O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher,08)

Um objeto estranho. Cuidadosamente construído e tão inerte e passivo a sua maneira como seu protagonista. Como Zodíaco é um filme sobre o tempo, mas se o filme anterior se propunha como uma agonizante escavação materialista sobre os efeitos do mesmo, Benjamin Button existe num tempo muito mais abstrato e mitológico. Ignore-se com a mesma firmeza tanto a história – difícil compreender como as comparações com Forrest Gump começaram – quanto o que há de grotesco na premissa básica, de forma a restar um bastante teórico romance mitológico. Teórico na medida em que Fincher só consegue olhá-lo a distancia. É justamente esta distancia que mantém o filme fascinante e mesmo um tanto tocante. Fincher faz excelente uso do carisma (e especialmente) da forma contida que freqüentemente transparece na presença de Pitt para que o filme permanece banhado nesta atmosfera de mito hollywoodiano e bastante distante do espectador (da mesma forma a presença glacial de Cate Blanchett que tornaria errada para a versão que 99% dos cineastas filmariam, funciona muito bem aqui). Só as cenas com Tilda Swinton sugerem uma experiência legítima e vivida, mas mesmo assim o filme avança com grande facilidade. Benjamin Button é menos a conseqüência natural de Zodíaco, e mais o filme mecânico que Fincher há muito tateava. Frustrante talvez, eficaz e perfeito a sua maneira.

14 Comentários

Arquivado em Filmes

14 Respostas para “O Curioso Caso de Benjamin Button (David Fincher,08)

  1. Márcio

    E eu achando que o filme seria execrado por aqui.
    Legal!

  2. Filipe Furtado

    Porque?

  3. Bom, especulando pelo Márcio, Fincher ainda é visto com desconfiança, mesmo depois de Zodíaco, né? Aliás, nem todo mundo gostou de Zodíaco, vale lembrar e as comparações com Gump não ajudam.

    “Ignore-se com a mesma firmeza tanto a história”

    Talvez seja o efeito embriagante do novo acordo ortográfico, mas fiquei indeciso nessa frase – quando vc diz “história” vc refere-se a trama do filme ou a história dos livros escolares?

  4. Filipe Furtado

    “Aliás, nem todo mundo gostou de Zodíaco, vale lembrar”

    Pois é, estas almas teimosas ainda existem hehe. Mas vale apontar que o dono do blog é grande fã do filme.

    “e as comparações com Gump não ajudam.”

    Um dos maiores non senses do ano.

    “vc refere-se a trama do filme ou a história dos livros escolares?”

    Eu temia que a frase estivesse ambigua, mas achei que a referencia a Gump resolveria isso. Bem, eu nunca uso história no sentido de trama nos meus textos.

  5. “Pois é, estas almas teimosas ainda existem”

    Opa, se é indireta comigo, devo dizer que virei fã do filme depois ve-lo uma segunda vez.

    “Bem, eu nunca uso história no sentido de trama nos meus textos.”

    +

    “Ignore-se com a mesma firmeza tanto a história”

    Legal, valeu pelo esclarecimento. Bom, podem discordar de mim, mas sempre tive a impressão (mesmo depois da revisão) que Zodíaco já faz isso, ignorar a história. É um filme mais sobre o efeito do tempo que sobre o efeito da história.

  6. Filipe Furtado

    O lamento não era para ninguém não.

    Acho que as relações são diferentes, ambos os filmes trabalham como uma idéia intima de história, mas enquanto os personagens de Zodiaco mantém uma relação constante com o que esta sua volta, Benjamin Button parece passar ao largo dela. Salvo pelo “gumpismo” do roteiro do Roth de faze-lo nascer no dia do cessar fogo da I Guerra, as unicas referencias históricas mesmo que transcorrem ao longo da vida do protagonista é ele ter lutado na II Guerra e muito mais tarde ele assistir a uma apresentação dos bEatles na TV.

