Meus Favoritos de 2017

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I Cannot Tell You How I Feel, de Su Friedrich

Como sempre o critério é de filmes que eu assisti pela primeira vez em 2017 realizados nos últimos três anos.

Uma menção honrosa para Twin Peaks: The Return que estaria no top 10 se eu resolvesse inclui-la. Tecnicamente é uma série de TV, a despeita de ter o mesmo diretor (David Lynch) e os mesmos roteiristas (Lynch e Mark Frost) por todas as 18 horas e de muito do que torná-la especial certamente esteja mais próxima dos prazeres que associamos ao cinema. Os quatro meses em que ela esteve no ar certamente foram algo especial e quando me perguntarem o que primeiro vem a mente sobre audiovisual em 2017 ela será a resposta, mesmo que não seja necessariamente a minha favorita.

A lista a seguir inclui só filmes com metragem superior a 45 minutos, então um instante também para destacar meus 5 curtas favoritos. A começar pelo I Cannot Tell You How I Feel, da Su Friedrich, outro título que estaria no meu top 10 se eu resolve-se inclui-lo, uma meditação fortíssima sobre envelhecimento e morte através da relação da cineasta com a mãe de 94 anos. Além dele gostaria de destacar This Castle Keep (Gina Telaroli), La Bouche (Camilo Restrepo), Wasteland No.1: Ardent Verdant (Jodie Mack) e As Without So Within (Manuela de Laborde).

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Ava Yvy Verá – Terra do Povo do Raio, de Genito Gomes, Valmir Gonçalves Cabreira, Johnaton Gomes, Joilson Brites, Johnn Nara Gomes, Sarah Brites, Delcídio Gomes e Edna Ximenes

Menções honrosas: (100-76) Ava Yvy Verá – Terra do Povo do Raio (Genito Gomes, Valmir Gonçalves Cabreira, Johnaton Gomes, Joilson Brites, Johnn Nara Gomes, Sarah Brites, Delcídio Gomes e Edna Ximenes),  Actor Martinez (Nathan Silver e Mike Ott), Always Be With You (Herman Yau), The Assignment (Walter Hill), Baby Driver (Edgar Wright), The Battleship Island (Ryoo Seung-wan), Billy Lynn’s Long Halftime Walk (Ang Lee), Café com Canela (Ary Rosa e Glenda Nicácio), Call Me By Your Name (Luca Guadagnino), Diário da Greve (Guilherme Sarmiento), Ember (Zeki Demirkubuz), The Foreigner (Martin Campbell), Girls Trip (Malcolm B. Lee), Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava (Fernanda Pessoa), Lovesong (So Yong Kim), Manchester by the Sea (Kenneth Lonergan), Operações de Garantia da Lei e da Ordem (Julia Murat co-direção: Miguel Ramos), Resident Evil: The Final Chapter (Paul W.S. Anderson), Rodney King (Spike Lee), 77 Heartbreaks (Herman Yau), Silence (Martin Scorsese), Stronger (David Gordon Green), Tharlo (Puma Tseden), TOC – Trantornada Obsessiva Compulsiva (Teo Poppovick, Paulinho Caruso), Visages, Villages (Agnés Varda, JR).

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Alem das Palavras, de Terence Davies

(75-51) Além das Palavras/A Quiet Passion (Terence Davies), Apostando Tudo/Win it All (Joe Swanberg), Arábia (Affonso Uchoa e João Dumans), The Babysitter (McG), Brawl in Cell Block 99 (S. Craig Zahler), Corra!/Get Out (Jordan Peele), Está é Minha Terra/Chez Nous (Lucas Belvaux), Extraordinary Mission (Alan Mak, Anthony Pun), Fragmentado/Split ( M. Night Shyamalan), Jeannette (Bruno Dumont), Landline (Gillian Robespierre), Napalm (Claude Lanzmann), O Nó do Diabo (Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi), Okja (Bong Joon-ho), Operation Mekong (Dante Lam), O Outro Lado da Esperança (Aki Kaurismaki), Quand on a 17 Ans (André Techiné), Radio Mary (Gary Walkow), Les Sept Deserteurs (Paul Vecchiali), This is Not What I Expected (Derek Hui), Tout de Suite Maintenant (Pascal Bonitzer), 24 Frames (Abbas Kiarostami), Two Lottery Tickets (Paul Negoescu), Western (Valeska Grisebach), Voyage à Travers le Cinéma Français (Bertrand Tavernier).

