Notas sobre Bacurau

bacurau

(English version here)

— Vamos falar da música brasileira e da escolha estratégica de canções. Bacarau começa com a versão de Gal Costa’s para Não Identificado de Caetano Veloso e termina com Réquiem para Matraga de Geraldo Vandré. Ambas canções conhecidas dos anos 60 e ambas identificadas com filmes conhecidos do período, a primeira com a alegoria musical de ficção cientifica Brasil Ano 2000 de Walter Lima Jr e a outra com o faroeste social A Hora e a Vez de Augusto Matraga de Roberto Santos. Dois completos opostos do imaginário do Cinema Novo tanto com os tropicalistas (e Gilberto Gil compôs a trilha sonora de Brasil Ano 2000) e Vandré. Os dois filmes e as duas canções são pontos de abertura fascinantes sobre Bacurau porque o filme deseja passear entre esses registros. Tem um forte sentimento de alegoria pop e muito como os tropicalistas tira várias lições da antropofagia de Oswald de Andrade. Ele também permanece bem enraizado no seu povoado ficcional com tempo e lugar bem definidos e um desejo de descrever a ele e seu povo (vale apontar que a maior parte da figuração que preenche as cenas do filme vem da população Barra onde filmaram Bacurau). O desejo é de apresentar essas descrições numa embalagem política clara e sentida. Então boa parte das superfícies e operações seguem bem próximas de Caetano mas os sentidos mais para Vandré (estou simplificando aqui, mas digamos que a forma com que Bacurau se refere à “o povo” está bem mais próximo da arte do segundo que do primeiro).  Não é um casamento fácil, mas é de grande interesse.

— Outra coisa que vale apontar: tanto Brasil Ano 2000 como A Hora e a Vez de Augusto Matraga são ficções sobre os horrores do desenvolvimentismo brasileiro assim como Bacurau.

— Essas referências a Cinema Novo são bem intencionais e Bacurau por vezes sugere o cinema político brasileiro dos anos 60 após receber um banho pesado de cinema de gênero. Em especial ao trabalho de enquadramento em scope de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles sempre agressivo e dinâmico. Falando em Cinema Novo Pacote tem muito daquelas personagens que transitam entre vários grupos recorrentes nos filmes do movimento dos quais o Jean-Claude Bernardet escreve muito no Brasil em Tempo de Cinema como um representante não-oficial da classe média urbana.

— A própria Bacurau é imaginada com riqueza e a primeira hora tem uma textura forte e uma presença de lugar. Existe muitos elementos da ficção brasileira sobe pequenas cidades do Nordeste na imaginação de Bacurau, mas o filme não soa especialmente derivativo de nenhuma. Como a sociedade local é organizada permanece mais vago a parte a presença ocasional do prefeito da cidade maior vizinha. Eu gosto de como o que temos por liderança local passa muito pelas figuras do professor e da médica.

— Curioso observar que o filme observa que a Igreja local está a muito fechada já que a completa ausência de religião é um dos detalhes que apontam para Bacurau como um espaço mais alegórico do que realista.

— o retrato da população local é apaixonado, mas não muito individualizado. Kleber e Juliano na maior parte do tempo preferem planos de agrupamentos e não há muito tempo para se aprofundar sobre a vida de ninguém. Bacurau tem sua boa dose de mitificação do nordestino bem fiel a certa tradição da literatura brasileira mais próxima da esquerda. Há um contraste grande com os espaços classe média alta de O Som ao Redor e Aquarius tão específicos. Ele também não tem os tiques de privilegio aristocrático que existiam as margens daqueles filmes e seus pontos de vistas (ninguém em Bacurau teria a menor paciência para Clara). Podemos também argumentar que o único interesse do filme é o retrato comunitário e ele ´muito bem-sucedido nesses termos.

— A despeito de toda a sua positividade, existe sempre um elemento de tensão na comunidade. A médica de Braga fazendo uma cena no funeral da matriarca estabelece um tom que o filme nunca se deixa dispersar. Existe também uma boa dose de paranoia, justificada pelas necessidades da trama, mas que reforça a sensação de que nem tudo aqui vai bem. Existe uma forte impressão de sociedade se desintegrando. Estamos “alguns anos no futuro” e apesar do filme nunca nos dar muitas informações a respeito dele, a impressão que fica é de que se trata de algum tipo de distopia (não que o Brasil atual não seja uma).

