Arquivo do mês: julho 2013

Passion (Brian De Palma,2013)

Passion

O primeiro plano é de um laptop da Apple anunciando que estamos no terreno das imagens mercantilizadas e dispensáveis. Ainda mais que na maioria dos De Palmas é um filme de imagens desgastadas (até a trilha de Donnagio soa cansada) que se contrapõe a série de manequins prontos a aceitar seus papeis ensaiados (que Rachel McAdams essencialmente sugira sua personagem de Meninas Malvadas se fingindo adulta só reforça esta impressão), todas as relações desaguam na mesma farsa seja corporativo seja sexual.  É uma co-produção europeia tão apátrida quanto Femme Fatale, mas a sua falta de raiz revela aqui uma melancolia, o filme se agarra as suas locações em Berlim como se buscasse uma autenticidade que lhe ilude, como se o cinema lhe deixasse para trás.  É duro ser o mestre das imagens dispensáveis quando estas se tornam tão saturadas e casuais que se perdem em meio ao trivial. A segunda metade é menos um compêndio de greatest hits do diretor, do que o pesadelo do mesmo. Um filme cuja força emerge menos da sua triste familiaridade, mas da forma como em seus melhores momentos DePalma parece disposto a abraçar o último Lang e reduzir tudo a uma série de composições geométricas, todo a opulência do seu maneirismo reduzido a depuração dos filmes finais de mestre.

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The Act of Killing (Joshua Oppenheimer,2012)

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The Act of Killing tem tema dos mais espinhosos: o assassinato de mais de um milhão de “comunistas” na Indonésia em meados dos anos 60 por milícias oficiais que cinquenta anos depois permanecem não só não punidos, mas celebrados e em posição de poder o suficiente para que uma visita rápida aos créditos do filme no IMDb revelarem que todos os indonésios que trabalharam nele serem creditados como anônimo. A forma que o diretor Joshua Oppenheimer encontra para confronta-lo é convidar alguns dos carrascos para que colaborem com seu filme e reencenem para a sua câmera alguns destes assassinatos. O resultado é um filme como nenhum outro não só porque as encenações propostas pelos protagonistas são frequentemente acompanhadas de referencias cinéfilas que acrescentam um elemento extra de absurdo a suas imagens, mas porque ele produz um canal direto ao genocídio sem muitos equivalentes (é algo como se Jean Rouch pudesse produzir um filme em parceria com os bandeirantes portugueses). O resultado é um filme sobre a violência da linguagem, linguagem da história, mas também a linguagem do cinema, e as formas como ambas terminam cumplices do discurso oficial não importa o quão demente este seja. A ideia central de que culpa sobre assassinato em massa pode existir, mas no conceito do genocídio indonésio que ele retrata, mas não expressa porque o discurso oficial reprimiu-a, negou-lhe  qualquer articulação genuína. Poderia se argumentar que o filme nos permite uma escapatória ao racionalizar o material como apenas um país de terceiro mundo se perdendo na própria psicose, mas Oppenheimer encontra no seu cenário de banalidade do mal, um material realmente perturbador sobre como a linguagem retrata a história (e assassinato legalizado, em particular) e o lugar do cinema – e mídia em geral – como intermediários dele que é ao mesmo tempo muito especifico e expansivo de maneira aterradora.

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Rio Lobo

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Em homenagem a retrospectiva integral de Howard Hawks no CSSP, republico aqui uma versão ligeiramente revisada do meu artigo sobre Rio Lobo que saiu na Contracampo em 2004. Da meia dúzia de textos que escrevi sobre Hawks ao longo dos anos este é certamente o mais ambicioso (e longo). Se memória não falha quando escrevi a intenção era usar o lançamento de Rio Lobo em DVD para defender toda a fase     final de Hawks da acusação do Robin Wood de que ela seria decadentista.

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