 

50) Your Name (Makoto Shinkai)
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Imagino que este anime do Makoto Shinkai seja o filme mais visto aqui da lista (apesar de majoritariamente no oriente). Como exploração das possibilidades de fantasia cinematográfica e do desejo romântico é sempre um filme muito expressivo o que torna o sucesso dele no Japão bastante compreensível. E a animação é espetacular, sobretudo no uso da luz.

49) Beach Rats (Eliza Hittman)
201749
Assim como o excelente filme de estreia de Hittman, It Felt Like Love, Beach Rats é sobre a intersecção entre curiosidade e desejo na adolescência e sobre como estes sentimentos podem alcançar uma existência ambivalente, entre a excitação e o trágico. Beach Rats não chega a ser tão forte quanto o filme anterior por conta de um texto as vezes óbvio demais, mas a direção de Hittman segue no ponto. Alguns críticos desmereceram o filme como uma simples apropriação de Claire Denis (“bro travail”), mas acho que ele tem uma especificidade de corpo e lugar que pertencem somente ao filme mesmo.

48) Personal Shopper (Olivier Assayas)
201748
Assayas modernizando um terror de Val Lewton com um toque de fantasia Rivettiano. Todo bloco do centro da ação com Kristen Stewart, excepcional, recebendo as mensagens telefônicas que podem ou não virem de outro mundo, é incrível e tem uma tensão e mistério sustentados com uma força que o excesso de conceituação dos filmes do cineasta nunca alcamçam. O filme é melhor quando está a observar Stewart sozinha em cena do que quando precisa dramatizar os encontros dela com terceiros, mas felizmente ela esta sozinha em cena por boa parte dele.

47) SPL 3: Paradox (Wilson Yip)
201747
Wilson Yip retorna a série que ele lançou em 2005, seu olhar é mais profissional e menos selvagem do que Soi Cheang, mas aqui também está de volta o grande Sammo Hung para entregar a coreografia de ação mais criativa e dramática do ano. Nenhum dos SPLs tem qualquer relação dramática com o anterior, mas eles dividem o mesmo material temático: homens torturados em desejo de uma punição masoquista e uma ação catártica disposta a oferecer a destruição que seus corpos pedem.

46) As Boas Maneiras (Marco Dutra e Juliana Rojas)
201746
Esta fantasia social da dupla Dutra e Rojas é muito forte na imaginação e tem grande facilidade de mover-se por entre registros. A primeira metade no apartamento da Marjorie Estiano é excelente, o filme cai um pouco na segunda parte, um pouco por uma incerteza na direção das crianças e um pouco por ser mais um filme que parta de elementos sobrenaturais do que um filme de terror, o que reduz a eficácia de algumas das cenas do terceiro ato. Ainda assim é um filme sobre maternidade e laços sociais muito potente.

45) Colo (Teresa Villaverde)
201745
Como sempre em Villaverde estamos no terreno do drama como uma peça musical. Aqui o foco é aquele terror maior da classe média, o mover-se socialmente para baixo. É um filme mais seco e contido que outros trabalhos dela, mas está lá o mesmo drama e o mesmo desejo de preencher o espaço com sentimento.

44) Mrs. Fang (Wang Bing)
201744
O documentário do Wang Bing acompanha os últimos dias da senhora Fang do título prestes a morrer de Alzheimer. Para alguns todo o foco do filme é intolerável e exploratório, mas para mim a força do filme é justamente a sua violência. O cinema como um aparato de terror, nada edificante. As imagens são um gesto de poder cujas vísceras ficam ali expostas na tela. Não é bonito, mas nem sempre produzir imagens é.

43) O Dia Depois (Hong Sang-soo)
201743
Vi dois dos três longas que Hong Sang-soo lançou este ano e não é uma surpresa observar que o humor dele esteja tão duro nestes primeiros filmes lançados após a vida particular dele ser exposta nos tabloides sul coreanos. Sempre houve em Hong está tensão do possível elemento autobiográfico neles, todos estes artistas em transito prontos para meter os pés pelas mãos, soarem ridículos perante as mulheres que perseguem e deixarem um rastro de destruição emocional pelo caminho, com todos aqueles detalhes super específicos e repetição de elementos sugerindo o rearranjar dramático de elementos particulares. Agora que Hong literalmente virou um personagem de Hong, esta tensão se rearranja e ele parece ter consciência disso (um dos elementos mais interessantes aqui é como o filme joga com as nossas expectativas ameaçando sempre alguma virada estrutural). Basixamente é Kim Min-hee reagindo aos piores seres humanos do mundo enquanto eles se perdem nas suas relações mesquinhas. É um dos filmes mais engraçados de Hong e também um dos mais amargos.

