Mojica e a Ruptura da Realidade

Mojica

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

(English version here)

Semana passada faleceu José Mojica Marins e diante da notícia uma das suas cenas que me veem a mente é da abertura de Exorcismo Negro, filme no qual ele fazia o papel duplo do cineasta Mojica e de Zé do Caixão, estamos numa coletiva de imprensa e um repórter levanta a bola da pergunta que animaria o filme: o que importa o criador ou a criatura? O cineasta-personagem ríspido deixa claro que é ele cineasta. O filme em si produz algumas fricções nessa dualidade, mas é sempre mostrado do lado do cineasta. Menciono essa cena porque diante da imagem de José Mojica Marins por vezes o criador parece vir depois da criatura, o que é uma pena pois Mojica não só criou o Zé do Caixão, mas foi uma das vozes mais originais do nosso cinema. O homem que promoveu uma ruptura no mundo e deixou todo o tipo de contradição se auto devorar nas margens.

Mojica era o gênio total como dizia Jairo Ferreira. Nunca faltou quem lhe dedicasse atenção, mas a sombra do Zé sempre paira a espreita. A verdade é que nos cerca de 10 anos mais criativos do cinema brasileiro (1964-1974), Mojica estava ali na ponta de frente da invenção e da resistência: A Meia Noite Levarei a Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual dos Sádicos, Finis Hominis, Exorcismo Negro (além de outros menos bons, mas valorosos filmes como D’Jagão Mata para Vingar, seu faroeste cigano). Não que o cinema dele surgisse do nada em A Meia Noite, existe muito a se deslumbrar no seu primeiro longa A Sina do Aventureiro (1958), faroeste brutalista da crueza do interior. Me lembro da minha irritação ao reler uns anos atrás Brasil em Tempo de Cinema do Bernardet e encontrar uma desprezada ao filme como mau exemplar do cinema popular brasileiro que seria em breve superado pelos jovens realizadores. Um lembrete de como certo olhar do intelectual de esquerda tem dificuldades de processar o imaginário popular brasileiro. Era verdade nos anos 60, segue verdade em 2020. Existem motivos pelo qual Jairo Ferreira no seu filme-ensaio maior sobre o cinema brasileiro Horror Palace Hotel (1978), o organizou através do encontro entre Mojica e Rogério Sganzerla.

A Sina do Aventureiro já fazia um primeiro rascunho do cinema de Mojica com seu criminoso movido pelo descontentamento social e perdido na fissura entre anarquia e moralismo. De certa forma, o gênio de Zé do Caixão brota deste mesmo lugar, desta posição impossível de bicho papão popular e figura de resistência. É o cientista louco que o Brasil permite, mas é um doutor Frankenstein assombrado por sentimentos muito diferente do iluminismo de Shelley e da Hammer. Uma criatura cruel, grotesca na sua dedicação a expor a sua própria superioridade (uma figura proto Nitzscheana como Glauber Rocha dizia), mas que era contrabalanceada por um egocentrismo que tem poucos paralelos no cinema brasileiro. Pois Mojica era também nosso autor-ator por excelência. A arte dele tem tanta relação com Chaplin do que com Shelley. Se Zé do Caixão é uma figura tolerável de se acompanhar é também porque Mojica está tão apaixonado pela própria imagem. Daí Zé do Caixão ser um monstro, mas também uma figura de resistência. Sua filosofia de vida assustadora, mas seu vomito contra a ordem sedutor. Zé é a reação grotesca porem sedutora contra uma situação vigente. Vale lembrar que em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, ele é aquele que sequestra e mata mulheres em nome de um ideário pseudocientífico, mas também o único na cidade que investe contra o coronel local que Mojica filma sempre com o asco. Nos filmes do Mojica sempre se suspeita das figuras de poder.

É uma ambivalência que vai acompanhar todos estes filmes. Não muito diferente do misto de inventiva contra igreja e fascínio pela iconografia e moral da mesma que o acompanha para além dos primeiros filmes do Zé do Caixão. É bom apontar que nada disso seria possível sem o cinema para acompanha-lo. Pois Mojica é um astro performer com um gosto pelo sadismo e outro pelo sentimentalismo, mas esta performance existe sempre dentro de um quadro muito expressivo. Não era um homem com um pé no teatro como Chaplin, mas um que acreditava sempre em ir além do palco. A constante no cinema de Mojica não é que era preciso capturar uma realidade, mas rompe-la. Culminando naquela sequência do inferno de Esta Noite quando saltamos do preto e branco para a cor e temos uma visão do inferno única, gélida e terrível. Ao longo dos filmes de Mojica essas visões de horror se tornam comuns: infernos sadistas cheios de tortura marcados pelo conflito com o eu, por uma incerteza constante, um tormento de uma realidade frágil.