  7. Marcelo Miranda

    O cara trepa com a primeira mulher a atravessar o Canal da Mancha a nado! História também! 😛

  8. Filipe Furtado

    Mas se fosse o Gump ela teria um eito muito mais relevante.

  9. Pingback: Resnais e outras estreias « Anotacões de um Cinéfilo

  10. Filipe, o filme não lhe pareceu meio arrastado no segundo ato, quando Button já é realmente um marinheiro andando por aí e conhecendo Elizabeth?

    E vc usou aqui umas palavras que explicam algo que senti e não me deixou boas impressões do filme: “tão inerte e passivo a sua maneira como seu protagonista”.

    Parece que eu esperava mais passionalidade por parte de Fincher, como visto em algumas cenas de Zodíaco. O ritmo do filme muitas vezes me pareceu sem vida mesmo. Seria proposital? Como recurso técnico para exaltar a metáfora desse Benjamin que vive sem viver?

    No mais, achei o plano final fabuloso.

    Aliás, o que você achou dessa ligação do filme com o presente, as catástrofes recentes? E a questão dos negros – especialmente a influência até mesmo no sotaque de Button?

    Vi o filme há poucas horas, na estréia de hoje e estou com o cérebro a mil. Pensando em rever para escrever algo no mínimo interessante de ser lido.

    abraço’s!

  11. Filipe Furtado

    Me parece que o Fincher optou mesmo por esta frieza que fica bem visivel na segunda metade quando o roteiro do Roth se concentra no romance.

    Eu gosto estruturalmente da conexão com o presente, mas tenho problemas sérios que a figura da Julia Ormond ali.

  12. Edu

    Olha, sinto discordar de quem gostou deste filme, mas preciso contestar mta coisa aqui… quem leu o conto do Scott Fitzgerald sabe bem que a tônica era o humor ácido, ironizar o modo de vida americano, o esquematismo das épocas vividas pelo ser hmano nesta situação de civilização,nada de pretensões pseudo-filosóficas e sentimentalóides. A personagem da mulher era totalmente sem importância, para vcs terem idéia… aqui a narrativa se desloca justamente para o “romance”, no sentido mais piegas… no conto era ironia pura, ele ver enfastiado como a mulher enrugava e se tornava chata. Ele já nascia nnao apenas grande, mas com conhecimentos de um velho, fumando charutos, com hábitos de gente idosa… é genial!
    Aqui se vcs acham que não há semelhança com Forrest Gump (apesar de saberem que Eric Roth é o roteirista de Gump), o que vcs dizem de um personagem central que atravessa o século e presencia acontecimentos como o fim da 1a GM, a participação na 2a, a Guerra Fria (marido espião da Tilda Swinton), o look “The Wild One” (filme de motociclistas baderneiros dos anos 1950, com Marlon Brando), a missão Apollo saindo de Cape Canaveral, os Beatles, e finalizando com o Katrina… ??? e a lista segue, se prestarmos atenção… substitua um retardado mental por um cara que rejuvenesce ao invés de envelhecer, e está aí – já no personagem – o disparate, enqto no Gump o disparate estava na participação de um retardado nos eventos históricos marcantes do século. Bem…
    E qto ao tom piegas e pseudo-filosófico… que tal as pérolas ao som da trilha melosa:
    – We’re meant to lose the people we love. How else would we know how important they are to us?
    – You never know what’s comin’ for ya.
    – Our lives are defined by opportunities, even the ones we miss.
    – I hope you live a life you’re proud of. If you find that you’re not, I hope you have the strength to start all over again.
    – I was thinking how nothing lasts, and what a shame that is.
    Vixe!
    Tadinho do Fitzgerald…

  13. De Fitzgerald, o filme tem (quase) nada. Já leram “As confissões de Max Tivoli”, do Andrew Sean Greer? Se Fitzgerald foi mencionado como origem do roteiro, Greer também deveria ter sido.

  14. Filipe Furtado

    Demas, também acho que tem pouco mais que o nome.

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