42) Reparér les Vivants (Katell Quillévéré)
201742
Sempre bom quando uma cineasta que você marca como promissora finalmente entrega um filme com a força deste. Reparér les Vivants acompanha o processo da morte de um jovem num acidente até a cirurgia do transplante do seu coração através de todas as principais figuras envolvidas (família, médicos, a receptora). É notável sobretudo pela forma com que trabalha o acumulo de detalhe físico.

41) A Mulher que se Foi (Lav Diaz)
201741
Outro conto de terrível de vingança e passagem do tempo de Lav Diaz. Quando entrevistei ele a época da retrospectiva na Mostra, ele me mencionou a paixão que tinha por Tolstói e este conto em particular, é ótimo vê-lo encontrar uma leitura tão própria para ele. Como sempre em Diaz, me impressiona muito como ele divide com o Garrel esta capacidade de usar a fotografia preto e branco como forma de redimensionar simbolicamente cada gesto. Aqui me marca muito a forma como o filme é capaz de trabalhar a dicotomia entre as capacidades redentoras e destrutivas da protagonista e a maneira como a ideia de invisibilidade é constantemente posta em primeiro plano.

40) Fences (Denzel Washington)
201740
Eu vi muitos filmes do Marcel Pagnol e do Sasha Guitry este ano e acho que isto me rendeu uma apreciação maior de chegar ao cinema pela fidelidade ao teatro. Acho o domínio de cena exibido pelo Washington, uma das mais cuidadosas modulações dramáticas do ano e dai que se passe quase todo entre uma sala e um quintal? O texto do August Wilson é notável e o elenco que Washington reuniu não fica atrás.

39) The Love Witch (Anna Biller)
201739
Uma reapropriação de elementos geralmente limitados ao exploitation para fins bem pessoais. De um esmero visual asfixiante, mas notável pela maneira como dribla o mero pastiche. Esta asfixia é também parte do processo de como o desejo aqui tudo toma e ocupa e também de como o filme flerta com isso até achar uma saída própria e singular.

38) Soul Mate (Derek Tsang)
201738
Peter Chan produziu Soul Mate e este conto da longa amizade entre duas mulheres sugere por vezes uma atualização do seu Comrades, Almost a Love Story para a China contemporânea. Como naquele filme a um olhar cuidadoso para as transformações e passagem do tempo, mas a ansiedade com a entrega de Hong Kong a China se transmuta numa angustia perante a um pais em constante crise existencial. Derek Tsang (cujo pai Eric fazia o outro cara em Comrades) dirige com um forte sentido de drama e as duas atrizes principais, Zhou Dongyu e Ma Sichun, são ótimas.

37) Abaixo a Gravidade (Edgard Navarro)
201737
É sempre um prazer estar diante da expressão de um artista livre. Abaixo a Gravidade não é um filme de ontem ou hoje, apesar de ser um dos filmes mais honestos sobre a velhice lançado em muito tempo, mas um filme que existe somente no universo singular de Navarro e tamanha injeção de Navarro é algo muito bem-vindo no cinema brasileiro contemporâneo.

36) Lady Bird (Greta Gerwig)
201736
Um retrato cuidadoso da adolescência e da ambivalência que se constrói com as raízes (cidade, escola, família). As fricções destes elementos têm muita força mesmo que para a visão de mundo do filme seja inevitável que tudo conduza a uma conciliação. Gerwig tem um olho muito bom para com este universo juvenil e seu elenco jovem é muito hábil em dar corpo a ele.

35) In This Corner of the World (Sunao Katabuchi)
201735
Tão belo quanto um filme em que marcamos tempo a espera da bomba cair. O deslocamento cultural de ser arrancada de uma família a outra e o sentimento crescente de privação do front doméstico do Japão em guerra.  Os elementos mundanos da trama em contraste crescente com a estilização da animação. Quase como se alguém reimaginasse algo como Caterpillar para anime.

