Ivan Passer (1933-2020)

passer

Cutter’s Way

(English version here)

A forma de me deixar interessado em algo é me dizer que é impossível de fazer. – Ivan Passer

Faleceu na última quinta-feira o cineasta checo Ivan Passer. Já escrevi sobre ele aqui antes e tem poucas carreiras que me fascinam mais nas últimas décadas. Ele dirigiu um dos melhores filmes do Cinema Novo local (Iluminação Intima) e co-escreveu os primeiros filmes do Milos Forman (Amores de uma Loira, Baile do Bombeiro, Audition), então emigrou para o ocidente pós Primavera de Praga como tantos outros talentos do leste europeu e as coisas se tornam bem mais peculiares e subterrâneas. Entre 1971 e 2000, Passer dirigiu 13 filmes, ocasionalmente trabalhando com estrelas famosas (Michael Caine, Jeff Bridges, Peter O’Toole, Robert Duvall, Omar Sharif) quase sempre em filmes delas que ninguém viu.  Três décadas como uma espécie de fantasma do absurdismo do leste europeu em Hollywood.

Parte do que torna a obra ocidental de Passer particularmente difícil aceitação é justamente o desencontro entre os temas frequentemente duros e uma sensibilidade que sempre mantém um pé na comédia.  O primeiro filme americano de Passer, Born to Win sobre um cabelereiro viciado em heroína vivido por George Segal que passa os dias atrás da próxima picada estabelece este tom improvável. É um filme bem duro sobre vicio, mas majoritamente desprovido da condescendência habitual de filmes do gênero, muito próximo do seu personagem central e sem necessidades de olha-lo de cima. Jonathan Rosenbaum sugeriu que o filme seria uma espécie de comédia de humor negro sobre como o personagem de Seagal é uma pessoa motivada e com a vida muito preenchida pelo próprio vicio que o torna-lo um paria social. O filme é áspero demais para ser descrito como uma comédia, mas a observação de Rosenbaum vai no âmago dessa contradição e de como a sensibilidade absurda de Passer ajuda a produzir um olhar peculiar para com seus personagens e mundos.

Raramente Passer usa seu olho para o absurdo para uso claramente cômicos. Um favorito meu é Silver Bears, comédia de golpes com Michael Caine administrando um banco sem dinheiro. A ideia central do paralelismo entre sistema bancário e gangsterismo não podia ser mais clara e Passer encontra um sem número de variações para ela e em Caine alguém com a lábia picareta para vender qualquer sem vergonhice. É um filme bem engraçado que envelheceu muito bem por motivos óbvios e tem um roteiro (de Peter Stone que escreveu Charada entre outros) mais forte no cena a cena que a maioria dos que o diretor teve em mãos, mas como sempre quando Passer trabalha na comédia pura não tem a mesma tensão de choque de tom.

Lembro-me de assistir a um pequeno filme para TV dele, Fourth Story de 91, e a ficha cair de quanto a sua carreira me lembrava a de Edgar G. Ulmer (se sem a produção frenética que trabalhar na PRC dos anos 40 permitia), aquele encontro entre uma sensibilidade muito europeia, tom caustico e vigor de encenação aplicado a material frequentemente dúbio. Se Ulmer era o fantasma de Murnau a assombrar os subterrâneos cinema americano nos 30 a 50, Passer era o fantasma da Europa comunista e sua certeza de um mundo em desarranjo passeando pelos porões do cinema americano entre os anos 70 e 90.  Com o passar do tempo seus materiais vão se tornam mais excêntricos (Haunted Summer, Creator) e ele permaneceu a maior parte dos anos 90 fazendo filmes televisivos que o tempo esqueceu de adaptações literárias (Picnic, Raptado) a uma cinebio de Stalin a um neonoir como Fourth Story tão relaxado e dedicado ao artificio de cada cena que seu detetive passa mais tempo agindo como um protagonista de comédia romântica do que resolvendo o caso.

Seguindo com a analogia com Ulmer, Cutter’s Way (1981) certamente seria o seu Detour, seu filme que existe ao menos na periferia do cânone e no qual a sua sensibilidade recebeu o material ideal. E mesmo esse filme quase foi apagado retirado as pressas dos cinemas após uma semana em cartaz numa combinação de um estúdio quebrado pós O Portal do Paraíso e uma critica negativa no New York Times que os convenceu de que o filme estava fadado ao fracasso. Ele permaneceu como um filme cult meio lembrado que é um mais ideal capitulo final para a chamada Nova Hollywood do que os filmes que geralmente recebem tal crédito. Tecnicamente um mistério neonoir de meados dos anos 70 com seu misto de paranoia e paralisia cínica (apesar do próprio Passer admitir que o mistério seja justamente o ponto fraco), Cutter’s Way está mais próximo de uma comédia amarga sobre a ressaca da contracultura cujo espirito de desespero generoso lembra muito os filmes que Carlos Reichenbach fez por aqui no mesmo período.

Sempre associo Cutter’s Way a dois outros filmes lançados no mesmo período The Private Files of J. Edgar Hoover do Larry Cohen e Winter Kills do William Richert, transposições da literatura paranoica americana do período (Pynchon, DeLillo) para panoramas históricos picarescos satirizando os mitos paranoicos do país. De todos eles, Cutter é o mais memorável porque mais humano graças ao retrato afetuoso do seu meio marginalizado. No centro a figura de Cutter, veterano de guerra do Vietnã que perdeu uma perna e um braço no conflito, ressentido e obcecado em resolver o crime sexual mote da ação como uma última resposta social. Cutter é uma espécie de Travis Bickle sem nenhuma das tentativas hollywoodianas de dourar a pílula a começar pela atuação de John Heard muito expressiva, mas desprovida de carisma sedutor que associamos a um De Niro (entre Cutter e o protagonista de Chilly Scenes of Winter, Heard dominou a figura do homem auto-destrutivo da virada dos anos 70). Que Cutter tenha razão pouco importa diante da impressão de que ele só arrasta todos a sua volta numa fantasia de ressentimento. É um dos filmes mais poderosos que conheço sobre as ficções que criamos para lidar com nossa própria impotência.

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