Lemmon é uma das melhores cenas de Edwards entre o horripilante e o engraçadíssimo. Uma das melhores atuações de Julie Andrews também.

62) Ginger & Fred (Federico Fellini)
O tempo foi bem feliz para com este Fellini tardio porque não só reforçou como seu cansaço era central para o filme e como o retrato de sociedade italiana adianta Berlusconi. É como se o mundo alcance Fellini e ele não gostasse nada do que vê.

61) Thérese (Alain Cavalier)
Um filme imediato sem nenhuma distância sobre uma mulher que dedica absolutamente tudo ao seu amor que calha em ser Deus. Cavalier encontra uma forma de materialismo divino.

60) O Destemido Senhor da Guerra/Heartbreak Ridge (Clint Eastwood)
O mais próximo que Clint Eastwood chegou de filmar uma comédia de John Wayne, mas como quase todos os Eastwoods nesse tom de uma melancolia profunda de quem reconhece a própria mortalidade.

59) À Titre Posthume (Paul Vecchiali)
Pastiche de cinema policial feito por Vecchiali para a TV francesa. Formas surradas ganhando corpo pela inventividade da encenação, um elenco inspirado e um sentimento trágico.

58) Passion (Sylvia Chang)
Primeiro longa dirigido pela Sylvia Chang sobre as memorias de duas mulheres sobre o marido morto de uma delas e o triangulo amoroso entre eles e é um filme duro, honesto sobre amizade, atração e vidas compartilhadas.

57) O Cinema Falado (Caetano Veloso)
O Caetano conta no Verdade Tropical que quando se mudou para o Rio planejava virar cineasta, mas terminou que só dirigiu este aqui quase vinte anos após o primeiro disco. É meio como se Bressane filmasse o umbigo do Caetano, os detratores vão achar afetadíssimo, mas é tão enlouquecedor quando bonito na sua dedicação em levar a proposta até o fim.

56) Mémoire des Apparences (Raul Ruiz)
A vida é uma ficção, é um sonho, é a morte. Cinema é tudo isso, mas é sobretudo uma alucinação que pertencia a Raul Ruiz sempre pronto a declara sua fé no mesmo.

55) Acerto de Contas/The Big Easy (Jim McBride)
Geralmente tratado como neonoir, mas bem mais próximo de uma comédia screwball com Ellen Barkin como Cary Grant e Dennis Quaid como Katherine Hepburn. As estrelas são maravilhosas e o filme é sexy, violento, amoral e absolutamente nada nele receberia sinal verde hoje.

54) La Puritaine (Jacques Doillon)
Doillon sempre teve uma aproximação com Pialat e A Puritana sugere Aos Nossos Amores como uma farsa sobre o jogo de cena da amoralidade artística. Bonnaire e Piccoli estão ótimos em cena.

53) O Castelo no Céu (Hayao Miyazaki)
O Castelo no Céu deve ser um dos filmes mais comportados do Studio Ghibli tanto na estruturação da ação como nos papeis principais, mas se menos radical, a imaginação da animação não deixa nada a desejar a outros trabalhos deles dos anos 80.

52) Henry – Retrato de um Assassino/Henry: Portrait of a Serial Killer (John McNaughton)
Não há nobreza possível num ideal realista de cinema. Só novas formas de violência e exploração.

51) Ga-ga: Glory to the Heroes (Piotr Szulkin)
Ga-ga é o quarto filme da tetralogia de ficções cientificas distópicas e satíricas que Piotr Szulkin fez nos anos 80. Claro são todos sobre viver na Polônia nos últimos dias do governo comunista e eu aprecio como elas são coesas, mas bem diferente entre si. Eu acho que prefiro Obi-Oba do ano anterior, mas Ga-ga deve ser a mais engraçada e por isso mesmo a mais desesperada. A palavra herói é repetida tanta que ela vai de uma piada a uma forma de agressão a uma piada novamente.

50) Tree Without Leaves (Kaneto Shindo)
Eu acho curioso que não se faça mais paralelos entre Kaneto Shindo e Manoel de Oliveira. Shindo morreu centenário em 2012 e fez seu último longa aos 98 e as suas últimas três décadas de vida foram dedicados a filme introspectivos com um olhar distinto de alguém que vivera muito e está revistando imagens e ideias que lhe marcaram. Tree Without Leaves é um filme bastante deliberadamente construído sobre ficções autobiográficas e o peso que certas imagens deixam na memória.