34) The Lost City of Z (James Gray)
201734
Mais uma vez o apelo da casa da ficção. Quase Charlie e Robert viagem de barco. Sobre um sujeito tão de saco cheio diante da civilização europeia que ele inventa outra na cabeça e desaparece na Amazônia. É uma ideia sedutora todas as possibilidades do drama, da criação confrontada com o peso da história colonial. Talvez não um grande filme, mas em todas as suas contradições, um filme essencial.

33) Rules Don’t Apply (Warren Beatty)
201733
Uma celebração muito particular e excêntrica de um patriarcado a desaparecer, de um excepcionalismo do capital Americano de uma era pré Wall Street. Aquelas figuras singulares do imaginário americano do século passado Howard Hughes e Hollywood indo juntas ao analista. Quase um reverso do Melvin e Howard do Demme. É algo como o último filme americano do século XX chegando aqui com duas décadas de atraso. Amo tudo nele incluindo as imperfeições e pagaria caro pelo corte de 5 horas que Beatty definitivamente tem num cofre em casa.

32) Victoria (Justine Triet)
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Um desses filmes que não recebem atenção pois a relação cinefilia/mercado decidiu que os únicos europeus de nota chegam chancelados pelos grandes festivais e jamais uma comédia como essa. Justine Triet coreografa todo o entorno da ótima performance de Virginie Efira com grande precisão.

31) Aliados (Robert Zemeckis)
201731
Sobre desaparecer numa miragem perfeitamente construída. Dá uma bela sessão dupla com Z, mas eu diria que Zemeckis tem uma visão mais firme da fantasia da própria crença neste ato renovador do cinema. De qualquer forma, um dos filmes mais subestimados do ano.

30) Our Time Will Come (Ann Hui)
201730
Uma espécie de complemento para a adaptação de Love in a Fallen City que Hui dirigiu no meio dos anos 80, um outro tipo de conto de resistência diante da ocupação japonesa na II Guerra. Falamos muito sobre o tamanho da indústria chinesa, seu mercado, etc., mas deve-se dizer que todos estes recursos são raramente postos para tão bom uso quanto aqui. O gosto de Hui por um melodrama em chave menor e o tato dela para com atores seguem notáveis.

29) Wet Woman in the Wind (Akihiko Shiota)
201729
Akihiko Shiota refilmando Bringing Up Baby como um pinku tardio. Nestes dias tão obecados pela ideia de nostalgia eis um filme fascinante, Shiota recebeu uma encomenda para uma série de 5 filmes da Nikkatsu em homenagem aos chamados roman pornôs que o estúdio produziu nos anos 70/80 e entregou este filme que foge tanto do fetichismo tolo como o do revisionismo fácil, todo animado pela questão de como manter esta velha forma atual e vital hoje. O controle de espaço, cor e ritmo aqui são excelentes assim como a atuação da Yuki Mamiya.

28) I Am Not Your Negro (Raoul Peck)
201728
É fácil apontar o didatismo e a caretice da forma de Peck, um documentário informativo podese dizer, mas para mim a algo de fascinante em como ele trabalha a sua matéria prima, a palavra de James Baldwin, que existe na contramão disso tudo. A forma como Peck realiza um filme através de Baldwin, não se trata só de usar Baldwin para falar dos EUA do fim dos anos Obama, mas de encontrar uma forma exata para isso no processo celebra Baldwin não só como um grande observador social, mas pela força das suas palavras e como elas são inseparáveis.

27) The Lovers (Azazel Jacobs)
201727
Uma bela comédia de recasamento capturando paixão e ressentimento com uma precisão musical. Dois grandes atores, Tracy Lets e Debra Winger, inspirados. E a direção de Jacobs faz com que o filme sempre exista no momento e com uma enorme vitalidade.

26) Paris est une Fete – Un Film en 18 Vagues (Sylvain George)
201726
Sylvain George sempre localizando novas maneiras de tornar este movimento vital. Um travalogo de Paris em revolta acompanhado por um jovem imigrante. Um corpo deslocado e recusado. O que fascina sempre em George é como nas suas imagens cuidadosamente compostas ele cria uma ficção épica da contracorrente do discurso oficial da Europa contemporânea. Existe a certeza de que alguém precisa dar a estes corpos esta possibilidade de existir para resistir também no campo das imagens e das ideias.

