Meus Filmes Favoritos de 2025

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Outro dia, eu estava conversando com uma amiga e ela disse algo como “não existem anos ruins, só você escolhendo os filmes errados” e, embora eu não tenha certeza se concordo totalmente com ela, acho que isso reflete uma certa verdade sobre os balanços de fim de ano: todos eles são mapas traçados a partir do que o crítico/cinéfilo selecionou para si mesmo.

O meu tem sua parcela de gostos pessoais e idiossincrasias: mais filmes de ação ou policiais do que a maioria, filmes brasileiros que não são O Agente Secreto (e O Agente Secreto), muito mais filmes asiáticos do que a maioria das listas inclui, vários deles que não são exibidos em grandes festivais ocidentais. Gosto de usar favoritos para essas listas em vez do habitual “melhores”, porque me parece mais justo em relação aos meus viéses e porque acho que “melhores” é maçante, e prefiro me contentar com uma lista de filmes que despertaram minha imaginação de uma forma ou de outra. Então, chamemos de 100 filmes que considero interessante o suficiente para ponderar e compartilhar.

Todos os anos, por volta da época do Mostra de São Paulo, no final de outubro, eu me questiono sobre fazer outra lista e todos os anos eu a faço, em parte porque adoro compartilhar filmes, em parte porque é útil para mim tanto refletir sobre o ano quanto fazer uma prospecção eclética do ano em filmes.

Nesta época do ano, sempre ocorrem dois impulsos simultâneos: os que reclamam que essas listas são muito aborrecidas e homogêneas e os que parecem irritados por elas não serem ainda mais assim. Tenho simpatia pela primeira posição, a centralidade dos festivais de cinema e o peso do dinheiro no marketing cinematográfico (eles são a mesma coisa quando você para para pensar) desempenham um papel importante nisso e, hoje, a comunidade cinematográfica parece trocar opiniões em espaços tão restritos que acabam sendo muitas vezes repetitivas. Certamente há muito menos diferenças entre os gostos da Film Comment e da Cahiers du Cinema do que costumava haver. Algumas das razões para isso podem ser positivas, a crescente internacionalização da maioria das grandes revistas de cinema tem muitas vantagens, mas certamente leva a resultados muitas vezes mais insossos e menos excitantes, ou pelo menos as partes mais empolgantes já foram discutidas por tanto tempo que, quando chegam a essas listas, parecem mais do mesmo.

Não acho que a lista a seguir seja uma solução para essa situação, e definitivamente não foi organizada como uma contra-narrativa. Quatro dos dez filmes da minha lista dos dez melhores estavam na lista dos 50 melhores da revista Sight and Sound (confissão: sou um dos votantes, por isso partilho da culpa se acharem aquela lista demasiado enfadonha) e os dois filmes de grande orçamento do ano que os críticos gostam (Uma Batalha Após a Outra e Pecadores) estão ambos em algum lugar da lista, tal como os vencedores de Cannes e Veneza. Espero que seja um pouco menos centrada em festivais do que a maioria e que continue a ser populista no espírito, se não necessariamente no sentido do grande mercado internacional.

Alguns dos filmes importantes do ano não estão aqui porque não me dizem grande coisa, e outros porque prefiro um filme obscuro sobre viagem no tempo e recasamento japones a eles . É claro que há outros que ainda não tive oportunidade de ver. Não diria que 2025 foi um mau ano para o cinema, pois nunca o são se procurarmos bem, mas acho que não teve nenhum filme objetivamente excelente como Feche os Olhos ou The Shrouds. Meus dois primeiros lugares, que são 1a e 1b desde que os vi em outubro, estão próximos dos filmes que lideraram minha lista durante os anos afetados pela pandemia, mas ainda assim é uma façanha e sei que vou levá-los comigo por anos.  Tenho a sensação de que houve mais filmes de autores importantes e muito discutidos em 2025 do que nos últimos anos, mas que eles também foram, em uma análise justa, um pouco mais seguros e menos idiossincráticos do que nunca, uma troca preocupante de se observar. Listas como esta são, entre muitas outras coisas, um lugar útil para refletir sobre desenvolvimentos como este.

Como sempre, meus critérios são filmes que assisti pela primeira vez este ano, com mais de 45 minutos de duração e exibidos publicamente pela primeira vez entre 2023 e 2025. A ordem não importa tanto, gosto certamente do 21o mais que do 41o, mas não sei se eu o prefiro mesmo ao 25o.

Meus curtas favoritos vistos este ano são A Ladder, de Scott Barley, e Scenários, de Jean-Luc Godard, ambos exercícios fascinantes de miniatura na arte de contar histórias, prontos para te encantar com o que vem a seguir.

Alguns dos meus livros favoritos sobre cinema que li pela primeira vez, porque não: Scene (Abel Ferrara), Sick and Dirty (Michael Koresky), Everything is Now (J. Hoberman), Derivative Media (Andrew DeWaard), o artigo do Francis Vogner para Critica e Curadoria de Cinema (org Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues) um par de livros antigos que li recentemente The Silent Clowns (Walter Kerr) e Chaplin Last of the Clowns (Parker Tyler).

100) The Movie Emperor (Ning Hao)

Um dos muitos filmes que olham para o próprio fazer cinematográfico na lista deste ano, se não um dos mais sérios. O astro Andy Lau faz um astro que resolve fazer um filme de arte social para reforçar sua relevância e termina alienando tudo e todos. A sátira não é a mais ácida, mas existe uma amargura muito expressiva e sempre é um prazer ver Andy Lau ser uma estrela de cinema, não temos tantas assim.

