Pedagogia da Subversão

thespookwhosatbythedoor

(English version here)

Como foi lançado em 1973 no pico do Blaxploitation, The Spook Who Sat by the Door pode sugerir a princípio uma das muitas variações de gêneros estabelecidos que foram populares na época, mas não se trata de uma sátira a filmes de espionagem, mesmo que abertamente lance mão de elementos do gênero para fins subversivos.  Na verdade, a premissa de The Spook Who Sat By the Door não pode ser mais saborosa: um senador a procura de um bom tema eleitoral decide que a CIA não tem nenhum agente negro e a agencia é obrigada a fazer uma contratação afirmativa, o vencedor passa cinco anos lá como um fantasma subestimado e quando deixa o governo faz uso dos conhecimentos adquiridos na agência para começar uma insurreição negra.

É fácil compreender porque o filme permanece relativamente pouco conhecido apesar de sua reputação ser consideravelmente recuperada na última década. Não se trata bem de um filme de blaxploitation, seu protagonista Lawrence Cook não é Fred Williamson e o filme pede que ele interprete um cérebro da infiltração e insurreição pouco sedutor e o talento por trás das câmeras não inspira apreciações autorista (curiosamente o co-montador Michael Kahn viria a se tornar o principal montador de Steven Spielberg).  O diretor Ivan Dixon começou a carreira com ator (ele era o soldado negro da sitcom Guerra, Sombra e Agua Fresca) e depois dirigiu muita televisão. Eu vi o único outro longa de Dixon para cinemas, Trouble Man um bom filme de detetive à Dashiel Hammett adaptando para as realidades do negro americano. Um filme acima da média do blaxploitation, mas bem dentro do gênero e que se é lembrado hoje é sobretudo pela ótima trilha sonora de Marvin Gaye (Herbie Hancock compôs a de Spook, mas não é um dos seus trabalhos mais marcantes). A principal força criativa do filme era provavelmente Sam Greenlee, autor do romance original co-roteirista e produtor, mas o seu nome só chama a atenção entre aqueles com interesse em arte radical afro-americana.

O que faltam em credenciais cinematográficas sobram em credenciais subversivas: filmado em guerrilha com externas em Chicago feita na surdina após a prefeitura negar autorização, um dos seus coadjuvantes (David Lemieux) era um pantera negra e o filme foi retirado de cartaz as pressas de forma pouco explicável (Greenlee insiste que o FBI fez pressão sobre exibidores). É um filme que termina com o presidente americano declarando estado de emergência e que inclui diversas sequencias onde se discutem métodos de subversão, A contracapa original do romance de Greenlee lia “A sua cidade esta as vistas de uma arma tão poderosa que você não pode escapa-la, uma arma carregada por 300 anos de ódio e negligencia hostil. Uma arma – uma América negra unida. Esta é a história de quando esta arma ataca – pode acontecer antes de você terminar este livro!”.

Não se trata de um filme discreto (o seu protagonista se chama Dan Freeman), mas é notável pela sua paciência. Acompanhamos cada passo da entrada de Freeman na agencia e depois ficamos com ele enquanto é colocado no trabalho burocrático mais desimportante possível. No primeiro momento nem sabemos que Dan é o protagonista, a descrição é de tal forma sua característica que ele passa despercebido entre os candidatos. Dixon, Greenlee e Cook são muito hábeis em descrever as maneiras como todos os colegas de Freeman o subestimam e ofendem seja de forma passiva ou agressiva. A primeira metade do filme é uma longa panela de pressão de ressentimento justificável.

The Spook Who Sat By The Door como bom filme revolucionário tem uma ênfase no didatismo. A pedagogia está inscrita na sua lógica. Muitas das sequencias iniciais se concentram aulas diretas sobre espionagem e em indiretas sobre a ordem do supremacismo branco no qual a agencia está muito bem inserida. No miolo vemos com frequência Cook ensinar seus jovens recrutas nas maneiras da insurreição sem dourar a pílula. Seguimos aguardando o momento em que o filme vai puxar o freio e sugerir que a saída violenta é um excesso, mas ele nunca vem (pelo contrário The Spook Who Sat by the Door claramente considera o movimento pelos direitos civis insuficientemente revolucionário). Dixon extrai um bom contraste entre as aulas de Freeman nas mãos do FBI e o tom que ele adota com seus candidatos a revolucionários a maioria extraída de gangues locais. Um dos ensinamentos de Freeman: o negro é um ótimo espião pois desde que assuma um papel de empregado subalterno como faxineiro tem acesso livre a qualquer área.