49) Baixo Gávea (Haroldo Marinho Barbosa)
Noites de desassossego no Rio do fim dos anos 80. Aquela melancolia derrotada no qual desejo carnal e a imaginação intelectual te levam sempre a esperar algo que não vem, mas o conforto de que vai ter sempre novas noites boêmias, mais um bar, mais uma cerveja, outro picareta babaca e aqueles momentos que justificam aquilo tudo.

48) Las Veredas de Saturno (Hugo Santiago)
Hugo Santiago já vivia na França em exílio faz anos quando se juntou aos escritores Juan José Saer e Jorge Semprún para imaginar esta fantasia sobre o retorno a uma America Latina prometida mítica num futuro condicional inatingível. Fotografia em locação maravilhosa do Ricardo Aranovich, muita música e está promessa impossível e eterna da identidade latina. É uma aventura de realidade paralelas, muita paranoia quase duas horas e meia de poucas saídas, mas muito emocionante.

47) Gombrowicz, o la Seducción (Representado por sus Discípulos) (Alberto Fischerman)
De certa forma é um complemento ao filme do Santiago, assim como a boa parte da filmografia europeia do Raul Ruiz. Só que aqui o exilado é o artista europeu – o escritor polonês Wiltold Gombrowicz que viveu um quarto de século em ostracismo na Argentina – retomada aqui pelo memorias dos seus ditos discípulos que da mesa de bar, Fischerman depois fragmenta por múltiplas representações que dão conta dos traços restantes desta relação com o velho continente.   

46) Gilsoddeum (Im Kwon-taek)
A TV está bem no centro deste drama de Im. As imagens controladas pelo governo de famílias separadas pela Guerra da Coreia reunidas naquele momento vésperas da Olimpiada de Seoul, da Coreia do Sul como novo tigre asiático. O filme do Im é um melodrama puro que faz a revisão disso, sobre a mãe que procura o filho perdido e os abismos que a ficção não consegue eliminar. Um filme de paisagem devastada e imperdoável.  

45) Gonza the Spearman (Masahiro Shinoda)
Outro filme de mestre japonês. Este é um filme de samurai tardio que existe na contramão do gênero, tempos de paz, sobra a não ação e por consequência uma dedicação a repressão que as imagens colocam no curto-circuito. O desejo, a ação, o movimento enquadrados numa imagem rígida prestes a explodir.

44) No More Comics! (Yojiro Takita)
Uma sátira deliciosa ao sensacionalismo televisivo. Muito inventivo e cheio de grandes momentos de comédia de desconforto.  Lembra algo de Kitano que inclusive tem uma ponta.

43) Routine Pleasures (Jean-Pierre Gorin)
Gorin é claro conhecido quase exclusivamente por ter co-dirigido os filmes da fase maoísta de Jean Luc Godard no fim dos anos 60. Anos depois ele imigrou para os EUA, virou professor universitário e fez uma série de filmes ensaio sendo este o menos obscuro sobre colecionadores de miniaturas de trem e dali todo um fascínio do estrangeiro pelo país.

41) Caminhos Violentos/At Close Range (James Foley) e River’s Edge (Tim Hunter)
Estes dois filmes dividem os mesmos produtores, a mesma preocupação com delinquência juvenil e o abismo entre adolescência e o mundo adulto, sobre os tribalismos que os conduzem e firmeza de olhar para a parte mais empobrecida dos EUA extraídos da crônica policial mais grotesca e irrepresentável. São também ambos filmes assombradas por uma certa promessa do cinema americano de pós II guerra (Caminhos Violentos é até escrito pelo filho do Elia Kazan, apesar do espirito dos dois estar mais próximo de Nick Ray) num momento em que ela se desfazia. River’s Edge é uma autopsia e Caminhos Violentos um melodrama operístico, mas ambos são no fundo filmes sobre traição, sobre não haver futuro algum naquelas comunidades mesmo diante dos laços supostamente mais fortes. E tem algumas atuações maravilhosas, Crispin Glover e Dennis Hooper em River’s Edge e ali em Caminhos Violentos Sean Penn e Christopher Walken que talvez faça o melhor capeta de todo o cinema.    

40) Double Messieurs (Jean-François Stévenin)
Segundo dos três longas que Stévenin um desses atores que sempre aparecem em pequenos papeis no cinema local que também calha de ser muito talentoso atrás das câmeras. É uma série de situações ficcionais que parecem propostas para permitir que dois homens que nunca abandonaram as personas de adolescência sejam forçados a se adaptar.

