Meus Filmes Favoritos de 2020

The Woman Who Ran

English version

Foi um ano muito estranho, mas ainda assim muitos filmes vistos e muita coisa boa. Creio que a parte final da lista é um tanto pior que a do ano passado, mas achei por bem manter o número e são todos filmes que eu gosto e merecem ser vistos.  Como sempre o critério são filmes vistos pela primeira vez este ano exibidos pela primeira vez nos últimos três anos. As posições não importam tanto certamente gosto do 32º mais do 52º mas não tenho certeza de que gosto dele mais que do 34º, então os filmes estão mais organizados por áreas que posições.

If You Could Go Back, I Would See Her.

Primeiramente os curtas: o meu curta favorito do ano foi If You Could Go Back, I Would See Her. do Joshua R. Troxler uma investigação fascinante sobre imagem digital a partir de alguns elementos essenciais. Outros dez curtas de grande impacto: O Colírio de Corman me Deixou Doido Demais (Ivan Cardoso), De Una Isla (José Luis Guerin), La France Contre les Robots (Jean-Marie Straub), Garden City Beautiful (Ben Balcom), A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Rodrigo Ribeiro), Now, At Last (Ben Rivers), Personal Growth (Maximilian Le Cain, Vicky Langan), República (Grace Passô), Sebastian and Jonas Leaving the Party (Ken Jacobs), A Story From Africa (Billy Woodberry).

100) Mulher Oceano (Djin Sganzerla)
Imagens espelho de existências femininas, duas formas de ficções e imaginar e dar corpo um estar no mundo.

99) O Caminho de Volta/The Way Back (Gavin O’Connor)
Eu sempre gosto como Gavin O’Connor trata as tramas mai surradas com a maior das seriedades.

98) Notturno (Gianfranco Rosi)
O desastre pós-colonial do Oriente Médio do ponto de vista europeu. A força do filme reside muito neste ato de chegar depois e lidar com as consequências dos abalos.

97) Ana. Sem Título (Lúcia Murat)
Lúcia Murat movendo-se muito bem entre a ficção e documento histórico de forma a fazer a uso da arte para permitir que uma história de trauma e resistência da esquerda latino americana ecoarem no presente.

95) Freaky – No Corpo de um Assassino (Christopher London) e Love and Monsters (Michael Matthews)
Num ano em que o cinema comercial americano tirou férias estes são dois dos poucos bons filmes. Love and Monster tem ótimo design de criaturas (um raro filme com efeitos criativos) e o cachorro é uma maravilha. Para um diretor de horror London de Freaky não tem o melhor domínio da mecânica de thriller, mas ele tem um ótimo olho para conceitos e seus personagens juvenis, algumas soluções criativas e Vince Vaughn interpretando uma jovem adolescente tem momentos muito bons.  Uma versão horror de A Outra Face muito boa.

94) Mães de Verdade (Naomi Kawase)
Kawase aplicando seu cinema direto e elementar ao melodrama familiar.

93) Skylines (Liam O’Donnell)
A versão boa de todos esses blockbusters que recebem excesso de atenção da mídia: rápido, barato, excêntrico, imaginativo e consciente do próprio absurdo e a coreografia é de fato boa.

92) Dezesseis Primaveras/Seize Printemps (Suzanne Lindon)
Cinema adolescente francês entre a memória de outros filmes e a experiência da jovem diretora.

91) First Love (Takashi Miike)
Miike no seu mais acessível, reforçando como ele se tornou um artesão cada vez mais hábil na última década.

90) Tesla (Michael Almereyda)
Menos uma biografia de Nikola Tesla do que um comentário sobre mitos americanos sobre invenção e empreendedorismo.

89) Weathering with You (Makoto Shinkai)
Amor jovem contra o meio ambiente. Como sempre nos filmes do Shinkai, a animação é um espetáculo à parte.

88) A Mulher de Luz Própria (Sinai Sganzerla)
Não é um perfil de Helena Ignez tanto quanto um filme ensaio sobre mulher como artista, performance e ser dona da própria imagem.

87) A Shape of Things to Come (J.P. Sniadecki, Lisa Malloy)
Alienação em meio ao mundo natural em um filme retrato dos mais pacientes.