25) Last Flag Flying (Richard Linklater)
201725
É curioso observer nos últimos cinco anos a transformação de Richard Linklater num cineasta mais que fora de moda, fora do tempo. Este novo é ápice disso, um filme de velho com três veteranos do Vietnam a conversar e trocar farpas enquanto se encarregam do funeral do filho de um deles. Linklater faz isso como ninguém e o filme tem uma modulação dramática incrível e Steve Carrel grande ator poucas vezes tão bem utilizado.

24) Shock Wave (Herman Yau)
201724
Herman Yau e Andy Lau voltando no tempo do cinema de Hong Kong para algum momento dos anos 90 quando este tipo de exercicio de gênero ainda era a base da produção local. Um filme simples, mas executado com precisão rara e uma ênfase no custo humano incomum no gênero. E Yau tem um olho muito bom para encontrar pequenos detalhes de cena e encontrar pequenas variações dramáticas inesperadas.

23) Yourself and Yours (Hong Sang-soo)
201723
Hong pegando vários elementos típicos dos seus filmes (duplos, imaginação, repetição, excessos alcoólicos, homens pagando mico) e retrabalhando ele num filme de identidades trocadas que é quase uma comédia clássica. Os filmes dele deste ano sugerem um retorno a fase inicial mais dura dele, este aqui do ano passado lembra o período do final dos anos 2000 após ele descobrir o zoom e redobrar seu prazer com jogos narrativos e bifurcações dramáticas.

22) Outrage Coda (Takeshi Kitano)
201722
Kitano encerrando a sua trilogia de retorno ao universo Yakuza. Como o título anuncia trata-se de um epilogo aos dois filmes anteriores, ele nem alcança o ápice da selvageria do primeiro filme, nem a percepção da tapeçaria social do segundo. Em compensação ele tem o mesmo controle formal e divide com eles a condição de ser tão engraçado quanto um filme sobre um bando de homens violentos encontrando novas maneiras para trair e matar uns aos outros pode ser. Além disso é o primeiro destes filmes que eu vi após assistir aos oito Battles Without Honor and Humanity do Kinji Fukasaku e eles iluminam bastante o que Kitano busca aqui.

21) Ramiro (Manuel Mozos)
201721
Sobre um estado de espirito português. Um filme que se mistura ao seu protagonista, que encontra uma sintonia de humores e gestos. Nisto lembra o Xavier a obra-prima de Mozos, mas Ramiro é mais velho que Xavier, mais carruncuda e suspeito do mundo ao seu redor. Mozos permite que ele se torne tanto mais receptivo a aqueles a sua volta, como reforce o seu próprio olhar. E não me lembro de filme tão feliz na maneira que capta a noite portuguesa.

20) Meurtriere (Philippe Grandrieux)
201720
Desejo e tremor. O corpo humano como um elemento disforme e abstrato constantemente mediado pela câmera. Cinema como uma arma pronto para tornar o corpo reconhecível num elemento novo. Esta é segunda parte de uma trilogia iniciada com White Epilepsy uns anos atrás, a parte final Unrest começou a circular este ano e aguardo muito a oportunidade me perder nela também.

19) Era Uma Vez Brasilia (Adirley Queirós)
201719
Um retrato do humor brasileiro por volta de 2017 por um viés parte Dark Star do Carpenter, parte Tsai Ming-liang tardio. Uma noite dos mortos vidas de almas deslocadas no imediato pós Imprachment da Dilma pela noite de Brasilia e da Ceilandia. Brasilia como uma utopia do inferno numa alegoria sci-fi morosa. A primeira metade dominada por um viajante espacial matando hora numa nave tão lo-fi suspeitamos que nosso futuro é uma Kombi. Um filme de ressaca que recusa a cartese e ao mesmo tempo encontra uma maneira de ao transformar este sentimento de paralisia num gesto de ficção oferece para ele uma forma de expressão que interrompe o ciclo. Podiamos estar diante da fetichização da derrota, mas o filme é inventivo demais, produtivo demais. Ainda assim estamos num terreno próximo de certas alegorias amargas do final dos 60/começo de 60, mas mais que qualquer filme que conste do Alegorias do Subdesenvolvimento, ele me fez pensar no Quem é Beta? do Nelson Pereira dos Santos, igualmente em luto, igualmente inventivo e combativo. É preciso abrir um parêntese para falar sobre como a fotografia noturna da Joana Pimenta complementa o olho para locações do Adirley. Não é só o melhor filme brasileiro de 2017, mais um cuja mera existência me renovou as esperanças.