39) Soul (Shu Kei)
Gloria do Cassavetes, mas com o papel da maternidade colocado em segundo plano por uma ideia de reinventar identidade que existe justamente a parte da família. É um dos melhores papeis de Deanie Ip sempre uma presença positiva no cinema de Hong Kong dirigido pelo crítico Shu Kei quase como um filme musical. Assim como Love Unto Waste é um filme com laços bem fortes com cinema taiwanês do período incluindo um papel chave para Hou Hsiao-hsien. Foi também o primeiro filme que Christopher Doyle fotografou no cinema local.

38) Uma Rapariga no Verão (Victor Gonçalves)
Se tem algo que os portugueses faziam maravilhosamente bem nestes anos eram evocações sobre as incertezas da juventude.

37) Golden Eighties (Chantal Akerman)
Sátira musical sobre os anos 80 de Chantal Akerman passada num shopping center e com um elenco jovem muito bom e todo gosto por construção artificial que as vezes anima o cinema dela. Tão bem observado que as vezes penso que se tratada de um filme de época.

36) Os Aventureiros do Bairro Proibido/Big Trouble in Little China (John Carpenter)
Fácil imaginar que em algum ponto dos anos 80 John Carpenter assistiu Zu Warriors of the Magic Mountain do Tsui Hark e decidiu que queria fazer um desses mas que o protagonista seria John Wayne interpretado por Kurt Russell.

35) Ascenção e Queda de uma Pequena Produtora de Cinema/Grandeur et Décadence d’un Petit Commerce de Cinéma (Jean-Luc Godard)
Assim como outros filmes de Godard deste período é uma comédia crepuscular tão melancólica quanto engraçada. Certamente um dos filmes que melhor usam a figura neurótica do Jean-Pierre Léaud. É meio que sobre o ocaso do que sobrara da Nouvelle Vague representada ali por Godard, Léaud e, também, por Jean-Pierre Mocky que estava ali as margens do movimento e bateu ponto na lista mais cedo.

34) Bell Diamond (Jon Jost)
EUA anos 80 no interior de Montana. O casamento acaba, a mina fecha, os lugares agonizam, mas aquele ideário da fronteira, do procurar de algo mais permanece, ainda incompreensível. O cinema do Jon Jost é meio sobre isto.

33) Mammame (Raul Ruiz)
Ruiz filma um balé, mas o mais importante Ruiz filma o encontro entre corpo e luz, ou seja cinema e as ficções que ele permite.

32) A Morte Pede Carona/The Hitcher (Robert Harmon)
Dos mais impressionantes exemplares do híbrido de filme de horror e ação tão em voga no cinema americano do período justamente por ser um dos que levam as últimas consequências. É um faroeste com carros onde a possibilidade da fronteira é substituída pelo sadismo da estrada e o encontro com o pistoleiro por uma entidade sobrenatural ali só para levar aquele acerto de contas ao limite.

31) Above the Law (Corey Yuen)
Em certo momento deste filme Yuen Biao luta com uma série de carros e Corey Yuen arranja uma maneira para tornar aquilo numa dança entre iguais.  Uma das coisas que mais me impressionam em Above the Law está na exuberância com que Yuen imagina as sequencias de ação e o tom niilista do drama. É como se num mundo completamente corrupto sobrasse ao artista imaginar algumas proezas incríveis e perigosas para produzir ao menos alguns momentos de graça que lhe desviem o curso.  

30) The Sea and the Poison (Kei Kumai)
Uma investigação sobre desumanidade a partir de duas instituições, a medicina e a guerra, que lidam com formas de poder de homens sobre outros. Kumai vai num dos vespeiros que a sociedade japonesa costuma deixar de lado, no caso um grupo de médicos que resolve dissecar prisioneiros americanos “já que eles seriam executados mesmo”. Muito perturbador.

29) I Love You (Marco Ferreri)
Como são tolos os homens italianos – parte III. Christopher Lambert como o homem que acha uma boneca que diz “eu te amo” e fica viciado nela. Desejo num mundo mecanizado é uma velha obsessão de Ferreri e o filme nunca deixa nos esquecer que “eu te amo” é a velha promessa repetida no cinema.

28) Mala Noche (Gus Van Sant)
Desejo queer e suas implicações mais obsessivas e perturbadoras. Este é o primeiro longa de Van Sant e segue um dos melhores e mais radicais. Como em boa parte da obra dele é sobre se instalar num lugar e olhar e o que se tira de bom e mal dali.

