Arquivo do mês: novembro 2010

Kershner

Recebo a notícia de que Irvin Kershner faleceu. Todos os obituários inevitavelmente se concentraram em ele ter dirigido O Imperio Contra Ataca, mas Kershner fez varios filmes muito interessantes entre as décadas de 60 e 70.  O meu favorito é provavelmente Loving sobre o qual eu já escrevi algumas vezes aqui no blog e na Paisà. Aproveito para reproduzir o texto publicado na Paisà:

Em panoramas do cinema americano dos anos 70 é improvável que encontremos menções a O Amor é Tudo. Não se trata de um trabalho de um autor de peso (Kershner ainda é conhecido quase exclusivamente como o sujeito que dirigiu O Império Contra Ataca), e ao contrario da imensa maioria dos filmes mais famosos do período, não parece desesperado em se vender como um grande filme, nem possui os arrombos de intensidade de um Cassavetes, ou o gosto pelo inesperado de um Hellman ou do primeiro Rafelson. Parte do que valorizo nele nasce justamente daí, de ser um grande filme que chega lá por conta de um olhar atencioso, e sobretudo muita convicção no seu material.

Não gosto do título nacional, que tem um valor muito definitivo, o original (Loving) sugere um processo, um trabalho pesado, que me parece bem mais em sintonia com o filme. O título original também reflete a maneira como ele parece ter sido feito. Este é um daqueles filmes em que os envolvidos, o cineasta Kershner, o roteirista Don Devlin, o fotógrafo Gordon Willis e o astro George Segal, parecem ter percebido que há uma força muito grande no material e se lançam nele de maneira laboriosa e cuidadosa. É um filme bem simples: alguns poucos dias na vida de um ilustrador e seus problemas com a esposa, o trabalho, a amante, a garrafa.

O que torna Loving um filme essencial é a maneira como ele é exato na descrição dos sentimentos do seu personagem central. A frustração raramente é representada com tamanha precisão. Kershner e Segal delineiam à perfeição a relação que muitos que trabalham em áreas marginalmente ligadas a arte tem com seus empregos (no caso, um ilustrador de publicidade). Segal é ótimo em sugerir um estado constante de pânico moral e a parceria entre Kershner e Willis mapeia toda uma geografia sentimental (há uma seqüência perfeita em que Segal atende um telefone sentado no topo da escada e a distancia do seu corpo para a câmera sugere por um instante toda a relação daquele homem com seu mundo).

Para um filme quase desprovido de trama, O Amor é Tudo é surpreedentemente cheio de acontecimentos. Temos impressão que é mesmo trabalhoso manter a vida deste homem em pleno funcionamento, que ele esta ficando descuidado, e logo algo vai sair do lugar. Há uma grande inevitabilidade presente em todo o filme; mesmo assim quando o final embaraçoso surge, ele é doloroso, em especial seu corte final abrupto.

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Mostra SP/Festival RJ – Resumo de textos

Aproveitando para deixar num post só links para todos os meus textos dos dois eventos.

Almas Silenciosas (Alexei Fedorchenko)
Aurora (Cristi Puiu) e O Caçador (Rafi Pitts)
A Autobiografia de Nicolae Ceausescu (Andrei Ujica) e Carlos (Olivier Assayas)
A Cidade Abaixo (Christoph Hochhäusler)
Cleveland Versus Wall Street (Jean-Stephane Bron)
Curitiba Zero Grau (Eloi Pires Ferreira)
O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira)
História Mundana (Anocha Suwichakompong) e Jean Gentil (Laura Amelia Guzman e Israel Cardenas)
Homens e Deuses (Xavier Beauvois)
Kaboom (Gregg Araki)
Machete (Robert Rodriguez e Ethan Maniquis)
Malu de Bicicleta (Flavio Tambellini)
Mistérios de Lisboa (Raoul Ruiz)
Uma Mulher, uma Arma e uma Loja de Macarrão (Zhang Yimou)
A Rede Social (David Fincher)
Símbolo (Hitoshi Matsumoto)
Striptease Familiar (Lluis Miñarro)
Trampolim do Forte (João Rodrigo Mattos)
A Vala (Wang Bing)
Você Todos são Capitães (Olivier Laxe)