86) The Day of the Destruction (Toshiaki Toyoda)
O Japão segue imaginando seus mal-estares pelos filmes de monstro.

85) Circumstantial Pleasures (Lewis Klahr)
Seis movimentos musicais aplicando pressão estética sobre uma série de significantes americanos. Quase me deu um ataque de ansiedade.

84) Samurai Marathon (Bernard Rose)
Bernard Rose vai ao Japão para realizar um filme de samurai bastante peculiar que como sempre ressalta seu grande controle formal.

83) Last Letter (Shinji Iwai)
Um experimento de Iwai refilmando no Japão o mesmo filme que fizera na China dois anos atrás, este é mais evocativo e agridoce e como sempre ele é um mestre arte do romance epistolar.

82) Ride Your Wave (Masaaki Yuasa)
Outra animação japonesa que se destaca por como o traço muito particular estabelece as relações da protagonista com o mundo.

81) Leap (Peter Chan)
As contradições ideológicas chinesas num filme sobre quatro décadas do programa de vôlei feminino do país.

80) Um Dia com Jerusa (Viviane Ferreira)
Um monumento a Léa Garcia num filme sobre as histórias compartilhadas e sua permanência.

79) Cidade Pássaro (Matias Mariani)
Sobre viver em São Paulo, o que a cidade faz conosco e as histórias que se pode contar a partir disso.

78) Nadando até o Mar se Tornar Azul/ Swimming Out Till the Sea Turns Blue (Jia Zhang-ke)
Jia Zhang-ke usa a literatura para olhar para si mesmo e sua relação com a sua província, um lugar e seu tempo.

77) Gênero, Pan/Genus Pan (Lav Diaz)
Mais estudos sobre o fascismo inerente do filipino por Lav Diaz. O horror da estrada aberta.

76) A Cor que Veio do Espaço/ Color Out of Space (Richard Stanley)
A normalidade apodrecida por dentro.

75) The Dark and the Wicked (Bryan Bertino)
Por princípio não sou um grande fã de filmes de horror super sérios de uma nota só recentes, mas faço exceção para um tão malvado como este. Mal estar geral de podridão familiar levado ao seu extremo lógico.

74) Ameaça Profunda/Underwater (William Ebank)
O desconhecido logo fora de quadro e o movimento táctil dentro dele.

73) Dwelling in the Fuchun Mountains (Gu Xiaogang)
Personagens presos no pictorialismo e como negociam seu movimento por ele.

72) Yãmĩyhex, as Mulheres-espírito (Sueli Maxakali, Isael Maxakali)
Um forte desejo pela ficção para ancorar um mundo que busca.

71) S01eo3 (Kurt Walker)
Viver nas imagens digitais e como elas mediam contato. Das comunidades que criamos.

70) Summertime (Carlos López Estrada)
Sobre falsas utopías americanas. Como em muitos musicais canta-se para esconder o quão desesperado se está.

69) Adoráveis Mulheres/Little Women (Greta Gerwig)
Menos uma adaptação dramática do que uma série de comentários sobre o livro de Alcott e as possibilidades dele hoje e muito bem sucedido nesses termos.

68) Generations (Lynne Siefert)
O uso dos lugares numa economia pós-industrial.

67) Red Post on Escher Street (Sion Sono)
Como sempre nos filmes de Sono sobre cinema, a indústria e exploração andam juntos, mas nesse aqui as coisas são desesperadas só que engraçadas.

65) Cade Edson? (Dácia Ibiapina) e Entre Nós Talvez Estejam Multidões (Pedro Maia de Brito, Aiano Bemfica)
Dois documentários-retratos sobre ocupações e resistência, duas formas diferentes de imaginar atuação política.

64) Ao Entardecer/In The Dusk (Sharunas Bartas)
O vazio da vida lituana no imediato pós-segunda guerra indo do austero ao físico.

63) Alice et le Maire (Nicolas Pariser)
Como dar forma a uma discussão sobre a prática do poder político.

62) O Ano do Descobrimento/El año del descubrimiento (Luis López Carrasco)
Política e história na mesa de bar.