27) Kamikaze Hearts (Juliet Bashore)
Uma imagem justa. Sobre o peso da câmera de cinema e todas as relações de poder que dela derivam. É um filme que se instala num espaço desconfortável entre ficção e a vida das suas personagens. Porque tudo ali é este mesmo desbalanço, o mesmo jogo de forças não resolvido, cineasta e personagens, as performances delas na indústria do sexo, a relação delas, seus vícios. Não resta distancia alguma, a diretora Juliet Bashore não está muito preocupada se vai ficar bem na fita, só que seu retrato permaneça justo sobre este poder e os processos nele envolvidos.

26) O Massacre da Serra Elétrica 2/The Texas Chainsaw Massacre 2 (Tobe Hooper)
Se o primeiro Massacre da Serra Eletrica é como diz Robin Wood um retorno de toda uma violência reprimida e pouco imediado, puro id da sociedade americano cuspido de volta no espectador, esta sequência feita doze anos depois com muito mais grana, com ator famosa, cenários elaborados e uma encenação artificial marcada por uma sangreira muito mais explícita veio pensado, formado e feio do jeito que Hooper desejou. A história da geração de cineastas americanos de horror de Hooper dos anos 80 é da dura negociação de uma espécie de mobilidade social na indústria, este é o filme que de forma mais direta lida com o assunto.

25) Faubourg St Martin (Jean-Claude Guiguet)
Evocação de um lugar. Sobre como a câmera descortina o hotel do título, a noite Paris e os mistérios que os dois contém.

24) Aliens (James Cameron)
Escrevi ali em cima sobre a profusão de filmes híbridos de horror/ação e este é o melhor. Uma máquina visceral perfeitamente sustentada e ancorada pela presença de Weaver. Este não é um dos períodos mais produtivos de grande Hollywood, mas Aliens é o maquinário de ilusões funcionando tão bem quanto possível no meio dos anos 80. Também é fácil o melhor de todos os cenários alternativos sobre Vietnam que eram frequentes à época.

23) Dream Lovers (Tony Au)
Tony Au, mestre do melodrama de Hong Kong num filme que coloca em xeque justamente o ideal romântico que move estes filmes. Existem belas e carismáticas estrelas (Chow Yun-Fat e Brigitte Lin), sonhos, amores que atravessam o tempo e destinos traçados e ainda assim o filme é tão bonito quanto triste e destrutivo animado pela certeza que a ficção deste amor sonhado abandona muitos destroços pelo caminho.

22) His Motorbike, Her Island (Nobuhiko Obayashi)
É um filme de estrada, um filme de paisagem, da atração que ele produz, o ideal romântico aqui também sempre ameaçado por uma ideia de morte que ronda a cada curva. A ideia é de sempre preencher a imagem e os lugares de um misto de desejo e memória impossíveis de conter.

21) Sangue Ruim/Mauvais Sang (Leos Carax)
É assim como Havre um filme sobre a possibilidade de uma poética ligada a Nouvelle Vague no artificio dos anos 80, mas não do ponto de vista de alguém que esteve envolvido com ele,mas de quem a assistiu na cinemateca entre sessões de Chaplin e Murnau. Carax ainda sofre as vezes as comparações pouco produtivas que Beineix e Besson, mas há um motivo pelo qual logo depois deste filme Godard o escalou no seu Rei Lear.

20) I Love Dollars (Johan van der Keuken)
Um filme do mundo, autopsia do nosso pesadelo neoliberal, é de 1986, mas é um conto de origem sobre 2008, 2016, 2018, podem escolher. Johan van der Jeuken visita quatro grandes centros econômicos (Nova York, Amsterdam, Hong Kong e Genebra), cada um à sua maneira simbólico e extrai dali múltiplos retratos de como se vive e não se vive neles e com uma consciência muito grande de todos os mundos que existem para longe deles. É um filme diário de viagem realizado por um homem solitário com uma câmera e esta opção estética é essencial para os seus significados. Curioso, raivoso e incisivo. Curiosidade para brasileiros: o filme essencialmente se encerra com um encontro de van der Keuken com um grupo de banqueiros suíços que tentam lhe explicar como tem poucas oportunidades maiores de lucro do que a dívida externa brasileira.  