99) Missing Child Videotape (Ryota Kondo)

Um exercício inspirado no terror japonês do início dos anos 2000. Formalmente preciso, e sabe como evocar uma imagem inquietante e horrível. Cinema acadêmico com algum peso e consistência é certamente preferível a algumas das versões mais aprovadas pelos curadores do mesmo tipo.

98) 1st Kiss (Ayuko Tsukahara)

O começo e o fim de uma relação através do arcabouço dramático que a ficção popular permite. Uma dessas coisas que o cinema japonês mantém muito vivo com seu gosto pelo melodrama e fantasia, e a certeza de que pode levar as emoções proporcionadas por ele a sério.

97) Zero (Jean Luc Herbulot)

O cineasta congolês Herbulot chamou a atenção há alguns anos com seu muito bom híbrido de terror e ação, Saloum; seu filme seguinte quase passou despercebido, mas não é tão diferente, como um thriller com elementos de horror e uma grande tensão colonial como pano de fundo. Premissa engenhosa de viagem de morte, filmado de forma vigorosa e direta, se talvez um pouco punitiva demais.

96) Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo (Fábio Rogério, Wesley Pereira de Castro)

Quando dois olhares se encontram na presença e na montagem. Filme diário do cotidiano e impressões do diretor Pereira de Castro, que está sempre entre um mergulho embriagado na primeira pessoa e o esforço de existir para além dele.

95) Satranic Panic (Alice Maio Mackay)

A cineasta de horror de 21 anos mais produtiva do mundo continua a fazer boas variações sobre conceitos conhecidos do gênero como forma de lidar com diferentes aspectos da vida trans atual. Como de costume, o elenco é vivaz, segue bem fundamentado no dia a dia das suas personagens, e muita energia, além de ser um dos dois filmes de horror queer desta lista que culminam em um número musical muito legal, e eu tenho uma queda por isso.

94) Loucos Por Cinema!/Spectateurs ! (Arnaud Desplechin)

Quando mais o tempo passa, mais Desplechin troca Bergman por Truffaut e fica menos relevante no meio do cinema contemporâneo. Este ensaio sobre cinefilia é mais excêntrico do que profundo, mas fascinante quanto mais abraça a perversidade dessa paixão.

93) A Queda do Céu (Eryk Rocha, Gabriela Carneiro da Cunha)

Eryk Rocha co-dirigiu este documentário sobre os Yanomami e sua luta contra as forças externas com a atriz Gabriela Carneiro da Cunha, e, de certa forma, isso permite que uma forte preocupação social equilibre seus interesses mais estéticos. Como a maioria dos documentários de Rocha, os personagens centrais são convidados a tomar parte de um quadro visual cuidadosamente elaborado que no caso se encaixa bem na conexão dos Yanomami com sua terra.

92) Bastion 36 (Olivier Marchal)

Um filme original da Netflix que quase não existiu, mas como sempre gosto dos filmes do ex-policial Marchal sobre os excessos dos agentes de lei e ordem franceses. Ele conhece o meio com intimidade e sabe como detalhá-lo ao mesmo tempo que permanece muito próximo dele. Este parece uma versão mais conservadora de um thriller setentista do Yves Boisset.

90) A Semente do Mal (Gabriel Abrantes) e Os Estranhos: Capitulo 2/The Strangers: Chapter 2 (Renny Harlin)

Dois thrillers de horror muito sólidos, com tramas básicos e muito reconhecíveis. Abrantes (do queridinho dos festivais Diamantino) diverte-se muito com seus jogos de poder familiar e referências góticas antigas, enquanto o habilidoso, e sempre superficial, Harlin preenche o tempo entre o que foi um filme ruim e o que eu presumo que será outro, encenando uma perseguição slasher de 90 minutos que é tão minimalista quanto empolgante. Nenhum dos filmes é para quem se preocupa com o enredo ou a psicologia, mas se você gosta de lúdismo delicioso operando num vácuo quase total, esses filmes tem bastante a oferecer.

89) L’Aventura (Sophie Letourneur)

O filme anterior de Letourneur se chamava Viagem à Itália, este L’Aventura, e ambos elaboram o mesmo projeto de colocar seus personagens em movimento dentro desta terra estrangeira. Como sempre, ela é uma ótima diretora de atores.

88) Explode São Paulo, Gil (Maria Clara Escobar)

Este é um dos filmes brasileiros da lista cuja cineasta conheço pessoalmente há anos, e, dado que se trata de um filme em primeira pessoa sobre uma cantora lésbica que trabalhou para ela, parece-me digno de menção. É um cabo de força de poder em que Escobar permite que Gil protagonize a ficção que ela merece, ao mesmo tempo que garante que ela também seja uma personagem no filme que a realizadora deseja. Uma relação complexa entre múltiplos desejos e poder que foi filmada ao longo de uma década e oferece um olhar fascinante em uma espécie de retrato cinematográfico de baixo orçamento que foi popular nos anos Dilma, tornando-se seu próprio reflexo.

86) Almas Mortas/Dead Souls (Alex Cox) e Nas Terras Perdidas/In the Lost Lands (Paul W. S. Anderson)

Dois neowesterns de cineastas de personalidade forte e excêntrica. O filme de Cox, feito sem nenhuma grana, e o de Anderson, com bastante, mas ambos de grande fascínio sobre como levar uma imagem cinematográfica de iconografia reconhecível e superfície grosseira para caminhos próprios e quase experimentais.

85) Second Life (Chris Huo)

O diretor Huo é um dos cineastas mais prolíficos da cena DTV chinesa e já apareceu nas minhas listas anteriormente com seus esforços de remeter aos filmes de ação de Hong Kong dos anos 80. Este é o seu trabalho mais excêntrico, combinando comédia, drama familiar e excelente coreografia (o clímax é especialmente inspirado).  E é um ótimo veículo para a veterana atriz de Hong Kong Yuen Qiu, ex-colega de classe de Jackie Chan e Sammo Hung, que já trabalhou com meio mundo, de Lau Kar Leung a Stephen Chow, e raramente recebe um papel principal tão bom assim.

