O pesadelo europeu de Brian de Palma

domino

(English version here)

Semana passada quando escrevi sobre O Projecionista do Ferrara, um amigo apontou nas mídias sociais que Domino, o último filme de Brian De Palma foi lançado em Nova York no cinema do protagonista seguindo o esquema de aluguel de tela discutido no documentário. Isto reforçou para mim quão marginal a figura de Brian De Palma se tornou atualmente. Ele não faz um filme com financiamento de Hollywood desde Missão Marte quase duas décadas atrás (aquele filme imaginava sua missão futurista passada no ano de 2020 e num típico toque auto referencial Domino começa um dia após ela). De Palma famosamente teve péssima relação com Orson Welles no set de Get to Know Your Rabbit, mas Welles sempre foi um ponto de referência útil para seu trabalho e o seu exilio europeu de fim de carreira tem algo muito wellesiano, nunca tanto quanto neste Domino.

De acordo com todas as informações um pesadelo de produção, Domino é menos um filme do que o sonho rearranjado de um. Existem rumores de um corte muito maior, existem também rumores de que o corte atual ser o que foi possível salvar de uma filmagem impossível. Pelo que conta o próprio Brian De Palma durante os cem dias de filmagem, ele passou dois terços do tempo em quartos de hotel esperando o dinheiro chegar. O lançamento do filme foi adiado por um ano até os produtores pagarem o devido a todos os envolvidos. Por um tempo parecia que Domino poderia permanecer não-lançado.

Foi também o primeiro filme que Brian De Palma fez depois do documentário De Palma (2015), de Noah Baumbach e Jake Paltrow que menos o celebra do que encerra a sua carreira. Um filme que recebeu bem mais fanfarra na mídia do que qualquer um dos seus filmes tardios e que parecia ativamente hostil para com sua obra do século XXI (seu anterior Passion é coberto em menos de 2 minutos). Um ato de necrologia. Alguns seguiram a toada, uma resenha especialmente vil na Indiewire praticamente pediu que De Palma se aposentasse.

Então o que o Domino disponível sugere? Um filme sobre a União Europeia como estado policial no qual realidade é mediada por imagens de terror e o desejo de um Estado que forneça contenção. E como tal visão, ele carrega mais força de que as suas origens de thriller direto para vídeo conseguem sustentar. Isso ajuda a explicar tanto quanto os problemas de produção  porque a narrativa permanece tão fora do eixo mesmo para os padrões de De Palma. Os prazeres rotineiros do gênero expandidos bem além das proporções pelas grandes sequencias do cineasta e design panorâmico geral do filme.

Muito como em Passion, há uma forte impressão do Fritz Lang tardio sem jamais se aproximar da qualidade do último Lang. E também muito como em Dália Negra, a narrativa reduzida a pedaços significa que o filme se baseia num arco emocional de obsessão por parte do protagonista que permanece escrito mais que sentido. Nikolaj Coster-Waldau (mais do que nunca um Viggo Mortensen dos pobres) recebe a incumbência de interpretar um desses protagonistas emocionalmente castrados que De Palma ama tanto – nunca uma tarefa das mais fáceis já que eles são figuras por demais passivas para conduzir a plateia por um thriller –, mas ele termina soando como um completo nada frequentemente e suspeita-se que boa parte do material que deveria sustentar a atuação dele nunca foi filmado ou terminou cortado.

O roteiro é lixo direto para vídeo de forma como nada que De Palma trabalhou antes. A última grande sequência de ação depende de uma coincidência que soa preguiçosa até para o seu padrão “não ligo para narrativa” (é uma possível solução inelegante para cenas nunca filmadas sejamos justos). Boa parte da caracterização se resume a tiques rápidos e todas as grandes reviravoltas muito telegrafadas. As imagens despidas e bastante transparentes de De Palma só tornam isso mais aparente (nisso é bem um filme de velho mestre). Cada nova revelação sobre a personagem de Carice van Hauten é óbvia desde o seu primeiro plano e a atriz trabalha duro para dar um centro para um filme que lhe oferece tão pouco.

A montagem é incerta, em particular no miolo. Mas o problema maior parece ser de produção e não montagem. De Palma vem sendo brm aberto sobre os problemas e pobreza da filmagem e corresse sempre o risco de projetar em excesso no que temos, mas muito disso é visível na tela. Com base no filme disponível, me parece mais provável que essa seja a montagem possível do que o resultado de um filme de 150 minutos reduzido para um de 89 minutos. A certa altura, há uma cena muito boa em que Van Hauten vai visitar seu amante comatoso e esbarra na esposa dele, é uma cena de personagem que soa por demais deslocada num corte apressado de produtor.

O terceiro ato em particular sugere que boa parte do que fora planejado para a parte espanhola da produção nunca aconteceu com uma cena final que funciona como se De Palma tivesse chegado num estúdio vazio com seus atores principais jogado uma luz e improvisado uma resolução rápida. O abrupto sugere o realizador, mas também soa vazio. Enquanto os primeiros dois atos funcionam como uma perseguição dupla – policiais dinamarqueses perseguem homem manipulado pela CIA que persegue um terrorista -, mas Eriq Ebouney (que tem a melhor atuação do filme, a convicção do seu rosto em contraste com as várias marionetes dos esquemas do realizador) desaparece da maior parte da sequencia espanhola. Existe muitas crateras emocionais que De Palma trabalha duro para cobrir e não falo aqui de narrativa. Os seus filmes podem fazer pouco sentido lógico, mas sempre o fazem num princípio emocional e operático, e nesses termos Domino é bastante irregular.