19) The Millionaire Express (Sammo Hung)
A grande orgia cinematográfica de Sammo Hung. Cabe de tudo na sua celebração das mais elaboradas e variadas sequencias de ação a comédia pastelão, todas as estrelas que pode contar, tudo organizado como uma espécie de faroeste originário chinês. É um prazer e o tipo de filme que só alguém muito talentoso com carta branca total na sua indústria consegue realizar.

18) O Rei das Rosas/Der Rosenkönig (Werner Schroeter)
Um melodrama operatico sobre como o mundo arde e o cinema existe para dar corpo a um desejo delirante, para capturar um mundo cuja sensualidade não tem como existir em nenhuma outra forma de arte.

17) Manhunter (Michael Mann)
No cinema de Mann geralmente existe um impulso romântico e um prático, o desejo da vida pessoal e o trabalho de homens de ação. Só que Manhunter é mais um filme de terror que um filme policial mesmo que seja organizado por uma investigação, é um filme de caçada como título anuncia, o olhar clínico puro do policial psicólogo (uma espécie de novo cientista louco dos tempos modernos) encontrando a intensidade visceral das imagens do filme. É um filme sobretudo sobre o ato de ver, mas mais precisamente de ver coisas terríveis e o que este gesto deixa de consequência.

16) A Mosca/The Fly (David Cronenberg)
Falando em atualizar a figura do cientista louco, A Mosca é Frankenstein se o bom doutor e sua criatura fossem tornados um só e ainda mais dolorosamente humano quanto mais grotesco os efeitos se revelem. E graças ao Jeff Goldblum e Genna Davis um filme de um romantismo muito forte.

15) Just Like Weather (Allen Fong)
Allen Fong foi uma das figuras chave do cinema novo de Hong Kong, mas pouco circula no ocidente porque seu cinema passa longe das nossas expectativas do que é feito por lá. Seus filmes dos anos 80 exploram questões de autoficção que vão entrar em voga somente anos mais tarde. Em Just Like Weather, um jovem casal reencena as dificuldades do seu casamento para o próprio Fong que entra em cena como instigador/manipulador, um filme sobre o que o cinema capta sobre uma verdade, mas também sobre o poder que o cinema tem sobre aquelas pessoas que se sujeitam a ele. Lembra um tanto algumas coisas que Abbas Kiarostami viria a fazer depois.

14) He Stands in a Desert Counting the Seconds of His Life (Jonas Mekas)
Como nos outros filmes diários de Mekas compartilhasse uma vida. Aqui a ênfase está na ideia do encontro e do retrato, uma câmera que respira as pessoas com que Mekas partilhou seu tempo e todos os eventos que permitiram isso. Uma vida vivida em comunidade, tocante e político.

13) Fulaninha (David Neves)
Numa quadra de Copacabana cabe-se todo o cinema e toda a vida do mundo. Apogeu do cinema de crônica carioca, filma-se tudo sem julgar nada, coloca cada uma das relações de poder, cada cafajestada, cada gole de cerveja e autojustificativa bêbada na tela. É outro filme sobre o olhar, mas David Neves não tem qualquer distanciamento ou dispositivo para dar conta disso tudo, só uma paixão generosa muito grande por tudo que passa diante da sua câmera.

12) Totalmente Selvagem/Something Wild (Jonathan Demme)
Move-se o tempo todo se reinventando sem de fato sair do lugar. Aquela contradição que Demme consegue dar vida a farsa abrasiva, mas ao mesmo tempo muito terna no seu retrato, sobretudo de todos aqueles tipos que ele vai encontrando ao longo do filme e permitindo momentos privilegiados. Daniels, Griffith e Liotta, todos ótimos.

11) Maine Ocean (Jacques Rozier)
Não deixa de ser um filme bem parecido com Totalmente Selvagem, mas é tão francês quanto o anterior era americano. A aventura é experimental e não narrativa, o jogo é as claras e o personagem principal permanece atrás das câmeras propondo e a reagindo a cada nova situação. Pode-se construir um mundo a partir de um grupo de gringos tentando tirar Meu Caro Amigo do Chico. Se podemos dizer que a gênese da Nouvelle Vague está ligada a apreciação de jovens cinéfilos franceses do pós-guerra do cinema do Howard Hawks, Maine Ocean é o que de mais próximo algum cineasta ligado ao movimento chegou de reinventar o cinema dele.