84) The Volunteers: The Battle of Life and Death (Chen Kaige)

Parte dois do épico patriótico de Chen Kaige sobre os esforços dos soldados chineses na Guerra da Coreia.  É cinemão oficial numa escala rara de se ver hoje, que faz muito bom uso dos dotes decorativos do cineasta. Cada imagem cuidadosamente encenada.

83) Thieves Highway (Jesse V. Johnson)

Outro neo-western, este do sempre cuidadoso Jesse V. Johnson. Não é um dos seus filmes mais ambiciosos, mas segue encontrando boas analogias atuais para formas antigas. É um filme modesto sobre ladrões de gado e o “policial de vacas” em seu encalço, com todos um pouco mais exaustos e desesperados do que em filmes semelhantes. Thieves Highway poderia passar por um western menor de Randolph Scott dos anos 50, e essa é uma forma de arte que vale a pena preservar.

82) Mudos testigos (Luis Ospina, Jerónimo Atehortúa Arteaga)

O grande cineasta colombiano Luis Ospina faleceu em 2019 quando trabalhava nesse filme que Jerónimo Atehortúa Arteaga finalizou e é ele próprio uma retomada das imagens do cinema silencioso local redimensionadas em toda sua força numa nova costura narrativa.

81) Hunt the Wicked (Chris Huo)

Outra diversão de Chris Huo. As cenas de abertura e encerramento são tão empolgantes e bem concebidas quanto esse tipo de filme de ação de baixo orçamento consegue ser.

80) Wake Up Dead Man (Rian Johnson)

Rian Johnson faz sempre o mesmo filme, explorando ao máximo sua habilidade de colocar as coisas em cena enquanto nos distrai com sua última lorota. No seu pior soar um pouco esperto demais, no seu melhor é um contador de causos de fluidez incomum no cinema americano atual. Este é o melhor dos filmes de detetive que fez com Daniel Craig, provavelmente porque a estrela é Josh O’Connor como o padre que desejava o crime que não cometeu e todo o foco em fé oferece ao filme algo para contrapor todos os jogos de cena.

79) De Volta Para Casa (Tsai Ming Liang)

Mais um dos pequenos filmes observacionais que Tsai vem realizando desde sua “aposentadoria”. A cena com o cachorro no início é maravilhosa, e todo o resto também é legal.

78) Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria/If I Had Legs I’d Kick You (Mary Bronstein)

A estreia de Bronstein, Yeast (2008), fazia bom uso da estética mumblecore para mover seu ambiente habitual, bem masculino, e aproximar-se dos elementos mais tóxicos das amizades femininas; este seu segundo longa parte do intenso semirrealismo dos Safdies (o seu marido Ronald é coroterista e montador deles de longa data) para criar um thriller de arte sobre como a maternidade pode ser terrível. Tenho certeza de que será ainda melhor quando todos os seus tiques forem um vestígio de uma época passada de cinema independente americano. Ajuda o que Rose Byrne esteja ótima no filme.

77) More Beautiful (Karoline Herfurth)

Outro filme sobre ansiedades femininas, apesar de a forma aqui ser de uma comédia populista. As cenas com o elenco jovem são especialmente boas.

76) Super Happy Forever (Kohei Igarashi)

Um filme japonês do Hong Sang-soo sobre encontrar e perder pessoas. Imagens casuais, contrastando com uma estrutura narrativa mais rígida.

75) Operation Hadal (Dante Lam)

Excelente propaganda de recrutamento do exército chinês com excessos de ação e melodrama elevados ao máximo. Um filme de Jerry Bruckheimer dos anos 90 sem as partes ruins. Sai dele pronto para servir o Xi. É preciso admirar a sem vergonhice da indústria chinesa.

74) Kontinental ‘25 (Radu Jude)

Os filmes de conceito do Radu Jude nem sempre me convencem: o seu Drácula me diz nada, por exemplo, mas este “remake” de Europa 51 sobre o fim do pacto da social-democracia europeia tem a dose certa de intimidade e observação para realmente dar força à ideia.

73) Evidence (Lee Anne Schimitt)

Filme ensaio sobre o impacto de think tanks conservadores americanos bem argumentado, mas sobretudo pronto para encontrar como escoar seus argumentos por meio de uma série de processos materiais e cênicos.

72) Dream Team (Lev Kalman, Whitney Horn)

Um pastiche muito bom que tira ótimo proveito da ideia de que os filmes softcore sugerem um filme convencional sem se comprometerem com ela, o que os torna superficies ideais para este tipo de experimento sem orçamento. Ótima atmosfera de descontração; todos os envolvidos provavelmente estão se divertindo mais do que quem está assistindo, o que, paradoxalmente, é parte do que torna o filme tão agradável.

71) Honey, Não!/Honey Don’t (Ethan Coen, Tricia Cooke)

Outro bom pastiche de casais criativos. Honey, Não! é mais sério e triste do que o exercício de gênero que foi vendido e tem bastante dificuldades de fluir narrativamente, mas como uma coleção de observações sobre um espaço urbano opressivo organizados a partir da presença de cena de Margaret Qualley, este filme é mais legal e interessante do que qualquer coisa que os Coen fizeram juntos na última década da parceria.

