Vidas Mercatilizadas

privatelife

Mais uma Chance

(English version here)

Dois filmes vistos recentemente no Netflix que poderiam ter o mesmo nome (História de um Casamento do Noah Baumbach, Mais uma Chance da Tamara Jenkins cujo bem melhor título original é Private Life), o mesmo meio (a elite intelectual de Nova York, apesar de o primeiro se passar quase todo em Los Angeles) e muitos dos mesmos temas apesar de focarem em aspectos quase opostos da vida a dois (divórcio, a tentativa tardia de ter um filho). Dito isso, tive reações bem opostas a eles.

O filme de Jenkins estreou ano passado em Sundance quando foi adquirido pelo Netflix e sentava não visto na minha watchlist tem mais de ano, o do Baumbach vem circulando nos festivais do segundo semestre e chegou no serviço de streaming no começo do mês. Me sinto culpado de demorar tanto para ver Private Life já que gosto dos outros dois filmes de Jenkins (ela faz um filme a cada dez anos mais ou menos). Meu amigo Eduardo Valente costuma brincar sobre como se assusta com a velocidade com que assistimos os filmes originais do Netflix, mas sempre tenho impressão que isto tem muita relação com o buraco negro da watchlist do serviço, se você não assistir logo, o filme morre não visto por lá. Um triunfo para a economia do agora. Menciono isso também porque a mercantilização de vidas particulares é algo que transpassa ambos os filmes tanto quanto pela lógica do streaming.

Em Private Life, temos um diretor de teatro (Paul Giamatti) e uma escritora (Kathryn Hahn) buscando ter um filho depois dos 40. Mais de dois anos de tentativas, a vida pessoal e profissional praticamente suspensa por conta disso (o filme é muito bom em como sugere que nada mais no mundo existe para os dois), nada funciona não importa quantas injeções de hormônio ela recebe e as tentativas de adoção não são muito mais bem-sucedidas e finalmente resolvem por usar os óvulos da sobrinha não-biologica dele para uma ensiminação artificial. Em. História de um Casamento, temos um diretor de teatro (Adam Driver) e uma atriz (Scarlett Johansson) em processo de divórcio (ela quer passar mais tempo na sua Los Angeles natal, ele odeia a Califórnia com a paixão de um personagem de Woody Allen) cuja única grande questão é como melhor organizar a guarda do filho, mas que vai de amigável para desumano depois que ela resolve contratar uma advogada para cuidar do processo.

Ambos os filmes são no seu cerne sobre a mesma questão: um evento de fundo intimo mediado por uma indústria comercial (a medicinal de reprodução em Private Life, o direito sobre divorcio em História de um Casamento) e como esse envolvimento exarceba as relações cruéis de poder. São também ambos filmes sobre legados e transferência, mas isso é bem mais desenvolvido no filme de Jenkins, o que o ajuda a ter uma face mais humana.

História de um Casamento como já muito apontado na cobertura da imprensa é um filme semi-autobiografico com o ponto de partida as experiências de Baumbach no seu divórcio com Jennifer Jason Leigh (quando Driver reclamar de aceitar dirigir um par de peças ruins para pagar os advogados, o cineasta se refere a ter escrito Madagascar 3 e assim por diante). O filme encontra seus momentos mais eficazes justamente quando se foca nos advogados. Há um thriller de tribunal cômico nas bordas do filme e tanto Laura Dern como Ray Liotta estão ótimos engolindo cenas como os dois ciborgues jurídicos. A sequência em que Liotta contorce a carreira de Johansson para sugerir que Driver merece parte do salário dela na sua nova série de TV é um ponto alto.

Baumbach permite a personagem de Dern vários pontos nas suas falas (como quando ela aponta que a noção do pai participativo é muito recente), mas olha com desconfiança para a agressividade dela especialmente quando contrastada com o advogado veterano vivido por Alan Alda que Driver contrata primeiro (“você é a primeira pessoa nesse processo que me trata como um ser humano”). Um espectador perceptivo pode intuir que o discurso amigável do marido é também um discurso de poder, que por traz do desejo de resolver as coisas de forma intima reside também a certeza que como antes na relação a palavra e desejo dele vai ter sempre um peso maior. A esposa provavelmente nunca conseguiria se mudar em definitivo para a Califórnia sem envolver advogados, mas na estrutura geral do filme a desumanização do processo pelas vias legais é o que pesa mais, as coisas começaram a dar errado no dia que Johansson entrou no escritório de Dern, nunca podemos nos esquecer. Por todo o aparente desejo de equilíbrio de História de um Casamento, os momentos em que o filme tenta reconhecer o ponto de vista da esposa nunca são de todo convincentes, o esforço do artista em vender a si mesmo como homem sensível que reconhece os próprios erros transparente. Vendo o filme me questionei se ele não seria mais equilibrado se os advogados trocassem de lado e se Baumbach não estava a tirar um sarro a fazer cada mudança biográfica refletir bem do lado dele. De qualquer forma, é difícil resistir a impressão de que o público alvo número 1 de História de um Casamento seja pais divorciados como ele.

Médicos também são robôs insensíveis em Private Life e o filme é bem direto sobre como a indústria reprodutiva é paradoxalmente desumanizadora. Para começar, por reduzir mulheres a receptáculos de hormônios e provedoras de óvulos. Só que o filme tem uma abordagem mais próxima, os horrores do processo não são externalizados via terceiros, mas expostos no comportamento do seu casal principal. A decisão fatídica aqui é a de buscar a ajuda da sobrinha (em contraste com História de um Casamento é a decisão humana que revela as falhas e limites de cada um). Boa parte de Private Life se passa no apartamento do casal e Jenkins é bem hábil de estabelecer a intimidade do lugar e ajuda que ele pareça crível como ambiente de um casal bem sucedido de um meio que não paga tão bem assim (é grande sem ser gigantesco, parece antigo, a mobília nunca destoa, isso é raro do que pensamos). O que torna um ambiente preciso para seus pequenos jogos de poder.

