A vida gentrificada das telas

oprojecionista

(English version here)

Mês passado circulou a notícia de que o governo Trump planeja cancelar um antigo decreto antitruste do fim dos anos 40 que proíbe estúdios de cinema de se envolverem diretamente com a exibição. Trata-se provavelmente da lei mais relevante para como a indústria de cinema americana se organiza ao longo dos ultimas sete décadas e dada a centralidade dela para o resto do cinema comercial acaba afetando de alguma forma todos nós. Desde que soube da notícia venho pensando bastante em O Projecionista, documentário do Abel Ferrara que foi um dos melhores filmes que vi na última Mostra de Cinema de São Paulo.

O ponto de partida do filme de Ferrara é um retrato de Nicolas Nicolaou, um exibidor de cinema cipriota que está envolvido com o meio de exibição de Nova York desde os anos 60 até hoje. O filme se alterna entre uma visita de Ferrara e família a Nicolaou no Chipre com uma conversa entre Ferrara e Nicolaou em Nova York sobre os negócios do último. Trata-se quase de um home movie (nas cenas no Chipre, Ferrara não se cansa de destacar a presença da esposa e filhinha) muito orgulhoso não só do seu intimismo, mas do que tem de filme amador. Entre amigos após sessão até brincamos que Nicolaou provavelmente financiou o filme do próprio bolso.

Ao longo do filme, Ferrara da ampla oportunidade para o exibidor falar em primeira pessoa sobre suas experiências e ele visivelmente está satisfeitíssimo pela massageada de ego, mas se O Projecionista fosse um filme sobre Nicolaou ao invés de um filme através de Nicolaou provavelmente não estaria aqui falando dele.  Pensemos na incongruência do título: não existe nenhum projecionista aqui, nenhuma figura que opera um antigo projetor cinematográfico. Nicolaou é um empresário do meio da exibição que um dia trabalhou em antigos cinemas pé sujo na região do Times Square. A ideia do projecionista existe no filme muito mais como gesto simbólico e político ao qual os negócios e trajetória de Nicolaou servem bem. O que fascina sobre O Projecionista é que é um filme sobre cinema e sociedade, espaços públicos e como essas coisas todas se conectam e refletem umas às outras. Em suma, é um filme sobre gentrificação de Nova York, mas também é um filme sobre a gentrificação do ato de ir ao cinema.

O Projecionista é um ensaio sobre como fomos de Putney Swope a Blade Runner 2049. O último funciona como constante lembrança do cinema contemporâneo em parte porque seus outdoors estavam espalhados pela cidade quando das filmagens e muito pelo seu caráter simbólico, tão logo Putney Swope é mencionado, Ferrara lembra que o filme fora dirigido por Robert Downey, o pai cineasta transgressor de “famosa estrela de cinema”, nada aqui é acidental e desprovido de peso. Não se trata de um filme nostálgico, mas de um filme sobre transformações e o agora. A disneyficação do cinema está em pauta, mas é fascinante observar as maneiras como Ferrara a aborda.

O filme traça a história do circuito exibidor em Nova York nos anos 60/70 com especial destaque entre a tênue diferença entre o circuito de arte e o pornográfico e como homens como Nicolaou trabalhavam nas duas frentes e frequentemente usavam os lucros da segunda para sustentar a primeira, o espaço entre Pasolini e sacanagem é bem pequeno. Há uma peculiar forma de democracia nesse universo populista que a voz nostálgica de Nicolaou celebra. O próprio Ferrara afinal dirigiu um filme pornográfico antes de sua estreia “oficial”. O Projecionista faz amplo uso de clipes de filmes para ilustrar suas ideias e tem bastante consciência da sua própria posição de documentário para espaços elitizados. Os clipes não se resumem a Taxi Drivers e clássicos italianos, mas Ferrara lança mão de várias cenas de filmes pornô gays do período, basta dizer que a plateia do Reserva Cultural não estava com paciência para nada disso. Não faltaram abandonos. Numa transição chave do filme Ferrara mostra a si mesmo quarenta anos antes como o assassino-título de The Driller Killer.

Aula de história dada, boa parte da segunda metade do filme se dedica aos negócios contemporâneos de Nicolaou. Vemos como a pressão do mercado exibidor e especulação imobiliário tornaram as antigas salas de rua impossíveis. As ruas e as telas de cinema são uma só. A especulação do lado de fora também impacta o que é exibido. Certos filmes são indesejáveis, certos espectadores também. Ferrara fez o melhor filme sobre a Nova York de Giuliani em 2001 com ‘R Xmas. É justo lembrar que o próprio Ferrara se reinventou de cineasta de exploitation a cineasta de arte sem com isso mudar suas obsessões e a essência do seu estilo, mas somente o público alvo determinado pelo mercado.

Nas salas que Nicolaou mantém no Queens, uma programação padrão de cinema americano domina (Blade Runner 2049, Sniper Americano, It) e mesmo essa o filme revela só foi possível após o empresário montar uma campanha para recebe-los já que por muito tempo seu próprio cinema era visto como indesejável e condenado a exibir filmes muitos meses após as salas nobres. A entrevista com dois jovens estudantes sobre o novo Blade Runner dita um certo tom (a fotografia do novo é melhor, a história pior). O tom hostil do filme para contemporaneidade se transforma nas entrevistas que revelam um Abel curioso e afável com as pessoas que encontra (ao contrario de esnobes decadentistas, Ferrara coloca todas a sua raiva sobre as forças do comércio). Da minha parte, me senti muito atacado pelo jovem que escolheu ver It porque críticas de You Tube lhe prometeram um filme assustador.

Sobre o cinema independente resta a última sala de Nicolaou em Manhattan que hoje se dedica a alugar seus horários fechados para produtores que querem poder dizer que estrearam seus filmes no circuito e receber uma crítica no New York Times. Qualquer semelhança com a distribuição de cinema independente brasileiro é mera e assustadora coincidência. Nenhum dos pôsteres que vemos por lá é de um Pasolini, a cinebiografia dos últimos dias de Pasolini que Ferrara realizou em 2014 foi finalmente lançada nos cinemas americanos este ano.

Ao longo de O Projecionista atravessamos modos de inferno de capital diversos. Que Nicolaou se adapte com destreza a todos eles, é muito bem observado. As ruas, as salas de cinema, os filmes nas telas todos foram devidamente higienizados. O Projecionista é um filme violento, no qual todos de alguma forma perdem em meio as articulações de montagem de Ferrara. Os filmes, porém, sobrevivem. Esta é uma das duas verdades do filme. A outra é que a marquise de Blade Runner 2049 é inescapável.

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