61) Isabella (Matias Piñeiro)
Um Piñeiro mais introspectivo, mas ainda cheio de grande cenas e como sempre tem Maria Villar e Agustina Muñoz ótimas.

60) This Is Not a Burial, It’s a Resurrection (Lemohang Jeremiah Mosese)
Viver as bordas de um processo de modernização. A protagonista é uma personagem notável e o esmero com quadro e luz perceptíveis, mas o filme me interessa menos por essas qualidades plásticas, mas na relação que estabelece com aquele espaço.

59) I’m Your Woman (Julia Hart)
No escuro enquanto a tensão cresce. Thriller conceitual dos mais precisos.

58) Ordem Moral (Mário  Barroso)
O misto de atenção para o teatro das situações e despojamento da encenação tão centrais para a precisão do drama português. E um grande trabalho da Maria de Medeiros.

57) Voices in the Wind (Nobuhiro Suwa)
Como sempre em Suwa é um filme sobre apagar a distância junto ao drama. Um filme quase intolerável sobre dor e perda.

56) Malmkrog (Cristi Puiu)
O horror das boas maneiras. Uma história de fantasmas do século XXI que suspira pelos seus horrores do século XIX. Uma contradição, uma exasperação, mas um objeto político fascinante em quão transparente é impossível pode ser.

55) Talking About Trees (Suhaib Gasmelbari)
O trabalho para manter o cinema vivo e a camaradagem daqueles que o mantém.

54) Filmfarsi (Ehsan Khoshbakht)
Um filme ensaio sobre o cinema comercial iraniano pré-revolução hoje proibido e circulando em cópias piratas. É um filme que bate bem forte quando pensamos na situação da Cinemateca Brasileira. Sobre a permanência das imagens, o que elas dizem sobre seu tempo e a força política delas.

53) O Que Arde (Olivier Laxe)
Ficção elementar da relação entre homem e a natureza.

52) Punk Samurai Slash Down (Gakuryû Ishii)
Dois anos atrás quando eu coloquei Bitter Honey aqui na lista eu mencionei que Gakuryû Ishii estava acalmando com idade então ele resolveu fazer essa avacalhação com filme de samurai para provar que ele passou dos 60, mas segue o mesmo jovem punk.

51) My Sweet Grappa Remedies (Akiko Ohku)
A subjetividade e o espaço e as coisas ao seu redor. Da auto descoberta e chegada ao mundo. Filme gracioso e radical.

50) Eu Estava em Casa, mas… (Angela Schanelec)
Ozu reimaginado. A cineasta e seus truques ao preencher e esvaziar o espaço de cena. Aquela longa conversa, quem viu sabe de qual estou falando, é mágica.

49) Bronx (Olivier Marchal)
Policial transformado em autor de polars Olivier Marchal amaria ser conhecido como o Michael Mann francês e ele tem o domínio do romanesco do primeiro Mann, mas pouco do romantismo. Ótimo elenco, ótimo tiroteios e um muito bem construído universo de lei suspensas e violência do estado policial. Junto com o filme do Spike Lee, os únicos longas de peso que a Netflix produziu esse ano a despeito do esforço do algoritmo de escondê-lo.

48) Magic Lantern (Amir Naderi)
O subestimado cineasta iraniano Amir Naderi de volta aos EUA fazendo um remake de Laura do Preminger no reino da imagem digital.

47) Bad Hair (Justin Simien)
Um ótimo filme de monstro sobre papéis e imagens sociais que se beneficia muito do tipo de imagem desagradável e violenta que o gênero oferece ao cinema político.

46) The Grand Bizarre (Jodie Mack)
Textures of American industrial labor.

45) On Paradise Road (James Benning)
Benning conversando consigo mesmo durante a quarentena.

44) Les Envoutés (Pascal Bonitzer)
O poder sedutor da morte.

43) Il n’y Aura Plus de Nuit (Éléonore Weber)
Quando a câmera é uma arma de guerra. Estamos no terreno da guerra virtual pelo menos desde a primeira guerra do Iraque. Mas poucas tentativas de lidar com o horror do fato da transformação de vidas reais em uma preposição artificial alcançaram um efeito tão assustador quanto Éléonore Weber alcança aqui usando câmeras de vigilância dos EUA/França vigiando o Oriente Médio.