70) A Gilded Game (Herman Yau)

Um thriller financeiro dirigido por Herman Yau, bastante eficiente e, na maior parte do tempo, agradável. Um filme de gangsters sem tiroteios, mas com muitas pessoas más gritando em frente aos seus computadores. Todas as cenas com Andy Lau (que está lá para nos mostrar que nem todos os capitalistas são totalmente maus, porque só a China se preocupa com isso) são uma delícia, ainda mais se estivermos apenas acompanhando-o, sem enredo.

69) Coração de Lutador/The Smashing Machine (Benny Safdie)

Um filme injustiçado, provavelmente porque é bem desengonçado como drama, mas como um experimento em jogar com o gosto dos Safdies para detalhes documentais como forma de representar o masoquismo esportivo e as múltiplas imagens e desejos relacionados a eles, este é um filme bem mais rico do que recebeu crédito.

67) Megadoc (Mike Figgs) e Stuntman (Albert Leung, Herbert Leung)

Dois filmes que retratam os limites das formas pessoais ultrapassadas de filmar e como elas entram em conflito com o cinema contemporâneo. O documentário de Figgis sobre o Megalopolis, de Coppola, com seu acesso bem abragente, é um olhar fascinante sobre os jogos de poder envolvidos em um projeto desse tipo, mesmo que seu foco nas filmagens evite cuidadosamente qualquer polêmica em torno dele. A estreia dos Leungs é um melodrama sobre um coreógrafo veterano de Hong Kong que se recusa a se adaptar às atuais preocupações com segurança, é um olhar muito sincero sobre o que resta da indústria cinematográfica da cidade, um tema que, como todos sabem, é muito significativo para mim.

66) Animais Perigosos/Dangerous Animals (Sean Byrne)

Começar agora uma série de filmes de gênero bem desavergonhados. Este deve ser o melhor filme de tubarão desde o Águas Perigosas de 2016, apenas uma boa ideia (reimaginar o clássico Peeping Tom com um psicopata cujo tesão é filmar mulheres comidas por tubarões) muito bem executada. A imagem de Jai Courtney se deliciando ao ver os vídeos que gravou é uma das grandes cenas perturbadoras do ano e a heroína castrando-o ao jogar a câmera na água é uma das mais engraçadas.

65) O Bom Bandido/Roofman (Derek Cianfrance)

Assim como Coração de Lutador, O Bom Bandido é um experimento sobre como usar uma história real. Neste caso, o quão charmoso um astro de cinema (Channing Tatum) precisa ser para fazer com que uma comédia de erros deprimente sobre um fudido que segue tomando decisões erradas seja bem aceita. O público não compareceu, mas é um crédito ao cineasta Cianfrance, a Tatum e à coestrela Kirsten Dunst o quão bem o filme funciona.

64) Relay (David Mackenzie)

Um formalista vazio, fazendo o possível para recriar um sucesso de videolocadora de 1996.

63) Pecadores/Sinners (Ryan Coogler)

Grande desconjuntado e incoerente, mas um prazer de acompanhar pelas suas mais de duas horas. O grande filme populista do ano, candidato a ser subestimado/superestimado de acordo com as preferências de cada um, permita-me ser centrista e colocá-lo no miolo da minha. Melhor em como usa do que como encena horror, mas as presenças de cena e música são ótimas e acho o epílogo bem tocante.

62) Friendship (Andrew DeYoung)

Comédia constrangedora muito boa sobre a ansiedade masculina. Todos fazem maravilhas ao reagir à atuação excessiva e bastante segura do astro Robinson.

61) Behind the Shadows (Jonathan Li, Chou Man-Yu)

Outro thriller voyeurístico, este vindo de Hong Kong e focado em casamento, e como atualizar algumas das partes mais melodramáticas dos filmes de Hitchcock.

60) Depois da Caçada/After the Hunt (Luca Guadagnino)

Sei que este filme é um saco de pancadas desde a sua estreia em Veneza, porque todos gostam de se sentir superiores em relação a filmes de prestígio que nasceram vencidos, mas eu me diverti horrores, e a maior parte da suposta relevancia é jogo de cena para uma deliciosa comédia de costumes sobre pessoas horríveis muito dedicadas às suas próprias formas de dissimulação social. Não sei se é um filme inteligente idiota ou um filme idiota inteligente, e suspeito que Guadagnino também não.

59) Pai Mãe Irmã Irmão/Father Mother Sister Brother (Jim Jamursch)

O melhor filme de Jamursch em 15 anos, uma coleção de contos que se ecoam, cujo maior mérito é como ele termina coeso.

58) O Mundo dos Mortos (Pedro Tavares)

Este filme é algo tão incomum no cinema brasileiro, com uma ambientação mítica e uma teatralidade sóbria que lembra artistas como Oliveira. O Mundo dos Mortos remete a uma tradição cinematográfica, mas sua distância em relação a ela é parte do que o torna cativante. Excelentes close-ups.

57) Life (Zeki Demirkubuz)

Demirkubuz continua sendo um mestre em dramas meticulosamente arquitetados.

56) Alappuzha Gymkhana (Khalid Rahman)

Filme esportivo fraterno sobre universitários indianos lutando boxe. Muito bom em delinear um ambiente e permitir que os sentimentos dos personagens ressoem nele.

55) Prisoner of War (Louis Mandylor)

Como outros já apontaram, uma versão DTV americana  do Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Oshima, então Scott Adkins está batendo em alguém a cada poucos minutos. Um de seus melhores veículos recentes, e funciona bem como um filme de ação e prisioneiro de guerra.

54) A Arvore do Conhecimento (Eugene Green)

Um encontro entre o encantamento das imagens de Green e o humor da produtora portuguesa O Som e a Fúria.

53) Ick (Joseph Kahn)

Um filme de monstros sobre paternidade, tensão geracional e, suponho, a pandemia, que se mantém sempre envolvente graças à energia de mau gosto do diretor Kahn e à ótima atuação principal de Brandon Routh.