18) Caniba (Verena Paravel e Lucian Castaing-Taylor)
201718
O Fabio Andrade comparou Caniba ao Wang Bing e é notável que este filme e Mrs Fang saírem no mesmo ano. São ambos filmes que testam nosso estomago, documentários pornográficos sobre a morte que nossa moral diz que não deviam existir. Aqui a câmera fica ali colada na cara do famoso canibal japonês que lhe empresta o título, vemos os seus poros na superfície da imagem. Cinema da carne. Cinema do desejo e da luz. Acusa-se Paravel e Castaing-Taylor de darem a um monstro mais uma plataforma, mas o filme está pouco preocupado com essas questões. Ele se quer nos dá a saída fácil de dizer que ele não julga o seu personagem, pois julga sim para o bem e o para mal. Mais importante é você ali deslumbrado e horrorizado na sala de cinema tentando calibrar a sua distância para algo inacessível. Caniba é um buraco negro e por isso mesmo incontornável.

17) A Morte de Louis XIV (Albert Serra)
201717
Uma morte em vermelho. Quase duas horas de Jean-Pierre Leaud com toda a força simbólica que ele traz consigo mesmo a agonizar numa cama. Albert Serra, sempre o provocador, tem consciência da força conceitual do seu filme: a Nouvelle Vague a ser morta a cacetadas pelos rigores do cinema de festival contemporâneo, tão anti-ético a sua vitalidade. Mas o filme tem também seus próprios prazeres muito específicos, um thriller formalista em quanto mais elementos são recusados pela sanha minimalista de Serra mais excitante ele se torna. Um cinema de excesso pela negativa. E me fascina muito todo aquele cerimonial da morte entorno do Rei de Leaud, tanto quanto a relação cromática que o filme vai aos poucos estabelecendo entre vermelho e as cores drenadas. Um pesadelo formalista do qual não temos escapatória.

16) Jours de France (Jèròme Reybaud)
201716
Dois amantes a se perseguir pelo campo francês ao longo de quatro dias usando o Grindr como forma de contato. Cinema francês pós Diagonale de grande inventividade, de uma abertura radical para todas as possibilidades do seu material. Uma pastoral sobre as possibilidades do desejo. A forma como o filme casa as externas com as internas bem mais teatrais é ótima. O único credito anterior de Jèròme Reybaud era um documentário sobre Vecchiali, e esta estreia na ficção revela-o como um discípulo com olhar próprio.

15) The Edge of Seventeen (Kelly Fremon Craig)
201715
Empatia é sempre um elemento em bons filmes sobre adolescencia e poucos usam tão bem como método e tema como este filme de estreia da Kelly Fremon Craig. Os pontos gerais do drama podem ser todos reconhecíveis do gênero, mas o filme os conduz rumo ao especifico e eletem olhar tão bem observado quanto desconfortável. Excelente elenco também. Fica ali entre Bottle Rocket e Say Anything no panteão de belos filmes de estreia produzidos pelo James L. Brooks.

14) Marjorie Prime (Michael Almereyda)
201714
Quatro atores trancados numa caixa de projeção de desejos. Menos sobre memória e mais sobre como drama pode ser usado como uma ponte entre passado e futuro. Observo uma preguiça crescente em se lidar com filmes como este no qual a maior parte das cenas se resume a encontros um a um, uma impaciência que me aliena de certo discurso cinematográfico. Pois longe de teatro filmado poucos filmes de 2017 foram tão cuidadosamente pensados, cada movimento de câmera, cada corte, as inflexões da luz do Sean Price Williams (maior artista do cinema americano contemporâneo).  Os quatro atores (Lois Smith, Jon Hamn, Geena Davis e Tim Robbins) notáveis. E o filme faz este movimento de uma ideia conceitual para algo muito mais emocionalmente evocativo.