42) Telemundo (James Benning)
Vendo pessoas assistirem outro filme e encontrando no processo um ensaio sobre o poder e como essas relações chegam até nós. 

41) Liberté (Albert Serra)
Albert Serra brincando de Jesus Franco.

40) The King of Staten Island (Judd Apatow)
Apatow sempre quis fazer um filme de James L. Brooks e este provavelmente é o mais que ele chegou. Momentos verdadeiros de comportamento em meio a uma narrativa de superação bastante convencional. Todo o filme dentro da brigada de bombeiros é ótimo.

39) Chico Rei Entre Nós (Joyce Prado)
Reação contra um processo de apagamento. Das muitas formas como a história oficial brasileira segue um processo de embranquecimento que sistematiza este apagamento das participações do negro ao longo da nossa história. É um filme que trabalha muito bem os pontos de contato entre religião, economia e raça ao longo da história do país.   

38) O Despertar de Fanny Lye/Fanny Lye Deliver’d (Thomas Clay)
Misto de conto de liberação com faroeste de horror. Paganismo como forma de liberdade. O diretor Thomas Clay é bem consciente das tradições de filme de horror inglês e faz muito bom uso de folk horror (e múltiplos ecos de Witchfinder General) se repensados para um registro brutalista. 

37) Guerra (José Oliveira, Marta Ramos)
Filme de guerra com forte influência do Samuel Fuller. Sobre a permanência das guerras coloniais do ponto de vista do colonizador. Um jogo de cena entre os realizadores e o ator José Lopes. E também um filme sobre a distância entre a potência colonial e a paisagem portuguesa atual que parece uma resposta tardia a nostalgia do Tabu do Miguel Gomes.

36) Roubaix, Une Lumière (Arnaud Desplechin)
Arnaud Desplechin ama contar histórias, é o que lhe move sempre, aqui um pequeno conto policial numa cidade de interior francês. O encontro entre duas rotinas a da investigação e dos pequenos rancores e ressentimentos da cidadezinha e como ambos no cinema são expressos pelo mesmo jogo de repetição e performance. E tem lá no centro Roschidy Zem como sempre uma grande presença de cena.

35) Língua Franca (Isabel Sandoval)
A difícil relação entre si mesmo e o mundo e os impulsos competitivos entre se entregar e se recolher e as diferentes maneiras elas funcionam de acordam com quem você é recebem um olhar cuidadoso e muito bem imaginado por parte da diretora e protagonista Isabel Sandoval. Um filme muito forte tanto em como estabelece as atrações quanto os medos da sua protagonista, uma transsexual Filipina illegal nos EUA.

34) Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu (Bruno Risas)
História de fantasmas brasileira em 2020. Move-se adiante com a certeza que de alguma forma as coisas vão se resolver a despeito da decadência e o crescente mal estar porque algo fora de quadro (talvez um disco voador) vai nos salvar. Pontos extras por ser o filme mais paulistano feito aqui em São Paulo em muito tempo, um retrato justo de um lugar e um jeito de viver que o discurso de sempre deixou para trás.

33) Sportin’ Life (Abel Ferrara)
É um diário sobre 2020 segundo Abel Ferrara e por consequência um grande ensaio sobre como a vida alimenta o cinema. 

32) Gloria Mundi (Robert Guédiguian)
Crepúsculo do projeto social democrata europeu. Um filme de grandes momentos, mesmo que eu não tenha certeza se o final simbólico funcionam tão bem quanto Guédiguian deseja, mas tem ali uma sequência entre Ariane Ascaride e Gérard Maylan voltando para casa que é uma maravilha, o horror de viver reconhecido ali entre aqueles dois atores (com quem o cineasta filma juntos a cerca de 40 anos) que cinema raramente alcança.

31) CRAZY SAMURAI MUSASHI (Yuji Shimamura)
Um ensaio sobre matar. Filme de ação numa forma de pura ação na inação. A batalha mais famosa de Miyamoto Musashi no qual ele matou mais de 500 homens imaginada num plano único de cerca de 75 minutos nada espetacular, o astro de ação japonês Tak Sagaguchi atacando um número interminável de extras. Filme de ação conceitual algo entre o videogame e o filme de arte.