52) Queens of the Dead (Tina Romero)

Tina Romero é filha de George, algo que o filme está pronto a constantemente lembrar, e Queens of the Dead é uma versão queer do filme de zumbis apocalípticos que ele fazia. Ótimas personagens e elenco, clima muito agradável, uma delícia que existe bem na contramão do atual cinema de horror.

51) Fuga Fatal/She Rides Shotgun (Nick Rowland)

Filme policial sobre pai e filha em fuga que mantém o ritmo propulsivo e conta com ótimas atuações dos protagonistas. Costumavamos ter muito mais filmes bons como este.

50) A Irmã Mais Nova/La petite dernière (Hefsia Herzi)

Drama muito bem observado sobre negociar a sua sexualidade quando se vem de um ambiente conservador. Gosto sobretudo de como ele existe sempre no limite de ansiedade pessoal, enquanto o entorno da personagem mantém algo relaxado e convidativo, o drama segue interior nos seus temores e desejos.

49) O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho)

Um paradoxo: um filme que reimagina com precisão as ansiedades dos anos Bolsonaro enquanto nos transporta para o Recife do final dos anos 70. Uma armadilha emocional que muitas vezes é afetuosa e generosa. É um feito em criar um ambiente, físico e emocional, no qual o filme simplesmente desaparece. O cinema como uma forma de viagem no tempo.

48) Little Boy (James Benning)

Urgente se um pouco datado no discurso, mas filtrado com precisão conceitual e meterial de Benning.

47) O Dia de Peter Hujar/Peter Hujar’s Day (Ira Sachs)

Outro exercício de viagem no tempo. Nos anos 70, o fotógrafo Peter Hujar concedeu uma entrevista descrevendo seu dia anterior, que sobrevive apenas em transcrição, e este filme reproduz a conversa com palavras fiéis ao texto, enquanto o cineasta Sachs e seus atores Ben Winshaw e Rebecca Hall tentam imaginar o que está acontecendo fisicamente enquanto essas duas pessoas conversam.

46) Flat Girls (Jirassaya Wongsutin)

A melancolia de crescer. Muito atento aos laços entre as duas adolescentes no que elas compartilham na intimidade e como posicioná-las diante do ambiente social que teima em se intrometer.

45) Uma Batalha Após a Outra/One Battle After the Other (Paul Thomas Anderson)

Um ótimo filme de perseguição e um panorama cômico divertidíssimo. Anderson está aproveitando ao máximo os recursos que DiCaprio conseguiu que a Warner lhe oferecesse; como a maioria de seus filmes, é uma bagunça desigual e, sinceramente, foi excessivamente discutido politicamente, mas qualquer filme com essas paisagens, a atuação de Del Toro e DiCaprio desejando saber como pentear o cabelo de sua filha está fazendo as coisas certas.

44) Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas (Julio Bressane, Rodrigo Lima)

Bressane revisita as origens do seu cinema e o que a montagem ainda permite que ele flua.

43) Batguano Returns – Roben na Estrada (Tavinho Teixeira, Frederico Benevides)

Teixeira retorna ao seu ótimo filme anterior sobre Batman e Robin antropofágicos como Beavis e Butthead tropicalistas para fazer um road movie diarístico sobre suas ansiedades atuais, tão amargo, melancólico, mas ainda assim criativo.

42) Let’s Go Karaoke! (Nobuhiro Yamashita)

Sempre um prazer ver Yamashita em forma, um dos cineastas mais gostosos de se acompanhar, e quem mais faria uma delícia sobre a amizade de um garoto que canta em coro temendo os efeitos da puberdade sobre a sua voz e um yakuza que precisa vencer uma competição de karaokê.

41) Room Temperature (Zac Farley, Dennis Cooper)

Um filme muito bom sobre o que a ficção de horror pode conter e representar. É co-dirigido pelo ótimo romancista queer Dennis Cooper, mas é algo que só pode existir como cinema e oferece um ótimo comentários sobre o estado atual dos filmes de horror, mesmo que não seja exatamente um.

40) Metro.. in Dino (Anurag Basu)

Romance e alienação na grande cidade. Sobre mover as várias personagens num tabuleiro de sentimentos e conectá-las por meio da música. Um dos filmes mais prazerosos de se assistir do ano.

39) Morte e Vida Madalena (Guto Parente)

Fazer cinema independente no Brasil é uma dor e uma alegria.

38) Encontro com o Ditador (Rithy Panh)

Rithy Panh segue fiel a si mesmo e aos seus esforços de escavação da história do Camboja. Dessa vez, através de um filme de ficção sobre uma viagem de jornalistas franceses para entrevistar Pol Pot. Um dos seus melhores filmes.

37) The Shadow’s Edge (Larry Yang)

Provavelmente estou superestimando esse aqui porque ainda estou chocado por existir um filme tão bom estrelado por Jackie Chan no ano de 2025. Comentário acidental sobre o estado estagnado do cinema afiliado a Hong Kong: este é um remake de um filme muito bom de 2007 chamado Eye in the Sky, e Tony Leung Ka Fai interpretou o criminoso brilhante nele, e é claro que ele ainda está interpretando o mesmo papel aos 67 anos.

36) Jenseits des Rechts (Dominik Graf)

Eu amo os programas policiais da TV alemã e como eles permitem aos seus realizadores brincar de filme B, o que é especialmente feliz quando Graf se dedica a eles, já que é um dos melhores contadores de história do mundo.