Boa parte da ação do filme é de Giamatti e Hahn lidando com a sobrinha no apartamento. Ela, uma aspirante a escritora, vem passar uma temporada com eles, venera os tios (“vocês são meus pais intelectuais”) e encara ajuda-los como um dever, Jenkins retira bastante do contraste sedutor para a garota entre eles e os pais afluentes. Boa parte de Private Life se resolve nas pressões e mesquinharias cotidianas. Como com diz um filme sobre ter um filho, é um filme sobre responsabilidade. A jovem é o deposito das esperanças da paternidade, mas é também uma filha substituta num espaço de ausência. Como bem observou o programador alemão Lukas Foerster é um filme sobre uma economia de faltas. Tudo é ausente e de alguma forma substituido. Um processo desumano que inevitavelmente leva a coisificar e abusar mesmo quem se quer bem (a falsa filha, seu parceiro(a)), como evitar isso quando se é carregado para essa lógica de mercado?

A cena de discussão do clímax de Private Life se beneficia dessa abordagem mais próxima. Quando Giamatti reconhece a própria crueldade do seu alivio das coisas darem errado, isto só reforça a sua posição cruel da maneira com que honestidade em brigas de casal frequentemente fazem. Hahn é especialmente hábil em representar a sua exaustão ao longo do filme e Jenkins tem um bom olho para as posições de poder de cada um no processo. Ele pode ter razão quando aponta que eles se tornaram maquinas dragadas pela situação, mas é naquele momento só a figura do homem patético reclamando da falta de trepada. Que a sequência toda seja intima e quieta e tomada pelos olhares dos dois atores é um bom contraste com a grande cena de discussão de História de um Casamento que muito circulou pela web nas últimas semanas. Ali existe um momento privilegiado, cuja crueza a separa do tom mais ameno do resto do filme, o único instante em que a crueldade do divórcio não é terceirizada para o meio legal. É um momento bem escrito tanto quanto a cena de Private Life, mas a direção de Baumbach é fora do ponto, destoa por demais do resto do filme e ao transforma o momento numa “cena de ator” no mal sentido, a violência dos sentimentos como matéria prima para Driver e Johansson e não com força por ela mesmo. Ajuda a descer mais fácil. Estamos longe por exemplo do ressentimento brutal dos filmes de casal de Maurice Pialat a feiura aqui é uma moldura, boas pessoas que por um instante fracassam, mas nada que torne a identificação desconfortável.

Que História de um Casamento chega nesse precipício e depois de para traz e reconcilie os sentimentos num epilogo que indica que as relações simplesmente se reconfiguram sem fazer grande esforço de curar em cena as feridas só reforça esse sentimento. Por contraste, Giamatti mudando o lado da mesa para ficar mais próximo da esposa na cena final de Private Life soa mais honesto, tanto intimo como reflexo de um casal que quer passar a imagem de uma frente unida a despeito das suas diferenças.

Tenho uma relação bastante ambivalência para com os filmes de Noah Baumbach. Ele é  um cineasta que tem um talento natural para montar cenas individuais, mas cuja personalidade de um arrivismo classe alta intelectual americana sempre me coloca a distância (se tiver caso maior de cinema de berço no cinema americano do que o seu anterior The Meyerowitz Stories (New and Selected), não o vi). São filmes que sugerem que pessoas que não leem o The New Yorker lhe são socialmente inferiores. Seus melhores momentos são quando suas observações sobre momentos de personagens cortam por essa superfície. História de um Casamento tem uma cena dessas quando a cunhada precisa entregar a Driver sua notificação judicial, e uma cena que pertence a atriz Merrit Weaver com seu nervosismo com o desconforto de estar naquela situação. É a melhor e mais honesta cena do filme. Do nada, compartamento bagunçado e genuino trespassa as barreiras respeitaveis do fiime.

Uma vantagem clara de Private Life é que ansiedade de legado é subtexto em História de um Casamento, mas texto aqui. A criança existe, mas é uma abstração no segundo, no máximo um estorvo e ocasional objeto de cena, a ponto de ser cômico ver aquelas duas pessoas brigando por ela. Existe só um desejo de criança e a presença constante da sobrinha que serve de filha substituta em Private Life, mas este desejo de continuidade toma conta de cada ação. Somos o que deixamos e aqueles que de alguma forma afetamos. Legado como responsabilidade e não propriedade. Dessa forma Jenkins e seu filme localizam ao menos algumas formas humanas de escape no meio de um cenário brutal.

2 Comentários

Arquivado em Filmes

2 Respostas para “Vidas Mercatilizadas

  1. Julio Gomes

    Excelente, como sempre, Filipe, mas o texto em português merecia uma revisão mais atenta (a começar pelo título). Me pareceu uma tradução apressada do texto original em inglês, o que é uma pena, pois você se expressa muito bem em ambas as línguas. E é sempre um privilégio poder lê-lo.

    • Filipe Furtado

      Eu quase sempre escrevo em português e depois traduzo para inglês (salvo pelos casos em que o texto do Letterboxd é mesmo um rascunho para o do blog como o do Gray).

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