30) Let Him Go (Thomas Bezucha)
Um neo-faroeste sobre propriedade não de lugares e coisas como na ordem habitual do gênero mas de pessoas, aqui uma criança de 3 anos aos quais os avós vão recuperar junto a mãe e a nova família violenta dela. Um dos pontos altos do cinema narrativo este ano, de uma tensão agoniante enquanto aguardamos o trem descarrilhar. Duas metades bem distintas: a primeira num tom menor das negociações de um casamento da terceira idade e a segunda bastante violenta. Um filme com muito a dizer sobre a intersecção entre territorialismo e violência.. Diane Lane e Kevin Costner ambos maravilhosos.

29) First Cow (Kelly Reichardt)
Mais contos da vida da fronteira por Kelly Reichardt. Retorna-se ao faroeste como um mito de origem do cinema americano e busca-se imaginar novas formas de se viver.

28) Destacamento Blood/Da 5 Bloods (Spike Lee)
Viagem às entranhas do imperialismo. O coração das trevas permanece invencível. Como quase todos os filmes de Lee é um texto orgulhosamente incoerente, cheio de digressões, mais interessado em levantar questões do que em resolvê-los. Não é capaz de escapar das próprias realidades imperialistas que o produziu, mas faz movimentos fascinantes no processo. Não é todo dia que alguém se propõe a fazer um épico maximalista fulleriano. Excelente pulp. E tem Delroy Lindo em um momento inspirado. 

27) Phantom Ride (Stephen Broomer)
As possibilidades da estrada aberta e o peso do passado que as assombra.

26) L. Cohen (James Benning)
Mais ou menos  como ler um ensaio de Greil Marcus sobre Cohen como alguma figura mito-poética perdida na paisagem americana.

25) Alone (John Hyams)
Um ótimo thriller minimalista de um dos melhores formalistas do atual cinema de gênero. A fisicalidade opressora é o que se destaca: metal, natureza, corpos, tudo aqui pesa muito. O único defeito de Alone tem é que o primeiro ato é curto tão bom. Um imaginativo retrabalho de Encurralado de  Spielberg para paranoias contemporâneas, que o resto do filme não tem muito como sustenta-lo, mas Hyams faz o seu melhor.

24) Siberia (Abel Ferrara)
Uma jornada abrasiva ao fim de si mesmo de grande poder acumulativo. Cinema físico de fuga de uma mácula original no fim dos tempos com outro trabalho marcante de se mover por entre negociação, execução de tarefas e existência do Willem Dafoe.

23) Un soupçon d’amour (Paul Vecchiali)
Tempo, teatro e as especificidades do drama. Papéis que se interpretam e as maneiras que as imagens de cinema as acomoda.

22) O Preço da Verdade/Dark Waters (Todd Haynes)
As origens e consequências do veneno. Um excelente thriller paranoico sobre privilégio sendo consumido e as incertezas sobre nosso futuro.

21) Cabeça de Nego (Déo Cardoso)
Filme politico adolescente de primeira. Um dos nossos filmes mais inteligentes sobre os limites da democracia brasileira e quem ela protege ou não. E o movimento do didatismo para convulsão é muito forte. Um filme que sabe colocar o discurso em cena e deixar ele ir até onde deve.

20) Lua Vermelha/Lúa vermella (Lois Patiño)
Num grande ano para pesadelos lovecraftianos Lua Vermelha foi o melhor. Quando Armando de Ossorio encontra o experimental semi documental contemporâneo. Parte olhar sobre uma comunidade litorânea espanhola, parte exercício em imaginar as dificuldades dela a partir das aberturas de um cinema com gosto pelo mítico O talento para evocativo do Patiño posto para muito bom uso.

19) Antoinette dans les Cévennes (Caroline Vignal)
Um “faroeste” de auto-descoberta no qual Laura Calamy descobre que entre o homem e o burro é sempre melhor escolher o burro. Engraçadíssimo e dirigido com muito cuidado por Vignal, especialmente no controle de tempo e espaço. Calamy está ótima e o burro idem. Cinema mainstream no seu melhor, parece fácil, mas não é. Se entrasse em cartaz perigava ficar dois meses em cartaz nos nossos cine bristôs e virar motivo de piada dos esnobes, mas é muito melhor do que a maioria do que eles gostam.