É muito excitante assistir De Palma negociar o baixo orçamento. Como no Welles tardio, é um prazer ver o mágico exilado e operando sem recursos e mesmo assim encontrando formas de chegar a novas imagens (e não tenha dúvidas boa parte de Domino soa novo).  Há uma grande cena de ataque terrorista no meio do filme encenada como um vídeo de You Tube com valores de produção idem, que é melhor do que qualquer coisa no último Missão Impossível. Que o ataque aconteça no tapete vermelho de um festival de cinema tanto uma referência a Femme Fatale como um comentário ácido do divórcio desses eventos com o mundo a sua volta. Todas as três sequencias principais um lembrete de que De Palma é um dos poucos mestres americanos que restaram. Ao mesmo tempo a pobreza de direto para vídeo é bem evidente. O design de produção inexistente, cada set desprovido de personalidade, o ataque terrorista na tourada acontece num estádio com bem menos extras que o ideal, o grande fotografo José LUis Alcalaine trabalha o tempo todo na direção de oferecer ao mundo do filme textura que do contrário ele podia não ter. Como boa parte do Welles europeu, Domino é excitante arte povera, a falta de recursos se destaca num sentido convencional, mas abrem toda uma nova série de significados e sensações. Uma aula de tirar muito de pouco. Testemunhem a sequência em longo close em que movimento de lente não só reforça o sentido dramático da cena, mas toda a lógica investigativa das imagens a seguir e mistura entre cinema e policiamento no qual o filme se baseia.

Sempre que Domino se centra sobre produzir e se assistir imagens é De Palma dos grandes. Longas passagens se resumem a pessoas assistindo vídeos em computadores, celulares e em raras ocasiões televisões (De Palma não perdeu seu dom para anotações godardianas).Ebouney assistindo o agente da CIA de Guy Pearce interrogar seu filho enquanto este claramente encena um show para o seu novo prisioneiro/ativo é tão excitante quanto qualquer um dos ataques terroristas (os dois que vemos são imaginados como grandes peças de intervenção midiática, terrorismo em De Palma é uma forma de cinema mesmo enquanto o cinema existe só como meteria prima para terrorismo). Domino por vezes se desdobra como um documento sobre a produção de imagens de pode5r e horror e como um documento sobre as suas dificuldades em chegar nas mesmas.

Existe outro artista de 79 anos tão excitado em pensar na nova economia de imagens. Diante de filmagens de drone é difícil saber se ele é uma criança com um novo brinquedo ou se está horrorizado. Personagens observam os méritos cinematográficos das filmagens de drone de terroristas. É como se os vídeos de You Tube de Redacted se expandissem na década de intervalo. Não há muitos filmes em tanta sincronia com essa nova economia de imagens afeta atividades diárias e ajudam a mediar a transformação de vida em produto. Como sempre a produção de imagens nos filmes de De Palma tem algo sinistro e perverso, o mundo só encontra novas horríveis maneiras de chegar nelas.

O panóptico de De Palma ressoa. Capital e vigilância são inseparáveis. Há muitas observações sobrea liberdade de movimento na Europa contemporânea e como ela funciona contra um projeto amplo de vigilância. Se Passion se passava num espaço abstrato do inferno corporativo do capitalismo tardio, Domino deseja existir como parte de uma União Europeia que fez um pacto com o diabo. Governo e terrorismo são parceiros comerciais para justificar um complexo de aprisionamento. As mídias visuais cabe o papel de mediador do processo. Os traços visuais que deixa para trás o único comentário restante. Todos os personagens reagem a isso em estupor, uma nova realidade assumida como fato. Policiar é impossível sem vídeo, mas também o terrorismo. Não há destruição se não podemos vê-la. Uma vitória amarga do simbólico em ambas as esferas.

Pearce parece se divertir muito de forma nojenta no que em termos De Palmianos pode ser chamado do papel de Gregg Henry. Há uma grande perversidade em como este [e um filme sobre um terrorista do Isis (cujas cenas individuais são imaginadas como um grande clichê de imagens de terror islâmico) viajando pela europa produzindo eventos de terror, enquanto De Palma encena todas as cenas de Pierce como se ele fosse um grande vilão mabusiano. Sua última frase “nós somos americanos, nós lemos os seus e-mails” permanece no ar sobre a cena final, meio absurdo de filme vagabundo para vídeo, meio sério, da mesma maneira que o próprio filme mantém aquele sorriso cachorro raivoso do diretor. Nunca se poderá ter certeza de que se trata de uma investigação séria sobre policiamento e produção de imagens ou uma boa desculpa para se divertir com isso. Conhecendo nosso mestre de cerimonias, é provavelmente as duas coisas. Esta é parte da razão pelo qual mesmo nesses tempos, ele permanece tendo tantos fãs hardcore como pessoas prontas para descarta-lo como um picareta decadente. Se assim desejar, pode-se encontrar muito nessas imagens, se recusar elas são fogos de artificio vazios e por vezes cruéis. Perguntam se funcionam é perder o ponto. Elas existem ali, suspensas como Coster-Waldau na perseguição de abertura inspirada por Um Corpo que Cai, horríveis, imaturas, excitantes.

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