Faca no Coração (Yann Gonzales, 2018)

faca

Desde o começo dos anos 2000, o giallo como expressão artística valida foi bastante revalorizado, muito pelo relançamento de clássicos (e as vezes nem tão clássicos assim) em bons transfers em home vídeo. O que resultou na última década num festival de filmes que trabalham sobre motivos e recorrências do gênero (a dupla Forzani/Cattet e Peter Strickland vem a mente em particular), filmes que no geral soam completamente equivocados nas suas afetações acadêmicas uma ideia que foi elevada a pontos grotescos no recente remake de Suspiria. A não ser que você seja Brian De Palma não há motivo algum para ler suas anotações sobre o funcionamento e prazeres dos mecanismos do horror italiano. Neste contexto é um prazer encontrar Faca no Coração do Yann Gonzales atualmente em cartaz no Mubi até os primeiros dias e agosto. Trata-se de um dos filmes mais divertidos do ano passado, com um domínio de cor e ritmo e uma ideia muito precisa de como fazer pastiche sem que o filme se limite a existir nessa chave. A equação entre sexo e morte (o filme se passa nos bastidores do universo pornô gay do fim dos anos 70) é mais um motor de cinema erótico do que o excesso puritano ao qual frequentemente reduzida. É sobre o prazer da encenação. Gonzales tem uma ideia sobre danação e decadentismo desprovida de julgamentos óbvios. E há um desejo muito forte de localizar nessa tradição algo que fale fundo ao espectador LGBT, mas que geralmente é ignorado nas leituras mais habituais sobre o gênero. Gonzales tem um sentido forte das possibilidades de aproximação entre perversão e emoção que o gênero permite, sobre o significado de encenar a morte num contexto operístico de arte italiana. Pode-se se tratar de um gozo interrompido, mas a ênfase permanece no gozo e não na interrupção O filme pode desaparecer no próprio delírio não fosse a presença de Vanessa Paradis como a diretora cujos atores começam a morrer um a um e ao qual cabe pouco mais do que seguir encenando enquanto o seu mundo sai do lugar, ela tem uma noção de encontro entre melodrama e horror que ancora muito bem o filme, uma transparecia de sentimentos que balanceia o artifício das imagens. Gonzales tem uma ideia muito clara de como toda a tradição italiana trabalha com um sentimento expansivo e como isso casa com o excessivo no filme de horror. Faca no Coração passou na competição de Cannes ano passado por algum motivo misterioso e é certamente um dos maiores acertos recentes deles. Segue no Mubi por mais quatro semanas.

 

2 Comentários

Arquivado em Filmes

2 Respostas para “Faca no Coração (Yann Gonzales, 2018)

  1. Elson Silva

    E por falar em Brian de Palma vc viu o último filme dele? Domino? Já tá disponível há algum tempo.

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