10) Prisão de Cristal/Tras el Cristal (Agustí Villaronga)
Um conto de fadas depravado sobre ciclos de abuso, poder, fascismo e a cumplicidade moral da Espanha na segunda guerra numa série de cenas de horror barroco. Perturbador como poucos filmes. Além disso, a principal sequência de assassinato no meio do filme é um dos pontos altos do cinema de horror, tão longa e elaborada e com uma ênfase toda sobre a vítima compreendendo passo a passo que não vai conseguir sair dali. Cinema de pesadelo bastante dodói passado de uma geração a outra.  

9) Terrorizers (Edward Yang)
Cidade desolada, toda a violência que os lugares contêm e como as pessoas ainda assim seguem vivendo por ali.

8) A Better Tomorrow (John Woo)
John Woo já tinha mais de uma década de carreira quando fez A Better Tomorrow e é um destes filmes que respiram a descoberta. É certamente um dos filmes mais influentes da lista com impacto em boa parte do cinema de ação das décadas seguintes mesmo que no fundo seja um melodrama sobre homens que se dispõe atravessar uma série de balés sangrentos por amar ouros homens. Algo que sempre me espanta é como o filme é consciente desde o elenco, é um filme que se propõe a atualizar os filmes de irmandade que fizeram o nome de Chang Cheh, filmes de época estilizados sobre ideia de heroísmo na base da formação da masculinidade chinesa, para uma nova Hong Kong urbana e hiper capitalista, previsto na ideia da passagem de gerações do irmão criminoso para o irmão policial yuppie e como esta passagem existe num espaço tumultuado e ambíguo, que este amanhã melhor está longe de ser algo dado e factível.

7) O Raio Verde/Le Rayon Verte (Eric Rohmer)
Se procurarmos o suficiente o cinema é capaz de produzir milagres.

6) À l’Ombre de la Canaille Bleue (Pierre Clementi)
Distopia pós punk. É quase um musical, quase um filme policial, quase uma ficção cientifica.  Num estado policial, a única forma de resistir é autenticidade do corpo, cinema como forma de existir.

5) Filme Demência (Carlos Reichenbach)
Se Cabra Marcado para Morrer é o maior filme brasileiro dos anos 80, Filme Demência é só maior radiografia (curiosamente ambos os filmes calcados no intervalo de duas décadas da ditadura militar, Cabra entre as filmagens interrompidas pelo golpe, Filme Demência pelo diálogo constante com São Paulo S/A). É o filme das ruinas da dita década perdida. O Fausto brasileiro é um industrial falido, castrado, atormentado pelo peso do passado recente e sonhando com um paraíso impossível que na lógica do filme só pode existir no retorno da imagem de cinema.

4) Rosa la Rose, Garota de Programa/Rosa la Rose, Fille Publique (Paul Vecchiali)
Amar é uma entrega terrível e sem volta. Se o cinema todo do Vecchiali é sobre recuperar a força do drama, este é o que leva esta ideia a cabo até o fim amargo. Se O Raio Verde era um filme de sincronia absoluta entre Eric Rohmer e Marie Rivére, Rosa la Rose é o mesmo entre Vecchiali e Marianne Basler, duetos de co-autoria que só podem existir na presença de cena delas.

3) À Flor do Mar (João César Monteiro)
Das vidas possíveis, aquelas já vividas e as que podem vir ser vividas. É outro filme sobre retomar uma tradição romanesca na ficção apesar da ênfase do Monteiro é menos da imagem de cinema do que do gesto de contar histórias. Um romance entre uma viúva italiana e um pirata terrorista americano que só podia acontecer no litoral português porque certos tipos de contos míticos só são possíveis na Europa quando se passam em Portugal.

2) Mélo (Alain Resnais)
Da arte de preencher uma sala com sentimento. Todos os filmes das últimas três décadas da carreira de Resnais nascem de Mélo: a encenação deliberadamente teatral, o ritmo musical (como podem filmes que se constroem sempre como adaptações possam existir sempre como peças de música?), da fidelidade e entrega absolutamente do elenco (Azema, Arditi e Dussolier ainda estariam lá em cena quando Resnais, aos 91, fez seu último filme em 2013) e aquela ênfase no não dito, na não ação, no que permanece imaginado.

1) Sonhos da Ópera de Pequim/Peking Opera Blues (Tsui Hark)
A política como performance de papeis sociais e de gênero. Da ópera chinesa as escadarias de Odessa do Eisenstein, do ocidente ao oriente, mulher e homem, da comédia sexual de identidades trocadas a suspensão completa da gravidade, deglutem-se e reimagina-se tudo. Cinema popular revolucionário como pouco se fez.

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