Ang Lee e o vísivel

gemini

(english version here)

Desde o começo da década as preocupações de Ang Lee se moveram em direção do visível. Decisão inusitada para um cineasta associado sobretudo a dramaturgia e a uma suposta ecleticidade de temas e abordagens. Não é um movimento dos mais bem recebidos, sobretudo quando se considera o foco em novas tecnologias e diante de um filme como Projeto Gemini percebo uma tendência a pensar sua existência quase como um demo para filmes futuros, um experimento falho, quando não diante de tal material pulp, uma mera encomenda animada pela possibilidade de experimentar com brinquedos novos. Da minha parte, diria que o drama de Projeto Gemini só interessa a Lee até certo ponto, mas que a pergunta mais útil é qual o uso por trás das apostas tecnológicas do filme, mais do que valor delas por si mesmas.

Se há algo que une A Vida de Pi, A Longa Caminhada de Billy Lynn e Projeto Gemini não é em si o espetáculo tecnológico por eles propostos, mas como existem todos a partir da contradição da imagem espetáculo: o mergulho no artificio combinado com uma clareza máxima de encenação. Quanto mais verdadeira a imagem cinematográfica nesses filmes mais artificial ela se revela e quanto mais carregado de falsidades mais o drama carrega uma beleza. O desejo maior em todos esses filmes é lidar com essas contradições e o fascínio que elas despertam.

Entra Projeto Gemini que é por princípio um filme velho. Produzido por Jerry Bruckheimer que entre Um Tira da Pesada e a ascensão dos filmes da Marvel sempre esteve na ponta de frente deste tipo de produto hollywoodiano. Protagonizado por Will Smith que durante muito tempo foi a estrela deste filme de ação por excelência. Literalmente é um drama velho, o roteiro está em desenvolvimento faz mais de vinte anos. A certo ponto na hora de um personagem explicar a lógica da clonagem, a ovelha Dolly é ressuscitada. A própria trama central com o assassino do governo aposentado de Smith sendo caçado por um clone jovem de si mesmo é o tipo de ação de conceitos bem fora de moda. Não seria difícil imaginar o filme protagonizado em 1998 pelo mesmo Smith, Tom Cruise ou mesmo Arnold Schwarzenegger. Lee da sua parte faz pouco para moderniza-lo e é sério demais para sequer lhe oferecer o alívio de algum senso de humor.

Como drama Projeto Gemini pouco oferece: vinte anos sendo escrito não melhoraram o texto, Smith interpreta as únicas personagens reais do filme (Mary Elizabeth Winstead merece muito crédito por se esforçar tanto por um papel que existe somente para que Smith tenha alguem para trocar diálogos expositivos), os temas de paternidade e responsabilidade existe como pulp essencialista, a efetividade dramática do clímax envolve uma revelação tão primária que seria óbvia para um garoto de doze anos. Lee abordada tudo isso com uma transparência que sublinha a fragilidade do drama. Nas mãos de um Tony Scott, o favorito de Bruckheimer que estava ligado ao projeto na virada do século nada disso registraria em meio ao barroco hiperativo das imagens, nas de Lee tudo vem ao primeiro plano.

O drama de Projeto Gemini se funciona, o faz pelas superfícies. No trabalho de contemplar os rostos de Will Smith. Numa decisão que é central ao apelo do filme, o Smith jovem não é fruto da técnica de rejuvenescimento digital usada em O Irlandês ou Capitã Marvel, mas uma criação virtual desde o princípio. Um espelho de computador que produz uma não presença. Ele nunca é crível pela lógica tradicional da diégese do cinema americano especialmente em close sempre permanece com uma certa aparência de videogame. Boa parte do efeito dramático do filme reside nesta criação virtual lidar com a descoberta da sua própria artificialidade. Por sua vez o Smith velho cabe encarar a si próprio. A data de validade do star power muito mais do que uma crise de meia idade o que está em jogo ali (nisso aproxima-se bastante das cenas com Di Caprio em Era uma Vez… em Hollywood). Numa das decisões mais curiosas do filme, não se reproduz digitalmente o Smith de Independence Day ou Homens de Preto, mas o Smith da sitcom Fresh Prince of Bel Air com o qual o público americano primeiro tomou contato com ele, um retorno não ao pico da sua popularidade, mas as origens dela. A aposta maior de Lee é nas possibilidades de ressonância desta sobreposição de imagens desse encontro entre virtualidades e imagens pre estabelecidas. Por exemplo, será o Smith “real” tão mais verdadeiro quando ele é a soma de todas as nossas experiências anteriores com ele? Diante do drama de obsolescência de Smith, percebe-se que estrelas como ele – quase extintas no cinema americano- são menos que uma figura humana e mais do que uma celebridade, existisse numa presença ficcional bem delimitada que é bem distante do que o apanhado de tiques que de forma diferentes dominam a caracterização da ficção americana contemporânea (o filme de super-herói, a série de televisão).