18) Tommaso (Abel Ferrara)
Conto do exílio de um homem que sabe que a muito deveria estar morto: seu mundo, seus fantasmas, sua esperanças. É meio que o outro lado da narrativa de vício de Blackout ao qual ele se refere muitas vezes. Quando se procura a danação a vida toda, o que acontece quando se chega do outro lado? Ferrara e Dafoe novamente se misturando numa história em primeiríssima pessoa. Uma confissão de pecados, mas uma sobre o presente e não o passado. Um filme sobre sobreviver. 

17) Sertânia (Geraldo Sarno)
O último filme do cinema novo. O sertão imaginado poor toda a sua história e o que permanece dela. Um estudo sobre luz e lugar, a violência dos corpos e sua imaginação.

16) Nariz Sangrando, Bolsos Vazios/Bloody Nose, Empty Pockets (Turner Ross, Bill Ross IV)
O bar como espaço de cinema. O que é forte aqui é menos a sugestão de uma superfície documental, que certamente é crível, mas a força dos sentimentos expostos. O misto de elegia pelo espaço e o peso que ele sugere. A figura do cliente de bar na história do cinema é muito evocada, a boemia como liberdade, mas também na sua carga neurótica. O filme tece nestes contrastes um retrato muito rico impulsionado pela forma como os Ross conseguem imprimir verdade ao seu retrato ficcional.

15) La Gomera (Corneliu Porumboiu)
Gosto do Porumboiu, mas La Gomera foi uma das minhas surpresas mais agradáveis do ano, já que não esperava um neonoir tão envolvente e bem pensado vindo dele. É uma atualização do policial setentista. Um filme sobre como as paranoias da guerra fria foram canalizadas para o mundo cão da comunidade europeia e o papel do cinema nesse processo.

14) Farewell Song (Akihiko Shiota)
Do ato de terminar, um musical sobre as incertezas de se expressar fora da música. Do tênue limite entre juventude e idade adulta, o tipo de coisa que Akihiko Shiota sempre fez muito bem.

13) Undine (Christian Petzold)
O amor de Petzold por ficção, seus lugares e seus atores em plena forma. Ele permanece um dos últimos classicistas do cinema contemporâneo se por isso pensarmos numa certa disposição para com o material e como expressá-lo por imagens. O cinema dele é constantemente assombrado por velhas formas, contos, imagens, mas é importante interrogar como elas são construídas. Velhos mitos e como eles ressoam na cidade moderna.

12) The Man in the Woods (Noah Buschel)
Um estudo sobre os problemas da nostalgia. Um dos poucos filmes americanos genuinamente políticos dos últimos anos com o apelo regressivo do passado pensado em termos bastante contemporâneos. Como sempre Buschel tem estilo teatral e artificial bastante próprios e o seu grande elenco demonstra muito prazer com seu diálogo.

11) À l’abordage! (Guillaume Brac)
Pouco conflito e muita possibilidade, como bem manda um filme de férias. A arte de Brac é tão simples a parecer sem esforço algum baseado em criar um mundo confortável para seu jovem elenco se soltar. E que maravilhosos atores jovens Beac encontrou. Lembra um pouco o Rohmer dos anoss 80, mas sem a mão de Deus conduzindo os personagens, mas somente seus próprios desejos.

10) It Feels So Good (Haruhiko Arai)
Cinema de corpos em erupção. Sobre desaparecer num outro corpo até a terra tremer. O diretor Haruhiko Arai é um roteirista e crítico que começou a carreira com Koji Wakamatsu e Masao Adachi cerca de 50 anos atrás e trabalho para os mais variados nomes desde então incluindo um dos meus cineastas japoneses favoritos dos anos 70, Tatsumi Kumashiro e It Feels So Good em espírito está bem próximo dos pinkus mais ambiciosos dele. Duas ótimas atuações e um trabalho de espaço cênico notável.

9) Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre/Never Rarely Sometimes Always (Eliza Hittman)
O maior talento da Eliza Hittman é pintar uma subjetividade radical dentro de um quadro naturalista. Um filme de negociações constante, onde todos os grandes pontos políticos (é um filme sobre uma jovem de classe média baixa procurando aborto) filtrados pela ação, por corpo a corpo de cada situação. Políticas de viver.

8) Le Sel des Lermes (Philippe Garrel)
Garrel fazendo um filme de Rohmer de certa forma, uma proposição moral a partir de uma série de encontros sexuais contada de uma benigna mas dura distância que se contenta em observar o descarrilhar e destruição. É no fundo um filme sobre paternidade e o fracasso de passar adiante conhecimento, o mais próximo que Garrel esteve de fazer um filme de velho o que pode explicara reação violenta de alguns setores de crítica atual preocupados demais em afirmar a próprio irrelevância da moda. E como sempre cada gesto é captado com uma beleza e peso que só pertencem a Garrel.

6) É Rocha e Rio, Negro Leo (Paula Gaitan) e Luz dos Tropicos (Paula Gaitan)
Paula Gaitan nos deu dois presentes este ano, 7 horas entre eles e séculos de história. Luz dos Trópicos é um caminhar mitopoético pela ideia das Américas como espaço para além da prisão colonial. Épico de redescoberta, cinema de um novo mundo. É Rocha e Rio, Negro Léo é uma conversa com seu genro Negro Léo sobre o Brasil, ser brasileiro, 2020. Um encontro de tarde domingo, tão radical na sua forma quanto o filme anterior, especialmente na maneira que permite ele formular um pensamento sem interrupções, uma radiografia de país e seu projeto como poucas. Filmes de civilização.

5) Days (Tsai Ming-liang)
Desde que anunciou sua “aposentadoria” na altura de Cães Errantes, Tsai Ming-liang liberto de fingir lidar com narrativa vem se concentrando mais e mais na presença física e no rosto do seu muso Lee Kang-sheng. Dias é neste sentido o ponto máximo de uma investigação estética que se depurou de forma cada vez mais austera. Cinema da existência, de atuar como uma forma de ser no seu melhor.

4) The Woman Who Ran (Hong Sang-soo)
Hong Sang-soo e Kim Min-hee seguem fazendo um trabalho formidável juntos. Neste filme criando uma série de encontros para uma mulher aproveitando alguns dias longe do marido, um filme de grande perspectiva de história e de promessa de futuro. Sobre a necessidade de se reinventar para seguir em frente.

2) O Caso Richard Jewell (Clint Eastwood) e City Hall (Frederick Wiseman)
Dois mestres nonagenários do cinema vindos de perspectivas opostas e explorando o fascínio e os limites respectivamente da ideia de lei e ordem e do serviço público. Filmes que dão sequência a projetos longos (o do estudo de heroísmo contemporâneo americano por parte do Eastwood, das instituições civilizatórias por Wiseman) que seguem extremamente recompensadores.  Eu diria que Eastwood e Wiseman são os dois melhores cineastas americanos do último meio século e é ótimo vê-los em plena forma.

1) Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait (Emmanuel Mouret)
Em determinado momento de Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait um personagem coadjuvante reconta a experiência de se passar por um amante por uma tarde, e como representar o papel é uma memória que lhe persegue, como aquela falsa relação (sem amarras, sem concessões) parecia-lhe mais viva do que seu próprio casamento. É meio que o filme do Mouret reduzido a um único momento: todos aqueles contos de amor sobrepostos uns aos outros, todos frustrantes, mas assombrados pela promessa do que poderia ser. Mouret ama contar histórias e ele ama desilusões românticas e como elas se encontram. Este filme é resultado de duas décadas de considerações e depuração de um estilo por parte de uma das melhores figuras do cinema narrativo contemporâneo. E Emilie Dequenne e Vincent Macagaine fazem um ex-casal, o que deve ser o mais próximo de um casting ideal de atores quanto o cinema atual poderia conceber.

1 comentário

Arquivado em Filmes

Uma resposta para “Meus Filmes Favoritos de 2020

  1. dclima07

    Vc assiste séries? Tem alguma de destaque de 2020?

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