35) Swimming in a Sand Pool (Nobuhiro Yamashita)

Outro filme recente de Yamashita, este baseado em uma peça teatral sobre um grupo de colegiais que conversam sobre os problemas delas enquanto limpam uma piscina cheia de areia, e pega sua situação e imagem central altamente simbólicos e cria algo muito gracioso a partir disso.

34) Com Hasan em Gaza (Kamal Aljafari)

Do gesto de localizar o peso, político e pessoal, das imagens casuais guardadas.

33) Retro (Karthik Subbaraj)

O melhor filme de ação indiano deste ano. Só eles poderiam unir Chaplin e John Wick. Um belo fluxo de imagens intensas e muito sentidas.

32) Youth (Homecoming) (Wang Bing)

A primeira parte da trilogia que Wang Bing dedicou ao cotidiano de jovens trabalhadores da indústria chinesa estava na minha lista de dois anos atrás, é no fundo um grande projeto só de cerca de nove horas. Esta parte final é como um epílogo, seguindo suas personagens em casa e no lazer, longe do trampo, mas ainda afetado por ele.

31) Apenas Coisas Boas (Daniel Nolasco)

Melodrama de faroeste queer sobre como deslocar seus desejos e sentimentos para as paisagens de Goiás. Tão bom quanto aquele faroeste do Almodóvar de uns anos atrás era tolo.

30) O Esquema Fenicio/The Phoenician Scheme (Wes Anderson)

Wes Anderson reimaginando o Mr Arkadin como uma farsa política contemporânea. Dos filmes caros vindos de Hollywood este ano é certamente o mais incisivo.

29) The Sixth Robber (Chris Huo)

O melhor dos thrillers policiais de Huo, o primeiro a combinar a excelência das suas cenas de ação com a intensidade do drama.

28) Garça Azul/Blue Heron (Sophy Romvari)

Conheço Romvari online há anos e gosto dos seus curtas-metragens, que ocasionalmente abordam o mesmo território pessoal. Dada a natureza muito emocional e autobiográfica de Garça Azul, não sou necessariamente objetivo em relação ao filme, mas filmes como este não são muito objetivos de qualquer forma. As pessoas comparam Garça Azul a Aftersun, pois são filmes semelhantes sobre dramas familiares conturbados observados por uma menina que só compreende parcialmente a situação, mas este me parece mais ambicioso e bem-sucedido, e há uma cena perto do final em que Romvari quebra a quarta parede de vez, que ainda me deixa emocionado.

27) The Colors Within (Naoko Yamada)

Música e animação que estão prontas para encontrar boas maneiras de dar aos sentimentos de seus jovens personagens um espaço ressonante. A ideia central é uma boa maneira de representar o que somente a animação pode dar conta e, como sempre, Yamada é um dos cineastas mais calorosas que temos.

26) Foi Apenas um Acidente (Jafar Panahi)

A Morte e a Donzela do Polanski como uma grande farsa. Meu filme favorito do Panahi é Ouro Carmim e este é provavelmente o filme dele que mais se aproxima desde então. É mecânico e didático, mas seu humor amargo e desesperado funciona e o drama permanece sempre envolvente.

25) La tour de glace (Lucile Hadžihalilović)

Lembro-me que La tour de glace recebeu críticas bem mornas quando foi exibido em Berlim no início deste ano, por isso é bom vê-lo aparecer em muitas listas de fim de ano. É sempre uma coisa boa quando um filme legal passa por todo o processo de reabilitação tão rápido. Nossa economia da atenção pode ser cruel, e Hadžihalilović é uma artista cujas idiossincrasias podem estar longe dela, por mais belas que sejam suas imagens. Este filme usa uma fábula para catalogar todas as maneiras pelas quais o cinema pode seduzir e massacrar você.

24) Fire Supply (Lucia Seles)

Falando em idiossincrasias, há poucos cinemas tão peculiares quanto esses filmes de Sales. Tão deliberadamente construídos nas suas ficções de ritmos próprios, a montagem de Fire Supply é um primor, assim como cada locação na qual suas personagens se refugiam. Um cinema artificial e ao mesmo tempo muito convidativo e íntimo, quase caseiro.

23) Air (Aleksei German Jr)

Um épico de guerra russo sobre pilotos mulheres no fronte de Leningrado. Trata-se de um espetáculo arrebatador, à moda antiga, realizado em grande escala. Atrizes fantásticas e ótimas cenas de ação com aviões. É muito empolgante, sem nunca deixar de lado morte que paira sobre toda a ação. A guerra é uma dura negociação com a morte, em que os Estados ganham e as pessoas perdem.

22) Kickflip (Lucca Filippin)

Jovens skatistas do interior de São Paulo. Imagens que são descartáveis e poderiam estar em qualquer mídia social, mas às quais o filme de Fillipin preenche de possibilidade. Um filme sem nenhuma distância entre o aparato cinematográfico e as suas personagens, muito vital porque reconhece ali toda uma potência de gesto e carga dramática sem distanciar as imagens da rotina deles.

21) Youth (Hard Times) (Wang Bing)

A parte intermediária do grande projeto de Wang Bing. A mais incisiva e indignada. Se Youth parece tão ambicioso quanto sua obra-prima anterior, West of the Tracks, e não me surpreenderia se, daqui a algumas décadas, fosse considerado um filme chinês fundamental da década de 2020, assim como aquele foi para a de 2000, este capítulo será o motivo. É didático, mas cheio de vida, e o uso do fora de cena continua sendo primoroso.

20) Kasa Branca (Luciano Vidigal)

O melhor e mais bonito filme brasileiro que vi este ano. Tão ligado no cotidiano dos seus jovens cariocas, tão bem observado e vivaz. O naturalismo do cinema independente brasileiro é, por vezes, uma muleta limitadora, mas Kasa Branca o areja e coloca-o em contato com o grande cinema de crônica do Rio de Janeiro, de Nelson Pereira e David Neves, e é tão bom ver algo assim novamente por aqui.

