Park Avenue Blues

bluejasmine

(English version here)

Aproveito que Blue Jasmine está no Mubi e que o novo estreou por aqui nos cinemas para respostar o último texto que eu escrevi sobre Woody Allen em Dezembro de 2013.

Blue Jasmine é um filme com muitos defeitos, mas não podemos negar-lhe o mérito de ser direto. Classe é uma questão frequente nas margens dos filmes de Woody Allen e, de certa forma, o cinema dele a partir de Interiores (1978) pode ser descrito como um cinema de novo rico e certa fobia sempre ligada à ideia de um retorno às origens humildes, que permanece como o horror final de muitos deles (não é acidente que o seu melhor filme dos últimos vinte anos se apresenta do ponto de vista de um alpinista social sociopata). Tal conceito dramático, porém, nunca havia sido dramatizado de forma direta como neste Blue Jasmine, no qual tais ideias saem das margens e vão para o centro: um filme sobre o inferno do descer de classe segundo Woody Allen.

Neste caso, trata-se de uma atualização de Um Bonde Chamado Desejo, na qual Blanche Dubois se torna ex-esposa de um especulador corrupto de Wall Street. A opção por si só é bem informativa de o que Blue Jasmine deseja ser, com sua combinação de referente estabelecido com gancho relevante completo com a presença central de Cate Blanchett, a atriz de prestigio por excelência do cinema contemporâneo. Allen drena Tennessee Williams da sua histeria característica (e especialmente da histeria via Elia Kazan, à qual o cinéfilo está mais habituado), mas não a substitui por nada; sobram-lhe alguns significantes reconhecíveis, já que, como frequentemente acontece em seus filmes, a referência interessa principalmente pelo capital que agrega. A característica mais daninha do cinema de Woody Allen desde sempre é como ele transforma cultura num significante de classe, um altar de pretensa sofisticação ao qual raramente falha em retornar. Seja Bergman, os filmes ingleses de Joseph Losey ou aqui Williams, são todos referências que existem pelo que podem emprestar de valor ao filme e não por qualquer relação orgânica com ele; servem somente para reforçar a equiparação de alta cultura com status que o microcosmo social dos filmes sugere.

Se Blue Jasmine se propõe como uma descida ao inferno, é uma que reforça as dificuldades de olhar sempre presentes nos filmes de Allen. Há, desde sempre, um problema de imaginação no centro deles que tenta se colocar numa posição distante do seu próprio ponto de vista. Seja um ponto de vista social social ou existencial, esse distanciamento é sempre um parto – basta pensarmos, por exemplo, no plano grotesco no começo de Todos Dizem Eu Te Amo (1996) no qual três babás de três etnias diferentes aparecem a cantar juntas, compondo a ideia de inclusão do filme. A tentativa de Blue Jasmine de imaginar este novo espaço ocupado por sua protagonista é um completo desastre, a começar pelo apartamento da irmã, que supostamente é um lugar terrível, mas é surpreendentemente espaçoso (e bem mobiliado) para um apartamento de uma mãe solteira que trabalha num supermercado – a não ser, claro, que qualquer coisa abaixo de uma cobertura Upper West Side se qualifique como temeroso no universo do diretor. O que temos aqui é um problema de miopia, um olhar estreito incapaz de articular com simpatia um espaço ou comportamento que lhe seja distante (algo que também ajuda a explicar porque o recente world tour turístico do diretor permanece sempre risivelmente genérico).

Isto se torna ainda pior na sua concepção de cada personagem que habita o novo universo de Jasmine. O filme é de uma completa falta de olhar – e ouvido – para qualquer personagem presente nas suas cenas que não seja a protagonista, a despeito de sua neurose e desequilíbrio emocional. Cabe a Sally Hawkins e Bobby Cannavale, dois bons atores, fazerem o que podem com a ideia caricatural que Allen tem de classe trabalhadora, mas o Stanley de Cannavale, em particular, é concebido como um festival de trejeitos sem salvação, disfuncional mesmo como paródia – embora a suspeita seja de que tal ideia está longe das intenções aqui. Não há nada que escape à impressão imposta de cima para baixo de que aquele é um universo afogado na mediocridade e falta de perspectiva.

Blue Jasmine pode se pretender impiedoso para com sua personagem-título, mas o seu olhar ao novo em torno dela não nega que estamos mesmo diante de uma descida ao inferno mais ampla, de que não há salvação diante de tamanha mediocridade (qual seria outra explicação para a subtrama na qual Hawkins tenta e fracassa em seguir o exemplo da irmã e procurar um homem melhor?). A falha de Jasmine não é sua cegueira ou esnobismo, mas sua soberba em acreditar que mereça sair dali; o purgatório social é sua punição e é um purgatório social menos definido por questões materialistas em si – ser pobre num filme de Woody Allen não é nunca ter dificuldade de se manter, mas não ter sofisticação e ter que conviver com gente idem – e mais pelo meio em que se vive. Blue Jasmine é um filme perfeito para quem acredita que o problema de inclusão social do governo Lula é de agora ter que dividir o avião ou o corredor do shopping com quem antes não tinha grana para isso.
O filme se estrutura a partir de deslocamentos temporais bem rudimentares de causa e efeito entre o purgatório de Jasmine e seu passado de privilégio em Park Avenue. Não há nada de muito interessante nos retornos ao passado da personagem, que culminam numa das saídas dramáticas grosseiras típicas do diretor, mas eles servem para reforçar o quanto o filme se sente desconfortável no tempo presente.

Se Blue Jasmine lembra um filme anterior de Allen, este é ironicamente um dos seus menos prestigiosos: a sátira cinematográfica Dirigindo no Escuro (2002). Ali, todo o humor com Hollywood fracassava justamente porque o filme desesperadamente queria ser um olhar de fora que não escapava de ser um olhar de dentro, cuja visão de bom cinema era muito mais próxima da dos executivos míopes que o filme desejava satirizar. Da mesma forma, Blue Jasmine pode se agarrar a sua temática atual e se fechar sobre personagens que são efeito colateral da grande especulação financeira, mas o filme é incapaz de escapar ele próprio daquele meio. Pode-se tatear a denúncia da suposta hipocrisia e vazio dali, mas é só ali que ele se sente confortável. A forma como Allen se dispõe a filmar as duas residências de Jasmine é muito informativa: há um asco nos momentos de presente que está ausente nos flashbacks.

Blue Jasmine prefere a hipocrisia ao que acredita ser medíocre. É um filme que não escapa à boa moral burguesa – o crime que expulsa Jasmine do paraíso não são sua cegueira e esnobismo, mas agir contra os interesses da família, romper o bom contrato social. Pode-se sugerir um esvaziamento da personagem, mas este esvaziamento é visto lá de um apartamento do Park Avenue. É um filme não sobre a vítima do especulador, mas da tragédia dele próprio. Chorar por ele, enforcado na sua cela de luxo, é a única perspectiva possível para a miopia social de Woody Allen.

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