Trata-se de um filme bastante raivoso, mas não desprovido de seu humor amargo baseado na certeza de que o negro vai ser sempre subestimado pelo homem branco (e não há aqui quaisquer pretensões a aliados). O filme tem um domínio muito grande da caricatura e um pouco como por exemplo nos filmes do Kleber Mendonça Filho sabe como especificar uma verdade no que poderia na superfície parecer só excesso. As cenas na CIA são cheias desses momentos. Há uma piada recorrente de que os superiores de Freeman só respeitam a destreza física do homem negro, enquanto o filme sempre reforça ser a história de um homem muito inteligente (a certa altura Freeman planeja um assalto a banco elaborado para financiar as atividades subversivas com a certeza de que a policia vai credita-lo a brancos). Dixon é bem hábil em extrair humor da ignorância racista sem com isso reduzir a ameaça que tais personagens representam, pelo contrário a estupidez só os torna ainda mais perigosos e torpes.

O filme tira o máximo do grande achado de Greenlee: a subversão do manual subversivo da CIA. O próprio romancista trabalhou no serviço estrangeiro americano nos anos 50 sobretudo no Oriente Médio (Paquistão, Iraque). Nunca temos dúvidas que vemos a lógica imperialista sendo virada de cabeça para baixo. A infiltração de Freeman parte deste desejo de absorver toda uma lógica usada para subverter os indesejáveis e leva-la para dentro dos EUA. Uma deglutição das estruturas que sustentam a supremacia. O achado dentro do achado: ao levar essa ideia a cabo o filme reforça como para o negro pobre americano os Estados Unidos não deixam de ser só uma nova versão do terceiro mundo. A escravidão uma das bases do colonialismo. The Spook Who Sat By the Door é bem consciente das distinções de classe. É um filme com a certeza que as conquistas pela igualdade da década anterior foram bem mais verdadeiras para uns do que para outros. O último achado: a certeza de que a segregação americana não tem uma saída conciliada.

A estrutura bipartida permite que o filme discuta de forma muito incisiva os sacrifícios e negociações negro enquanto transita em espaços dominado pelo homem branco. A metáfora da espionagem vale também para formas de teatro social. A atuação de Cook é marcante justamente porque ele consegue manter coeso um personagem que intencionalmente projeta imagens diversas em cada meio que ele circula (o do governo branco, a classe média negra, os revolucionários vindos das camadas populares). The Spook Who Sat By the Door é um filme radical também na forma com que ele discute as tensões inerentes entre os últimos dos grupos. É notável que Freeman não vai encontrar apoio na antiga namorada de universidade, mas na prostituta que conhece nas suas noites na CIA. O filme é bem perspicaz com os modos de pressão social e como o individualismo trai qualquer consciência de classe e raça. A recusa radical sobre qualquer conciliação inclui olhar com desconfiança para o arrivismo negro. O clímax do filme se da num encontro entre Freeman e seu melhor amigo um policial que podia facilmente ser o personagem principal de Infiltrado no Klan e que está revoltado com a descoberta de que o amigo é o perigoso subversivo que vem “aterrorizando” a cidade. O filme não se resolve num confronto com racistas, mas com a possibilidade de Dixon encenar um duelo de ideologias caras para o movimento negro americano, revolução e reformismo. Nem preciso dizer de que lado The Spook Who Sat By the Door se posiciona.

É muito desse último ponto que creio mantém ao filme todo uma urgência contemporânea. O que Dixon, Greenlee, Cook e demais colaboradores extraem aqui é ainda mais alienígena hoje do que no seu contexto revolucionário. É difícil pensar noutro filme de caráter tão subversivo com ambições populares vindo de dentro da indústria americana. Era verdade em 1973, segue verdade hoje. Lá em cima falei de como o filme não é de fácil entrada pelo viés autorista e o motivo óbvio é que o preço da subversão é o silenciamento posterior dos principais envolvidos. O preço do Oscar e da produção milionário da Disney é uma outra forma de apaziguamento. The Spook Who Sat By the Door permanece neste contexto um grande ponto fora da curva.

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