19) Mirrors No. 3 (Christian Petzold)

Um para o autorismo: Petzold faz uma variação cuidadosa de muitos de seus temas e tiques formais prediletos com sua habilidade costumeira. É familiar, mas preciso. O trabalho de Petzold com os atores continua excelente. Acho que ouvi The Night, do Four Seasons, umas 50 vezes nos últimos dois meses.

18) Evil Puddle (Charles Roxburgh)

Há algo nas possibilidades do cinema caseiro que Roxburgh e seu parceiro de sempre, Matt Farley, realizam: é um filme com o conceito absurdo, a cidade atacada por poças de água assombradas, que termina sendo um dos poucos retratos úteis de comunidades pós-pandemia e como elas negociam suas ânsias individualistas. Que seja tudo tão afetuoso faz as partes ácidas funcionarem melhor.  É parte Stephen King, parte Shyamalan, e oferece a Farley uma das melhores variantes para sua persona.

17) Luta de Classes/Highest 2 Lowest (Spike Lee)

O remake de Spike Lee da obra-prima de Kurosawa, Céu e Inferno, é um dos mais divisivos do ano, em grande parte devido à questão de um autor conhecido refilmar outro, o que, sinceramente, me deixa entediado. O que me interessa é o que Lee faz com a premissa, uma interpretação altamente pessoal que o transforma em uma fantasia paranóica muito conservadora sobre dois artistas negros de cinema muito bem-sucedidos, Lee e o astro Denzel Washington, e seus medos sobre sua própria relevância e como um mundo em que não se sentem tão à vontade os vê. A grande cena da entrega do dinheiro no meio do filme é maravilhosa e cheia de vida; todo o resto é opressivo, mas cada vez mais estranho e torturante. Lee continua muito relevante porque parece tão perdido em sua bolha.

16) Ariel (Lois Patiño)

Originalmente, Patiño ia realizar este filme com Matias Piñeiro e ele permanece bem próximo dos filmes deste com seu uso contemporâneo do texto de Shakespeare, no caso, A Tempestade. Em Ariel, o achado é posicionar a ação em Portugal, esta terra sempre pronta para transmitir todo um peso histórico assombrado, com os Açores filmados muitíssimo bem, que acrescenta ainda uma nova camada tanto para o cinema de Patiño quanto para o de Piñeiro.

15) Escape (Masao Adachi)

Adachi é o único cineasta importante que sacrificou anos de sua vida para se dedicar a ações políticas clandestinas e radicais. Desde seu retorno ao cinema com Prisoner/Terrorist, em 2007, ele vem produzindo representações minimalistas e desprovidas de orçamento da resistência radical japonesa. Desta vez, ele apresenta uma homenagem a Kirishima Satoshi, um homem que passou a maior parte de sua vida como fugitivo na lista dos mais procurados pelo governo japonês, até aparecer em um hospital prestes a morrer e revelar ao mundo quem ele era. Adachi pouco se importa com o panorama atual do cinema, mas preocupa-se com pessoas como Saroshi e o que vidas como a dele significam. Ele tem 86 anos e é talvez o nosso cineasta mais livre.

14) Sete Caminhadas com Mark Brown/Sept promenades avec Mark Brown (Pierre Creton, Vincent Barré)

Por falar em filmes livres, este poderia usar o título do filme de Hong, O Que a Natureza Te Conta. É um filme vibrante sobre a nossa relação com o ambiente em que nos rodeia.

13) Fuck the Polis (Rita Azevedo Gomes)

Outro filme de contato radical com o mundo. Este registra uma viagem de Gomes à Grécia, múltiplos tempos e ressonâncias históricas, todo um peso de um mundo que traz tanta coisa consigo, filtrada aqui pela simplicidade com que Azevedo Gomes filma os mais casuais momentos. Há muita beleza, mas também muita violência em como este olhar de cinema faz uma mediação de todas essas relações.

11) Broken Rage (Takeshi Kitano) e Where to Land (Hal Hartley)

Como de costume, há muitos filmes de cineastas veteranos nesta lista. Os artistas mais velhos costumam trazer consigo muita história e conexões que me interessam, e eles francamente se importam muito pouco com os modismos atuais, o que é sempre uma vantagem. Detesto quando as pessoas usam termos como “estilo tardio” para tentar explicá-los, porque isso não é muito produtivo. Prefiro admitir que posso ser fiel e sentimental e que há algo de radical em muitos desses gestos artísticos de fim de carreira. Aqui estão dois bons estudos de caso, ambos espécie de testamentos cinematográficos: Kitano, 78, é uma produção quase invisivel da Amazon, e Hartley, 66, foi feito com muito pouco dinheiro, através de financiamento pela internet. O mestre japonês é uma grande celebridade local que continua se safando com filmes excêntricos, enquanto o americano pode ser único entre sua geração por não ter tentado seriamente se envolver com o mainstream. São filmes muito engraçados e generosos; eles também não fazem absolutamente nenhum sentido se você não conhece o trabalho dos artistas. Kitano oferece uma série de variações sobre sua persona na tela, um filme de uma hora que repete seu enredo básico duas vezes com variações tonais, tão opressivo em suas conotações quanto alegre em sua execução. O filme de Hartley, que é literalmente sobre a confecção do testamento de um cineasta (embora seu avatar na tela seja um célebre autor de comédias românticas, o que é engraçado e perspicaz), é tão tomado pelo que pode transmitir, pelo que vem antes e pelas possibilidades de um futuro. Será que considero este o melhor filme de Hartley em mais de 30 anos porque parece tão final? Provavelmente, pelo menos até certo ponto, a sensação de um mundo a acabar, a urgência, mas também o prazer que isso traz, são grande parte do seu encanto. Há muita finitude em ambos os filmes, mas também uma abertura que é igualmente confrontadora.