— Existe muito desejo de ligar o filme ao governo Bolsonaro, mas isto pode ser limitador. Como Mendonça Filho já apontou ele e Dornelles começaram a discutir o filme em 2009 e as filmagens estavam completas na altura das eleições. E os detalhes apontam para mal-estares sociais que vão além de um só governo. Vale apontar que o prefeito corrupto é identificado com o PMDB, por exemplo. E muito dos problemas descritos aqui seriam iguais se o filme fosse de 2012. Isto dito, esta impressão de sociedade se desintegrando e mal-estar crescente que desanda em violência é certamente bem Brasil de 2019 e Bolsonaro é o resultado maligno de muito dos sintomas que o filme observa. Usando um termo caro ao crítico americano Jim Hoberman, este filme dirigiu a si mesmo e é um bom resumo de como o Brasil chegou ao precipício.

— Nisso é interessante observar o papel da violência nos três filmes de Kleber Mendonça Filho. O Som ao Redor é uma narrativa panela de pressão no qual a longa história de violência do Brasil é sublimada através de arquitetura e observações históricas bem colocadas com uma promessa de retorno logo fora do quadro. Aquarius torna a violência mais presente dentro do quadro, mas ela permanece simbólica e como o Inácio Araújo bem observou o filme se estruturava como um faroeste completo com um tiroteio sem armas no clímax. As armas de verdade estão bem as vistas em Bacurau cuja violência não tem nada de sublimada ou simbólica. As cabeças explodem aqui.

— O Som ao Redor e Aquarius tinham uma tendência a diálogos demonstrativos com muito oneliners de sentido político didático. Há muito pouco disso no muito mais prático Bacurau, por todos os seus elementos de gênero os momentos entre seus personagens parecem mais vividos. As exceções são a grande cena da Sonia Braga após a primeira visita do prefeito e muito das interações entre os estrangeiros.

— Outra diferença chave dos primeiros filmes do Klener Mendonça Filho é que eles tiravam muito do seu controle de espaço interior. Filmes de arquitetura com grande domínio do espaço dramático. Bacurau seguindo suas influências de faroeste é um filme de exteriores, fazendo um bom uso de paisagem (as cenas nas proximidades da cidade têm uns belos céus). Permanece um espaço controlado e as vezes opressivo dominado pelo enquadramento cuidadoso em scope, mas numa dinâmica bem diferente.

— O pobre Juliano Dornelles é o homem esquecido neste mundo cruelmente dominado pelo autorismo. Só vi um curta de Dornelles Mens Sana in Corpore Sana com suas fortes sugestões de horror corporal. É um ponto de referência útil para Bacurau e sua abordagem mais precisa e violente e o movimento do filme da arquitetura para o corpo me parecem dever bastante a ele. Trata-se de um filme mais visceral e menos alegórico do que os dos que Kleber Mendonça Filho assinou sozinho e a mão forte de Dornelles como co-diretor são essenciais nisso.

— Uma das contribuições mais interessantes de Bacurau é ressuscitar a figura do bandido social. Presença tão recorrente na literatura latino americana,mas não um tipo comum no cinema latino deste século. Lunga, o bandido social muito bem vivido por Silvero Pereira, é muito discutido na primeira hora e domina boa parte da segunda metade, ele é claramente a estrela que emerge do filme e não à toa é tão recorrente nas mídias sociais e um claro problema para as mais apaziguadas tentativas de leitura centristas do filme. A presença dele quebra qualquer tentativa de manter o pacto social.

— O museu segue sendo mencionado e quando finalmente o filme o adentra sua principal função é localizar a cidade de Bacurau como parte do ciclo do cangaço. Isto faz com que tanto Lunga como a violência do filme integrem uma tapeçaria social mais ampla. É fácil extrapolar das sugestões de poder político de fora dando apoio aos invasores estrangeiros, se não existe algum interesse especifico em Bacurau e o desejo de sangue dos caçadores uma útil peça política. Muito como Aquarius, Bacurau é um faroeste de disputa de terras.

— Bacurau é dividido de forma inteligente em duas metades com a primeira grande cena com os caçadores como ponto de quebra. O ponto de vista muda a partir desse momento, a Teresa de Barbara Colen, aquela que retornava para casa, majoritariamente servia de um ponto de vista mais ancorado até ali, mas depois o filme frequentemente é tomado pelo olhar de fora enquanto Lunga domina as ações na cidade. O tom muda da descrição para a ação e as sugestões de horror se tornam mais diretas. Chamemos a primeira metade da metade cinema novo e a segunda da John Carpenter (não que as oposições sejam tão simples).