Projeto Gemini inclui as melhores sequências de ação de qualquer filme americano dos últimos dois ou tres anos. Não estamos aqui no terreno da coreografia barroca da série John Wick, da brutalidade e imersão física dos filmes de Scott Adkins ou da engenhosidade e grandiloquência doe últimos Missão Impossível (e ainda mais distante da destruição computadorizada em massa que se tornou o modo principal do filme de ação americano pós 11 de setembro). O foco aqui é também na coreografia, mas a ênfase se volta para leveza e clareza. A perseguição de motos após o primeiro encontro entre os Smiths em particular é de um misto de liberdade e precisão incomum. Um curta dentro filme que por si só lhe justificaria. O modelo nessas cenas como em O Tigre e o Dragão é o filme de artes marciais clássico de Hong Kong, sobretudo aqui o de Lau Kar Leung. Quando escrevi sobre Leung para o catálogo da minha mostra de cinema de Hong Kong observei que se é possível aproximar a coreografia do filme de ação e do musical, o cinema de Leung na sua contemplação da graciosidade do corpo humano se aproxima de Fred Astaire.

A mesma graça existe na ação de Projeto Gemini, mas há uma camada muito maior de artifício, Leung era antes de mais nada um artista marcial que se interessava pelo que o corpo podia expressar. Com toda a economia e precisão das sequências que Lee e sua equipe constrói, elas existem num terreno muito mais imaterial (um dos principais corpos envolvidos se destaca por ser virtual).  Todos os bons exemplos de cinema de ação contemporâneos citados acima existem ao menos até certo ponto como reações aos modelos de destruição computadorizada dominantes, um cinema de coreógrafos e dublês, no qual ao reino do digital se contrapõe um literalismo radical, paradoxo levado ao limite no último Missão Impossível cuja cobertura não só batia na tecla de que Tom Cruise dispensava dublês, mas que as cenas de ação se tornavam cada vez mais perigosas. Um desses dias Tom vai se matar por vocês espectadores, o material de divulgação parece dizer e o misto de masoquismo e narcisismo presentes no filme confirmam tal ideia com um fervor religioso. Projeto Gemini divide com esses filmes vários das mesmas crenças sobre as possibilidades de expressão do corpo em movimento, mas recusa de forma radical o literalismo. A clareza das imagens segue lado a lado com o artifício. Ela só o reforça mais.

Estes movimentos no estatuto visível são o que domina os interesses de Lee desde o começo da década. Um visível que existe na superfície da imagem, o que reflete no pouco que existe de drama. Muito dessas ideias foram articuladas de forma bem direta no seu longa anterior A Longa Caminhada de Billy Lynn, um desses filmes que leem a si mesmos de forma bastante didática. Projeto Gemini é superior por costurar de forma mais orgânica tudo isso na ação. Tratam-se de filmes irmãos inclusive na maneira como apresentam a indústria sociedade do espetáculo e a do complexo militar como espelhos complementares. Seus aparatos inseparáveis. Intelectual e comercialmente. Afinal, há única grande diferença entre o magnata do exército privatizado vivido por Clive Owen aqui e Bob Iger, o manda chuva da Disney, é a materialidade dos seus modos de destruição. Quando Lee se coloca para investigar o visível, quando coloca em choque o hiper-realismo e o hiper-artifício também joga em primeiro plano este outro encontro. Uma questão de olhar.

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