10) Bad Girl (Varsha Bharath)

No extremo oposto, um longa de estreia tão tomado de possibilidade e energia, tão dedicado a representar a vida e os anseios de uma jovem indiana. Gosto do frescor do filme, gosto de que ele permanece tão ágil e tão pouco interessado em alguma austeridade, ao mesmo tempo que só por estar ali tão franco e direto, ele soe com um gesto radical e assertivo.

9) The Bewilderment of Chile (Lucia Seles)

Um dos cinemas mais divertidos e aconchegantes que existem. Limita-se a reunir coisas que são importantes para seus realizadores, mantendo-se ao mesmo tempo tão ligado à cidade e aos seus espaços públicos, às formas de os amar e de neles viver. É muito engraçado e, tal como os outros trabalhos de Seles, tão convidativo e caloroso, e a edição é um ato impressionante de manter tantas situações, personagens e ideias num equilíbrio coerente.

8) Castration Movie Anthology i. Traps (Louise Weard)

O filme de Weard é a primeira parte de um projeto ambicioso, filmando atualmente a terceira, de tentar dar conta das formas mais diversas de vivências trans. São quatro horas e meia de pouquíssima modulação, capturando mais situações, personagens e sentimentos contraditórios. É muito muito filme, feito com completa despreocupação e ao mesmo tempo sempre intoxicado pelas experiências na tela, sempre muito tocante à sua maneira, sem meios tons.  

7) Deserto da Namibia (Yoko Yamanaka)

Uma jovem japonesa bipolar e os dois homens entre os quais ela oscila. Esses são pontos de referência fáceis que importam e não importam, assim como qualquer uma das maneiras pelas quais se poderia descrever as ações da personagem principal: egoísta, violenta, fora de controle. As palavras e os julgamentos de valor que as acompanham não fazem jus ao desejo da diretora Yamanaka de apenas deixá-la existir. Um gesto tão generoso e tão intransigente. E na atriz Yuumi Kawai, ela encontra sua cúmplice ideal, realmente uma das performances mais impressionantes dos últimos anos, quase tão boa quanto Gena Rowlands no auge.

6) O Que A Natureza Te Conta (Hong Sang-soo)

A natureza opressiva da casa da família, a distância generalizada entre o namorado e os pais dela, tudo observado com um cuidado tão cáustico. E depois aquela maravilhosa cena da embriaguez, em que a comédia de costumes entra em colapso.

5) Ontem a Noite Conquistei Tebas/Anoche conquisté Tebas (Gabriel Azorín)

Jovens na sauna, perdidos numa imagem mítica. Todo um passado histórico, as incertezas do futuro e a presença do presente. As batalhas que se foram e virão num momento suspenso. Filme muito bonito, que cria todo um mundo a partir daqueles rapazes seminus tomando um banho e falando.

4) The Mastermind (Kelly Reichardt)

Dois movimentos, o roubo e a fuga. Múltiplos significados que são claros e obscuros. Um filme muito hábil em jogar as suas partes uma contra a outra e em explorar a presença de cena de Josh O’Connor. O título é e não é uma piada, o assalto é o desastre previsível sob sua suposta esperteza, mas O’Connor se considera claramente acima de seu meio criminoso, um cara que quer ser o chefe sem o incômodo e a monotonia do cargo de escritório que as conexões de seu pai provavelmente poderiam lhe proporcionar. O filme paira na cena tardia com o amigo da faculdade que lhe oferece uma salvação com um lugar em uma comuna canadense que ele tem que recusar porque “não é o meio dele”. Mesmo diante da marginalização literal, ainda há a necessidade de abraçar uma autoimagem imaginária. Uma miragem que o filme desnuda até o incrível plano final.

3) She Taught Me Serendipity (Akiko Ohku)

Provavelmente não há melhor momento em um filme este ano do que a confissão de amor que surge ali no meio, tão crua e vulnerável, e que se prolonga sem fim. Um filme tão bonito sobre como percebemos o mundo e como permitimos, ou não, que as pessoas ao nosso redor façam parte dele. Tão esperançoso e otimista, mas ao mesmo tempo tão doloroso e dificilmente conquistado. Uma educação  na forma de uma simples e escorregadia comédia romântica jovem.

2) Folha Seca (Alexandre Koberidze)

Dos prazeres da fabulação. Um homem sai pelas estradas da Geórgia à procura da filha desaparecida, em companhia do amigo imaginário, por um tour pelos campos de futebol amador que ela visitou. O cinema sempre voltando a Rastros de Ódio, aqui abençoado pelo futebol brasileiro. Koberidze ama futebol porque é um palco mítico no qual pode-se tudo.  Faz um filme idem, onde seguem-se catalogando novos encontros, um borrão (as imagens foram rodadas em baixíssima resolução) cheio de verdes dos campos, das crianças, animais, os rostos velhos que passam pela tela.

1) Blue Moon (Richard Linklater)

Folha Seca é o que mais olha adiante, mas, se eu for sincero comigo mesmo, essa peça de câmara toda sobre olhar para trás, para um mundo no crepúsculo, perto do fim é o meu favorito. Um filme com uma finalidade impressionante sobre todas as coisas que os dias pré-Segunda Guerra Mundial traziam de esperança perto do fim. Se passa quase em tempo real e em um único cenário, e é tão bem controlado por Linklater no seu balanço de emoções contraditórias. Um funeral bêbado e bonito.

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