Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019)

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Acho que foi o Ruy Gardnier quem primeiro fez a comparação entre Democracia em Vertigem com o No Intenso Agora do João Moreira Salles e vejo ela sendo retomado com frequências nos últimos dias tanto a favor como contra o filme da Petra Costa. São filmes de fato muito parecidos, testemunhos históricos em primeira pessoa que misturam os eventos narrados com a vida familiar do cineasta. Exercícios de subjetivação da história, o que está em jogo neles é o desaparecimento da história num sentimento particular, o mal da história é de que no final das contas ela trai as expectativas dos realizadores, não os desastres que ela produz. Me permitam aqui minha própria subjetivação: se Democracia em Vertigem me parece um filme ainda mais grotesco que No Intenso Agora, não é por ser um filme especialmente pior (não é, e inclusive é mais honesto sobre alguns dos seus maiores efeitos), mas por lidar com uma história recente que eu vivi de perto.

O lado positivo dessa proximidade é que é possível ler algumas coisas de valor nas entrelinhas enquanto o filme mata a porretes a história brasileira recente. Esta subjetivação é um problema, mas é preciso dar conta do que ela representa. Democracia em Vertigem se propõe a narrar uma tragédia pelo viés da comedia de erros, mas a tragédia é uma de imagem. O mal no filme é que o pacto da Nova República ruiu. A tragédia não é o impacto das políticas sobre milhões de vulneráveis atingidos por elas. O problema é de percepção. Já não podemos negar que vivemos numa republiqueta oligárquica de merda. Essa é a tragédia. Abstrata, um drama para o acadêmico, para o crítico de cinema, para a cineasta de esquerda que cheio de bons sentimentos vê a “democracia” ruir. A quem interessa de fato essa ideia? Para defender o filme seria necessário levantar essa questão e fazer as pazes com a resposta conformista.

Boa parte dos momentos mais interessantes de Democracia em Vertigem são sobre imagens, como quando Petra Costa observa a linguagem corporal de Michel Temer e seu isolamento em relação as lideranças petistas. A força do filme reside em reconhecer o peso simbólico de alguns momentos e registros. Isso é muito resultado da única política que ele reconhece ser esta dos gestos simbólicos.  Lula no fundo interessa nesses termos, quase um mascote da elite culpada, seu contato com uma ideia de popular. Falta ao filme o salto de reconhecer que essas imagens têm consequências, que os gestos políticos têm impactos reais, que o jogo de poder não é só um xadrez entre grupos distintos.

Há um momento revelador em que a cineasta se volta para Aécio Neves, é questiona se ele tinha ideia do processo que desencadeou. Existe uma aproximação ali, quase uma forma de empatia com o político canalha e corrupto que ajudou a empurrar o país na lama porque fez bico ao perder uma eleição que diz muito sobre o projeto político do filme. O que ele quer restaurar é menos uma ideia de país e sim uma imagem de que tudo corre bem na Nova República. O que Aécio Neves e Petra Costa gostariam de acreditar é que a política brasileira é essa alternância de grupos políticos com pequenas mudanças cosméticas entre eles. A nostalgia do filme, a democracia que ele tanto deseja, que a realizadora compara a sua própria vida, é a retomada do grande acordão nacional. Colocar um pouco de verniz na nossa oligarquia, ignorar o elefante da nossa herança escravista e patrimonialista, o máximo quanto possível.

Nesta lógica é previsível que o filme se organize no seu material original pelo viés do drone e do acesso. É um filme sobre o poder. Nisso ele e O Processo da Maria Augusta Ramos, de resto filmes opostos na forma, muito se aproximam. Pois O Processo já era um filme sobre a canalhice imposta sobre a pessoa de Dilma Rousseff e não sobre o processo político em si. São ambos filmes de corredores do governo, filmes fascinados pelas figuras que ali circulam. É muito informativo que num documentário de observação Ramos tenha zero interesse de transformar os funcionários de gabinete que fazem a engrenagem do julgamento andar em personagens, só lhe interessa os senadores Gleisi e Lindbergh, o ex-ministo Cardozo, Jainana  a advogada algoz contrária, as grandes figuras de poder em suma (a diferença real entre os filmes é a diferença entre a classe média alta e a elite diante do poder, um se deslumbra e o outro assume sua intimidade natural com ele).

Democracia em Vertigem funciona pela mesma lógica, as cenas intimas com Lula e Dilma são notáveis e honestas, mas o contraponto delas é que só através dos grandes atores políticos que o filme consegue se mover. O acesso é sua qualidade e o seu limite. Voltamos ao Aecio e a frustração filme dele fugir do contato direto a despeito da tentativa de estabelecer uma intimidade. O filme quer o tempo todo forjar essa intimidade como quando Costa promove o encontro entre Dilma e a própria mãe guerrilheira. Daí a figura presente do drone, a segurança que ele impõe. Democracia em Vertigem está sempre mais a vontade no close com a classe política ou na distância do drone. São seus modos naturais de ser, uma articulação de político do palácio. Quando Petra Costa vai entrevistar pessoas na rua ou conversar com as faxineiras a limpar o gabinete, é quase como se o cinema brasileiro voltasse cinquenta anos no tempo, pré Glauber, pré Coutinho, retomando a tradição mistificante a CPC da dramaturgia brasileira.

Democracia em Vertigem é um pesadelo narcisista, mas não pela subjetivação proposta pela realizadora. Assim como todos esses filmes recentes sobre Impeachment, o que ele realiza é o desejo masoquista da esquerda privilegiada brasileira (afinal, somos nós, e apenas nós, que consumimos estes filmes), a vontade de dar a mão e reviver juntos “o processo”. “É quase um filme de terror”, ouvi tanto O Processo como Democracia em Vertigem (e ocasionalmente o Excelentíssimos que é o primo feio) ser descritos múltiplas vezes. Qual o motivo de tamanho desejo masoquista? Esses filmes não oferecem novidades narrativas ou de discurso, ocasionalmente uma ou outra imagem chega com o frescor, mas com frequência seguem prisioneiros do noticiário. Queremos tanto assim uma Globo News para chamar de nossa? Confesso ter bastante dificuldade de compreender a atração do fenômeno, são todos filmes que me parecem bem secundários como cinema e completos equívocos como política. Mas resta essa sedução do trauma, a força deste alijar do centro das decisões política no imaginário de certa esquerda.

Será essa a única alternativa para um cinema brasileiro comprometido com encenar nossa existência política? Lidei um pouco com isso num artigo recente na Cinética a respeito de filmes brasileiros vistos no Olhar de Cinema e noto os esforços nesse sentido em alguns outros filmes recentes como Os Sonâmbulos do Tiago Mata Machado. Me lembro aqui de um momento bem forte ao final de Operações de Garantia da lei e da ordem, documentário que a Julia Murat realizou sobre manifestações em 2013 e 2014, no final ela faz um corte entre 2014 e a cerimônia de posse de Michel Temer e existe ali uma revolta real, um peso na elipse, justamente a elipse que de alguma forma está no centro destes outros filmes. A revolta, o poder de resistência no filme é que enquanto Democracia em Vertigem enxerga ali Temer, ator político, Operações imagina a desgraça de todos sobre os quais as decisões políticas dele vão se abater. Falta mais disso a este cinema pretensamente engajado brasileiro, aceitar que só restaurar a farsa não nos levara a lugar nenhum.

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