— As cenas dos caçadores são fascinantes na maneira como eles são tratadas como um outro não muito diferentes de como o cinema americano/europeu frequentemente faz com corpos estrangeiros. Muitas pintadas genéricas, cheio das mesmas variações em violência, arrogância e privilegio. São presenças sem graça que só existem como buchas de canhão para serem massacrados na hora certa. O mesmo vale para o casal de sudestinos e me pergunto se Bacurau seria um filme politicamente mais forte se a invasão viesse de dentro do Brasil no lugar do componente estrangeiro, mas ai seria também certamente um filme bem mais divisivo. Os caçadores funcionam melhor como figuras do establishment permitidas completar sua pulsão de morte normalmente sufocadas (são um bando de Wiltzels gringos por conveniência).

— Kier recebe um tratamento um pouco diferente mais icônico e simbólico, um corpo menos descartável. Kier permanece uma presença excêntrica e imprevisível cuja ameaça é sempre melhor quando ela tem um ponto como aqui. É curioso observar sua necessidade por controle ao longo do filme. Bacurau usa do velho cenário dramático de O Jogo Mais Perigoso, mas se a premissa sempre foi sobre poder (e muitas vezes dinheiro), o mestre de cerimonias de Kier enxerga o poder como uma forma de dominação sobre a cidade. Todos os demais só querem matar uns “selvagens”, mas ele quer uma cidade contida e com medo. A segunda metade de Bacurau não é só sobre uma invasão fracassada, mas sobre a perda de poder de Kier. Eu pensei muito no Catatu do Paulo Leminski. A performance do Kier encorpora muito da mesma lógica “civilizada” condenada que se transforma em histeria. Bacurau é um conto de como a encenação de uma invasão estrangeira da errada através de uma ideia de comunidade e de uma esperta reapropriação da encenação de uma armadilha que se volta contra si mesma. Por toda a segunda metade Kier atua como um diretor de cinema a preparar seu grande filme de ação pensei bastante em Clint Eastwood interpretando John Huston em Coração de Caçador.

— A antropofagia cultural de Oswald de Andrade é central em como Bacurau deglute o cinema de exploitation dos anos 70 para seus usos politicos. John Carpenter é o ponto de referencia mais óbvio, uma das suas composições está na trilha, a referência cômica a escola João Carpinteiro de O Som ao Redor é repetida e seu cuidado com enquadramento sempre foi uma referência estética forte nos filmes de Mendonça Filho (e não estão distantes de Mens Sana in Corpore Sana). Mas Bacurau parece apontar de forma mais geral para como os filmes de gênero mais baixos do período e as noções de violência e desintegração social deles num contexto em que as ideias de “civilizado” sempre foram mais puras. Bacurau politiza ainda mais a sensação de perigo constante daqueles filmes e transforma seu subtexto anárquico em texto.  Não há qualquer impressão de que Bacurau fosse um lugar pacifico pré-caçadores assim como não era o Brasil de dez anos atrás. As noções especificas de violência nesses filmes de exploitation se torna uma ferramenta útil para reimaginar a longa história de violência do Brasil, em particular nas maneiras como foi usada para explorar o Nordeste e sua população.

— Bacurau como um todo quer aproximar muitos opostos, Vandré e os tropicalistas, comunidade e violência, uma tradição de cinema de consciência social e o filme de gênero “irresponsável”. Não é um equilíbrio fácil e o filme é mais irregular do que O Som ao Redor ou Aquarius. Sua política não é conciliada, mas sua estética quer servir muitos pais. Bacurau quer fazer um compendio de imagens de revolta e achar uma maneira de encaixa-lo num panorama amplo do Brasil atual e suas injustiças. Houveram algumas tentativas (inclusive por parte de Mendonça Filho) de fazer uma conexão entre Bacurau e Parasita, mas se ambos explodem em violência, o filme brasileiro a usa de forma menos privada, Bacurau, a comunidade que já parecia funcionar abandonada a si mesma parece até assumir a anarquia após ter seu gosto de violência. Ele não se fecha em si mesmo como o filme coreano, mas só pode ir até a promessa de mais lutas pela frente. O filme encena o fim das pretensões de uma sociedade funcional, mas o que fazer após o seu povo se torna radicalizado?

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