Pílulas do Festival do Rio: Amigo (John Sayles), Buraco Negro (Gilles Marchand), O Senhor do Labirinto (Geraldo Motta), O Sequestro de um Héroi (Lucas Belvaux), A Vida Durante a Guerra (Todd Solondz)
Pílulas da Mostra de São Paulo: A Antropóloga (Zeca Pires), A Fábrica de Tigres (Woo Ming Jin), Gol a Gol (Adriano Esturilho e Fabio Allon), Howl (Rob Epstein e Jeffrey Friedman), Lily Sometimes (Fabienne Berthaud), O Outro Mundo (Gilles Marchand), O Senhor do Labirinto (Geraldo Motta)

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Detective Dee and the Mistery of the Phantom Flame (Tsui Hark,10)

27 anos após Zu Warriors, Tsui Hark segue filmando espetáculos como poucos. Neste que é o seu melhor filme em um década pela primeira vez ele parece fazer uso completo dos recursos sem fim da indústria cinematográfica chinesa e poucas coisas em cinema são melhores que Tsui deixando sua imaginação fluir. Parte Wuxia, parte mistério histórico, parte fabula política, Detective Dee tem de tudo de heroínas mutantes e veados falantes a coreografia sublime de Sammo Hung fotografada com uma inteligência que faria o charlatão oficial do cinema chinês corar. Tsui Hark segue a minha idéia de bom cinema popular.

2 Comentários

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Mostra

Muito trabalho na Cinética e acabei sem tempo de atualizar durante a Mostra, segue então as cotações com comentários rápidos sobre todos os filmes vistos pela primeira vez.

Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz,10) – *****

Na Cinética.

Cleveland Vs Wall Street (Jean-Stephane Bron,10) – ***

Na Cinética.

O Solteiro (Hao Jie,10) – *

O eletrobrega chinês da trilha sonora é a única coisa que eu me lembro deste filme é a única coisa que eu me lembro dele. Diz muito sobre o filme.

O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira,10) – *****

Na Cinética.

Air Doll (Hirokazu Kore Eda,09) – 0

Nunca doses tão grandes doçura a fórceps foram empurradas ao espectadores. Costuma achar Kor Eda extremamente irregular, mas neste ele errou a mão feio.

Símbolo (Hitoshi Matsumoto,09) – ****

Na Cinética.

A Última Estrada da Praia (Fabiano de Souza,10) – ***

Belo filme com algumas cenas muito inspiradas, mas acho engraçado como ele expõe bem uma deficiência do jovem cinema brasileira em lidar com dramaturgia. Os picos dramáticos são invariavelmente as piores e mais mal resolvidas seqüências do filme. Mas não quero me concentrar nas partes frágeis porque o filme é muito bom e não fosse o Houve uma Vez Dois Verões daria para dizer que é o melhor filme gaucho desde Deu Pra Ti Anos 70.

As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino,10) – *****

É um conceito extremamente básico, mas Frammartino extrai dele muito mais do que se esperaria, incluindo uma notável leveza. O cachorro é o melhor ator da Mostra e o melhor ator não-humano desde os patos do Kiarostami.

Sentimento de Culpa (Nicole Holofcner,10) – **

Clássico indie americano que levanta as perguntas porque eu estou vendo um filme sobre estas pessoas e porque alguém achou que ele era uma boa idéia?

A Cidade Abaixo (Christoph Hochhausler,10) – ****

Na Cinética.

Não Me Deixe Jamais (Mark Romanek,10) – *

A Ilha refilmado por James Ivory na verdade é conceito interessante, mas não nesta versão. Alguns bons atores, mas o Romanek nulifica tudo e perde completamente o ponto do texto.