13) Sleep Has Her House (Scott Barley)
201713
O Vento nos assombrará. Daqueles filmes que retomam aquela ideia do Jairo Ferreira de que cinema é a música da luz. Assistir este filme, assim como muitos do Bressane, é como ouvir um álbum, uma série de movimentos animados por como a luz reimagina o drama e os elementos, em Sleep Has Her House, a natureza num movimento constante de ascensão e queda.  Me fascina como por todo o primitivismo de elementos, o filme seja tão tomado pelo tremor, a natureza como algo deslumbrante, mas também terrível.

12) Good Time (Josh e Benny Safdie)
201712
O encontro entre o artificio do filme de golpe/perseguição com a observação naturalista dos filmes anteriores dos irmãos Safdie. Um domínio de ritmo e uma grande atuação do Robert Pattison, Um desses filmes que encontra um tom e o explota com concentração incomum. Repetindo o que eu disse sobre o Marjorie Prime, Sean Price Williams MVP do cinema americano atual.

11) The Sleep Curse (Herman Yau)
201711
Este Top 100 inclui os quatro filmes que Herman Yau realizou este ano, o que reforça a qualidade da sua produção, mas também acho justo mencionar a variedade dela indo do romance amargo de 77 Heartbreaks ao gore extremo dos últimos 15 minutos deste The Sleep Curse. Um filme de horror sobre os pecados do pai e o colaboracionismo durante a ocupação japonesa na segunda guerra. Duas ótimas atuações muito diferentes de Anthony Wong. Uma visita a uma vala pública tão assustadora quanto os momentos de gore e um tom de mal estar inquietante. E nos minutos finais Wong pega um cutelo e se existe uma verdade num filme chinês moderno é que Anthony Wong com um cutelo num filme de Herman Yau iguala cenas horríveis inesquecíveis.

10) Before We Vanish (Kiyoshi Kurosawa)
201710
Os últimos três filmes japoneses de Kiyoshi Kurosawa, Journey to the shore, Creepy e este Before We Vanish são todos filmes que propõe curar um casamento a partir de gêneros improváveis o filme de fantasma, o de serial killer e aqui o de invasão alienígena. Não a toa ponto de partida aqui sugere Invasores de Corpos mas o filme aos poucos se revela uma reimaginação do Starman do Carpenter. A mais destrutiva das ficções cientificas encontra a mais benigna e o filme se equilibra nestes momentos parte horror, parte sentimentais. Dentre estes três filmes de recasamento este é o mais tocante.

9) Hermia & Helena (Matías Piñero)
201709
Uma comedia de desraizamento de Piñero rodada após ele próprio ter se mudado de Buenos Aires para Nova York. A generosidade narrativa dele se amplia ainda mais neste terreno estranho, cada cena abre uma nova possibilidade e Shakespeare permanece aqui mais como pano de fundo. Cada retorno a Buenos Aires me abre um sorriso e aquela sequencia de clímax com o Dan Sallitt mais emotiva do que o cinema de Piñeiro costuma alcançar. E há o tempo todo esta questão de pertencer que anima o filme.

8) John Wick Parte 2 (Chad Stahelski)
201708
John Wick 2 poderia se chamar New York Drifter se metade dele não se passasse nas catacumbas de Roma. O filme parte da paixão do cinema de grande orçamento atual pela auto mitologia como desculpa para desnudar mais cenários, mais tipos, mais cores. No centro estão ali homens danados que passeiam por um círculo infernal de religião oriental, mas pela chave de uma grande paisagem pop art. A coreografia de ação que era o ponto forte do já ótimo primeiro filme segue criativa e ganha aqui mais variedades quanto Keanu Reeves executando seus rivais permite. É o maior musical da era do videogame.

7) Na Vertical (Alain Guiraudie)
201707
Sexo como o começo e o fim das coisas. O homem nasce e morre. A biologia domina a todos e a pulsão da morte anima o tesão que nos guia. Num mundo tão chato Deus abençoe Alain Guiraudie. E os céus! São tão maravilhosos os céus.

6) Do You Wonder Who Fired the Gun? (Travis Wilkerson)
201706
Um road movie investigativo sobre ser branco e seus privilégios. O ponto de partida é um assassinato cometido pelo bisavô do cineasta nos anos 40 que o filme consegue tanto ampliar para algo muito maior e se afunilar no desejo de Wilkerson de estabelecer uma identidade para homem negro que o bisavô matou.  Há no filme uma habilidade se mover do investigativo ao discursivo que enriquece ambos. Um filme muito incomodo sobretudo por cobrir um tema que permanece pouco explorado pelo cinema.

