Marginal sem Dor

Escrevi essa crítica de Tatuagem para a Cinética quando o filme teve as primeiras exibições públicas no Festival do Rio de 2013, como ele segue muito popular e entrou no Netflix achei boa ideia repostar aqui no blog.

Tatuagem, de Hilton Lacerda, se encerra na estreia de um filme experimental protagonizado pelo grupo de artistas no centro do filme e dirigido por um intelectual amigo deles, mantido sempre às margens da ação. Há um tom agridoce nas imagens deste filme dentro do filme que sugere menos um pastiche deste tipo de cinema do que um último super-8 perdido filmado entre amigos, suas imagens transbordando uma nostalgia que trai o quanto elas só podem pertencer a 2013. São imagens que dizem muito sobre o projeto de cinema de Tatuagem: trata-se, afinal, de um filme que se desdobra sobre um universo visivelmente caro ao seu diretor, que não perde um plano como oportunidade de declarar seu afeto por tudo que transpõe para a tela.

Esse desejo traz consigo um elemento acolhedor que explica muito do sucesso do filme nos seus primeiros contatos com o público, mas que, diante da experiência do filme, torna inevitável a dúvida de se há um limite para o afeto e se, em determinado momento, ele não gera somente um torpor sufocante. Tatuagem delineia um momento especifico com cuidado, fala de criação, desejo e identidade, mas cabe pensar exatamente como o filme representa todos eles. Neste momento, o filme de Hilton Lacerca se revela muito mais frágil e complicado.

Se Tatuagem é um filme efetivo no seu registro, isto se deve essencialmente à parceria do diretor com dois de seus principais colaboradores: o ator Irandhir Santos e o fotografo Ivo Lopes Araújo, ambos figuras emblemáticas do atual momento do cinema brasileiro. A presença de cena de Santos é sempre muito expressiva, numa chave um tom acima que reforça o desejo de entrega do projeto como um todo. É notável como, nos momentos em que ele está longe de cena, o filme tateia, a não ser nos registros de performance em que, mesmo ausente, a figura do Santos permanece como um mediador e mestre de cerimônias, seu carisma pronto para garantir o tom comunicativo destes momentos.

Mais complexa, porém, é a relação que Tatuagem estabelece com o trabalho de Araújo. Nos últimos anos, o fotografo se tornou presença quase inevitável no cinema brasileiro autoral de baixo orçamento, com sua facilidade em encontrar efeitos que garantam aos filmes uma aparência contemporânea e arejada com condições de trabalho muito limitadas. De certa forma, a habilidade do fotógrafo se transformou na rede de segurança de toda uma camada de cinema brasileiro (um pouco como, numa outra chave e realidade de orçamentos, acontece há muito tempo com Walter Carvalho). Em Tatuagem, o trabalho apurado de Araújo aqui é a base de boa parte da proposta estética do filme, o jogo de aproximação com os corpos que ele executa revela muito dos seus momentos de força, permitindo que o filme se instale numa zona de conforto fácil e que ele jamais abandonará.

Neste tripé entre fotografo, ator central e um carinho genuíno pelo seu universo é que a representação do mesmo, em Tatuagem, se instala. É um filme sobre a criação marginal tanto como modo de vida como de arte, que não esconde sua defesa apaixonada, mas que, no processo, a limpa de muito do que a torna especial. No filme, o desviante vai aos poucos se normatizando, beneficiado pela moldura histórica e a benevolência de olhar. Tudo que pode complicar esta imagem é cuidadosamente movido para o fora de campo. Os personagens têm toda razão quando reclamam ao censor sobre seu espetáculo recém-censurado – não há, afinal, perigo real ali; o desbunde se revela um número de cabaré muito bem encenado, mas só ofensivo às senhoras mais carolas. Igualmente, não haverá espaço aqui para as explosões dramáticas vistas num filme mais complicado, mas muito similar, como Madame Satã (2001), de Karim Aïnouz, pois o destempero não tem no lugar no bom tom de Tatuagem. O elogio do marginal passa por limpá-lo.