Entre A Meia Noite e Esta Noite, há um salto de confiança. O primeiro filme é vigoroso e o segundo é grandioso, cerca de meia hora a mais, muitos e bastante trabalhado cenários, um número maior de vítimas e antagonistas, uma articulação mais ampla da figura de Zé do Caixão, a já mencionada sequência de viagem ao inferno. Há um movimento dramático muito forte ao longo do filme. Em A Meia Noite encenasse o tormento das contradições enquanto em Esta Noite move-se rumo ao encontro com a impossibilidade. A partir da chegada ao inferno, a realidade não será mais possível. Mojica poucas vezes olhos para trás, abraçou um cinema frontal e a lisérgico.

A partir dali Mojica vai firmar parceria criativa com o escritor Rubens Luchetti e o seu cinema fica mais autoconsciente. Os elementos lisérgicos vão para primeiro plano, a violência sadista fica mais pronunciada. Com Luchetti, o aspecto mitológico da figura de Zé do Caixão se torna tema dos filmes. Falasse muito do Mojica primitivo com aquela condescendência habitual, não acho que A Meia Noite e Esta Noite sejam filmes primitivos ou precários (são grosseiros o que é outra coisa e abrasividade é uma forma rica de expressão), mas afirmação soa especialmente tola nos filmes posteriores. Ritual dos Sádicos, Exorcismo Negro, o último episódio de Estranho Mundo de Zé do Caixão são explorações de imagens e do auto mitologia que Mojica já vinha estabelecendo. Zé do Caixão vira menos uma figura mais um tema, todos os temores da realidade brasileira num corpo e numa ideia. As imagens de Mojica conseguem dar forma a esta contradição, o cineasta que precisa ir além da criatura, mas tem todo um prazer com os horrores que a imagem dela produz. Ritual dos Sádicos é o Luzes da Ribalta do cinema brasileiro, o confronto com o fascínio e as limitações da própria imagem do cineasta, só que aos moldes de Mojica esta imagem surge como pesadelo e alucinação de um grupo de drogados. Em Exorcismo Negro o confronto e a dualidade criador/criatura vira texto, mais explícito, mas não menos articulado nas imagens.

Falei aqui bastante da conexão com Chaplin que não me parece ser muito explorada. Talvez porque não pensamos muito na violência inerente ao fundo do sentimentalismo de Chaplin até porque ela só é mais explicitada nos filmes finais menos discutidos (não é difícil imaginar Mojica refilmando Monsieur Verdoux). Mojica inverte a equação, com o sadismo dominando e o sentimentalismo permanecendo ali enterrado ao fundo. Meu filme favorito de Mojica, o mais inventivo e louco é Finis Hominis no qual ele interpreta um messias que chega a terra e passeia por uma paisagem devastada mediada pela televisão. Há um desejo humanista forte contrapondo a revolta violenta habitual. Não é um filme de terror, mas um objeto inclassificável cheio de imagens fortes as vezes terríveis, outras que te desarmam de tão diretas. Há um absurdo ali, mas nenhum cinismo. Mojica acredita no que filma, se imagina na figura de salvador, mas compreende da própria impossibilidade. Finis Hominis é um outro profeta da fome. Seu destino final é marginalidade.

Por fim, a contribuição maior do José Mojica Marins ao cinema brasileiro é a frontalidade das suas imagens. O horror é um gênero muito rico porque ele permite imaginar a violência simbólica de muitas maneiras e de dar corpo de forma diversas a elas. Mojica sempre foi direto. Vai ao ponto. Filma as contradições com toda a sua violência. Encontra uma forma física para expressa-la. Pensemos no segundo episódio de O Estranho Mundo do Zé do Caixão quando o mendigo finalmente alcança seus desejos quando possui o cadáver da modelo que anteriormente perseguira. Nos seus filmes não existem saídas, não há forma de domesticar tal violência. Filmou nossa orgia canibal tal qual a viu. Uma sociedade que se devora. Sua única saída destroçar a realidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s