5) Malgré La Nuit (Philippe Grandrieux)
201705
Luz e sombra brigando enquanto corpos se conectam ou fracassam. Como sempre em Grandrieux a pulsão em direção a abstração e a necessidade de existir como drama é mediada pelo desejo. Ele nunca foi muito habilidoso com narrativa e há mais dela aqui do que em qualquer um das suas ficções anteriores, mas ele pinta com sentimentos e aqui há uma paleta de emoções ainda maiores a sua disposição. A forma com que o filme permite com que romanticismo tóxico encontre a pornografia mais vagabunda é mais emocionalmente destruidora do que duo masoquismo/miserabilismo que o texto pode sugerir, mais para Carax do que para os modos mais habituais de cinema extremo europeu. Treme-se diante de um desejo sem limites, de uma comodificar por completa dos sentimentos, e reconhece-se como o cinema e a ficção, incluindo esta aqui, são partes deste processo. Cria-se mundos para lembrar, projetar, e se possível, resistir.

4) Shin Godzilla (Hideaki Anno co-direção: Shinji Higuchi)
201704
O Estado contra a natureza e sua inevitabilidade. Uma comedia burocrática de erros que vai aos poucos dando lugar a uma afirmação do espirito coletivo japonês. O monstro recuperado no seu aspecto divino. Pela primeira vez no cinema de alto orçamento moderno estas cenas em que concreto das grandes cidades é reduzido a pó parece tomada de um sentimento de perda humano. Ninguém nunca diz as palavras Fukushima, mais o espectro do desastre e do sentimento de perda nacional pairam sobre todo o filme.

3) Na Praia à Noite Sozinha (Hong Sang-soo)
201703
Tudo que disse lá em cima sobre O Dia Depois vale ainda mais para este Na Praia a Noite Sozinha. Com a diferença de que aqui a personagem de Kim Min-hee, uma atriz se recuperando de um escândalo coberto em peso pela mídia sul coreana, transforma nosso único distanciamento narrativo a quantidade de informação extra filme que trazemos conosco. Estão ali os dois modos de representação favoritos de Hong, uma atenção obsessiva aos mínimos detalhes das interações entre seus personagens e a fabula ilustrativa no qual as perambulações deles são organizadas. Aqui temos a atriz e seu desejo de retornar ao mundo após o trauma e seu destino inevitável na praia a noite sozinha. É um filme que sugere o que acontece depois que os outros filmes de Hong terminam.

2) Ex Libris: New York Public Library (Frederick Wiseman)
201702
Uma proposição: a razão pela qual Frederick Wiseman é o cineasta mais essencial dos últimos trinta anos é porque ele é o único que reconhece que a reunião de orçamento é a base estrutural da sociedade ocidental neste período. Sobre Ex-Libris, um dos seus melhores filmes, completa-se o movimento dos seus longas recentes (At Berkeley, National Gallery, In Jackson Heights) de mais de que um olhar sobre instituições mover seu foco para a ideia de civilização, de tentar preservar um olhar civilizatório e como este encaixa na comunidade.

1) O Amante do Dia (Philippe Garrel)
201701
Do amor da câmera sobre os rostos, do prazer de como a luz ilumina os atores. Muitos filmes destrutivos nesta lista então vamos fechar com um filme de amor. Faz tempo que Garrel não realiza um filme tão intenso e de tamanha entrega nestas relações.

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3 Respostas para “Meus Favoritos de 2017

  1. Superestimados (dos 50 primeiros)
    Good Time (Josh e Benny Safdie)
    The Edge of Seventeen (Kelly Fremon Craig)
    John Wick Parte 2 (Chad Stahelski)
    I Am Not Your Negro (Raoul Peck)

    Superestimados das menções:
    O Nó do Diabo (Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi)
    Okja (Bong Joon-ho)
    Resident Evil: The Final Chapter (Paul W.S. Anderson)
    Billy Lynn’s Long Halftime Walk (Ang Lee)
    Baby Driver (Edgar Wright)

    Subestimados
    A Quiet Passion (Terence Davies)
    Arábia (Affonso Uchoa e João Dumans)
    Corra!/Get Out (Jordan Peele)

  2. ‘Blade Runner 2049’ e o novo Star Wars nem mesmo nas menções honrosas?

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