É notável, por exemplo, como o filme permite que Clécio (Irandhir Santos) reclame do comportamento errático de Paulete, seu principal parceiro de cena, enquanto o filme o mantém quase sempre fora de campo, já que ele é incapaz de representar a desarmonia do grupo. No momento em que Paulete se torna um problema, ele quase desaparece de cena, até o momento inevitável da reconciliação. Diante de tal sequência, é impossível não pensar nas dificuldades de representar uma reconciliação num mundo que tem tamanha dificuldade de mostrar a ruptura. Cabe a Tatuagem funcionar como versão mais polida de certo jogo de auto-elogio da figura do artista e de uma suposta liberdade de linguagem que se tornou praxe em partes do cinema brasileiro. Não é como se o mundo de Tatuagem não abrisse espaço a seus personagens para o erro e a mesquinharia, mas simplesmente que a imagem do filme segue tão afirmativa que a representação desses mesmos elementos é sempre imprecisa e esvaziada.

Dada a longa e muito bem sucedida carreira de Hilton Lacerda como roteirista, é bastante marcante justamente a fragilidade do drama aqui, muito por conta desta dificuldade de pôr em cena os momentos mais complicados de cada relação. É algo que fica muito claro no que seria o grande momento dramático do filme, quando o soldado revela a Clécio sua tatuagem, e que chega ao espectador muda e morna: “eu me vendo por tão pouco”. O personagem suspira, mas a emoção ali é exposta, nunca sentida. Não haverá em Tatuagem, afinal, espaço para dor e dúvida, e este momento exposto das duas personagens centrais não tem como esconder a pobreza do drama limpo pelas boas intenções e sentimentais. O filme pede desesperadamente para chafurdar na mesma lama que o seu registro afirmativo recusa.

Pois Tatuagem versa sobre um tesão domesticado. Fala-se muito de cú, mas o que o filme pede mesmo é pela penetração literal ou figurativa que a sua encenação recusa. Colocado lado a lado com um filme como Doce Amianto (2013), de Guto Parente e Uirá dos Reis, no qual o prazer é representado com muito mais contradições, as fragilidades de registro aqui se multiplicam. O passeio pelo desbunde que Tatuagem promove é autentico, mas seguro, como se o cinema brasileiro finalmente encontrasse o seu marginal popular que deseja desde os tempos de Madame Satã e Amarelo Manga (2002). Nenhuma contradição e desvio para atrapalhar a celebração desejada.

É bem útil, ao pensarmos em Tatuagem, observarmos justamente a forma como o filme chega ao espaço do exército e à figura do soldado. As sequências no quartel são de uma assepsia no seu retrato de repressão que servem como contraponto ao registro quente das sequências na casa noturna e no coletivo em que o grupo vive. São registros que Tatuagem se esforça muito para manter separados, sem se contaminarem.

Mas não deixa de ser exemplar justamente a supressão da violência militar, que o filme menciona, mas jamais mostra: em Tatuagem, o fora de quadro é usado de forma apolítica como em poucos filmes – nunca uma expansão do mundo, mas uma forma de lhe manter o registro sempre confortável. O grande clímax que deveria ser justamente o encontro dos dois mundos do seu romance central é sugerido na montagem, mas recusado na imagem. Tatuagem não pode filmar o exército descendo o cacete, assim como antes não podia mostrar o sofrimento de Paulete, ou as contradições do seu casal central. É preciso saltar do conflito direto para exibição do filme dentro do filme, que vai permitir uma última lembrança positiva daquele momento. O dissenso e o desviante são devidamente despolitizados e dopados pelo afeto. A agressão é reduzida a um significante de tempo histórico, toda sua radicalidade é silenciada. Tatuagem é como o seu filme dentro do filme: 1978 revisto por 2013; nossos marginais já não gozam nem sabem o que é crueldade. Resta o cabaré em festa.

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