Agreste (Paula Gaitan,10) – ***

Marcelia Cartaxo e a paisagem nordestina. Desequilibrado, mas com belos momentos.

Historia Mundana (Anocha Suwichakompong,10) – ***

Na Cinética.

Poesia (Lee Chang Dong,10) – ***

Um típico filme de Lee Chang Dong: boas idéias, ótimos atores, execução desajeitada.

Bróder (Jefferson De,10) – ***

Bem melhor que os curtas do De. Tudo que não tem relação com a trama plicial é muito bom.

O Último Romance de Balzac (Geraldo Sarno,10) – ***

O mistério da criação artística neste belo doc exploit espírita.

Lily Sometimes (Fabienne Berthaud,10) – **

Na Cinética.

Rosa Morena (Carlos Oliveira,10) – **

Bons atores, filme frágil.

Filme do Desassossego (João Botelho,10) – 0

O inferno.

Gol a Gol (Fabio Allon e Adriano Esturilho,10) – 0

Na Cinética.

Caterpillar (Koji Wakamatsu,10) – ****

Espólios de guerra segundo Wakamatsu que como sempre vai ao fundo do problema por belos caminhos tortos.

Vips (Toniko Melo,10) – **

Filme B com bons atores.

Avenida Brasilia Formosa (Gabriel Mascaro,10) – ***

Entre a observação e a auto-ficção.

Striptease Familiar (Lluis Miñarro,09) – ***

Na Cinética.

A Espada e a Rosa (João Nicolau,10) – ****

Sobre ser pirata. Desequilibrado, gordo, mas memorável.

Um Dia na Vida (Eduardo Coutinho,10) – ****

Um grande evento. Talvez o maior feito de Coutinho é pegar uma série de imagens de segunda mão sem nenhum interesse cinematográfico e construir o único filme da Mostra que realmente só faz sentido visto na tela grande.

Jean Gentil (Laura Amelia Guzman/Israel Cardenas,10) – ***

Na Cinética.

Ponto Org (Patricia Moran,10) – W/O

Fazia 5 anos que eu não optava por abandonar uma sessão porque o filme era insuportável.

A Fabrica de Tigres (Woo Ming Jin,10) – *

Na Cinética.

Almas Silenciosas (Aleksei Fedorchenko,10) – **

Na Cinética.

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (Woody Allen,10) – *

Allen alcança a senilidade. Não basta a preguiça com filme e escreve agora faz filmes francamente estúpidos também.

O Ultraje (Takeshi Kitano,10) – ****

Kitano retomando de forma furiosa o filme de gangster. Deveria se chamar Yakuza Slasher.

Minha Felicidade (Sergei Losnitza,10) – **

Filme de tese no que o termo de pior apesar de impecavelmente bem filmado. A primeira metade é forte, a segunda se reitera até perder o gás.

Venus Negro (Abedelatif Kechiche,10) – ***

Verdadeiro filme de terror do ano. Tortura física mesmo que faz muito bom uso das experiências com tempo de O Segredo do Grão.

O Mito da Liberdade (David Robert Mitchell,10) – ***

Muito bem observado filme adolescente.

Vocês Todos são Capitães (Oliver Laxe,10) – ****

Na Cinética.

O Caçador (Rafi Pitts,10) – ***

Na Cinética.

A Antropóloga (Zeca Pires,10) – 0

Na Cinética.

Aurora (Cristi Puiu,10) – ****

Na Cinética.

Um Homem que Grita (Mahamat-Salah Haroun,10) – ***

Quando a desdramatização deságua no melodrama.

A Rede Social (David Fincher,10) – ****

Na Cinética.

A Vala (Wang Bing,10) – ****

Na Cinética.

Howl (Rob Epstein/Jeffrey Friedman,10) – **

Na Cinética.

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