Rebel Ridge tem sua cota justa de momentos excitantes e imagens provocativas, é de fato previsto no encontro de ambos, um filme de exploitation para progressistas que querem ter alguma catarse anti-policia com o lustre da Netflix e uma política não muito perturbadora. Há muito o que gostar nele, mas é um filme que traz à tona minha Pauline Kael interior, o que não é algo de que eu goste particularmente, pois prefiro confiar nos filmes do que suspeitar deles, mas o projeto cinematográfico de Saulnier, o fato de que ele se mantém muito próximo de um estilo de cinema de gênero abrasivo do qual sou atraído por, ao mesmo tempo em que se assegura de domesticar suas bordas mais ásperas, que continua trazendo imagens políticas à tona, ao mesmo tempo em que as mantém contidas, me deixa com um pé atrás sobre tudo o que estou vendo. Rebel Ridge parece um filme falso, mesmo que suas partes muitas vezes sejam boas.
E elas são, o que é mais irritante em Rebel Ridge é que, ao contrário dos primeiros trabalhos de Saulnier, ele parece a metade de um bom filme. Eu estava até disposto a aceitar algumas de suas escolhas mais questionáveis até que, por volta de Anna Sophia Robb, é convenientemente sequestrada para dar início ao climax do filme. O fato de a maior parte da segunda metade do filme girar em torno de Robb, cuja atuação é correta, mas que funciona como um misto de máquina expositora e donzela indefesa que serve para o filme sentimentalizar e desviar das granadas políticas que Saulnier brinca com, é um indicativo das limitações do filme. A maneira como ele continua criando cenários políticos pertinentes e os personaliza, afastando-os da própria política, é uma das qualidades mais insidiosas de Rebel Ridge.
Ele é muito habilidoso. A conspiração sobre confisco civil é cuidadosamente montada e detalhada de uma forma muito satisfatória (o roteiro de Saulnier tem a cara de um desses best-seller gordos que quer ter certeza de que o leitor aprendeu algumas coisas sobre o território que está cobrindo). Andre Pierre, como o herói veterano militar, e Don Johnson, como o xerife corrupto, são excelentes. Saulnier valoriza a presença deles e merece crédito por entender que um filme como esse precisa de pessoas que simplesmente se sobressaem e fazem com que acreditemos na lógica grandiloquente de seu confronto. Pierre tem tanto carisma que preenche muitas das lacunas que o filme deixa para trás, e Johnson é tão repugnante como a face do poder que despreza o sofrimento das pessoas ao seu redor que se torna um problema mais tarde, quando Saulnier decide que precisar por limites ao cenário que tão bem preparou. O personagem de Pierre é um instrutor de artes marciais altamente condecorado e o filme é repleto de ótimas cenas de combates corpo a corpo, rápidos, precisos e brutais.
Preciso deixar claro que meu problema não é com o desfecho bastante seguro e sem sal, é claro que ele é, esse é a concessão que foi feita para que um filme como esse obtivesse respaldo para existir no tamanho que tem. Sim, não há dúvida de que as autoridades escutarão, que as evidências dos delitos de Johnson garantirão alguma punição, o que é verdade para esse filme, ou para Infiltrado no Klan, de Lee, ou Estranhos Prazeres, de Bigelow. A ideologia oficial não permite que se faça um filme sobre a extinção da polícia nos EUA, assim como não permite na China por exemplo, mas será que não se pode deixar ela ser depredada um pouco? Por que esse filme não pode evocar um pouco do que Clint Eastwood faz no clímax de Rota Suicida, quando seu personagem atropela toda uma força policial corrupta? As imagens são limpas demais, a violência catártica é sanitizada. Rebel Ridge é um dos melhores filmes da Netflix recentes, mas nunca deixa de se assemelhar a um deles.
Sempre me lembro de algo que Molly Haskell escreveu sobre como ela adorava muitos filmes americanos clássicos sobre mulheres que lidavam com a liberdade de suas personagens e, nas cenas finais, as trancafiavam de volta na instituição familiar, assegurando que elas não pudessem se safar com seu comportamento. Essas cenas finais podem ser decepcionantes, mas foram feitas com os censores em mente, e quem se importa com elas quando o verdadeiro significado está nas cenas emancipadas que vêm antes? Algo como Rebel Ridge poderia funcionar dessa forma, mas suas concessões estão embutidas no próprio filme, e é por isso que ele claudica tanto.
O comissário que limpará a tropa em Estranhos Prazeres é divorciado de todo o resto do filme, ele é uma peça de ficção que surge no último suspiro e permite que o filme encene o precipício de revulsão social e recue, enquanto o final aqui é o oposto, apenas uma extensão natural de suas imagens políticas cuidadosamente controladas. O mais estranho em Rebel Ridge é a frequência com que ele se entrega a desnecessários dois ladismos. Será que um filme como esse precisa repetir várias vezes que esses caras também são homens de família? Isso me fez pensar em como o atual clima político americano tanto ajuda a promover um filme como Rebel Ridge como relevante quanto dificulta que ele seja realmente incisivo. Policiais corruptos costumavam ser vilões bastante comuns em um filme como esse (pense em algo como o Matador de Aluguel original), mas agora eles estão tão sobrecarregados de significado que alguém como Saulnier pode explorá-los enquanto permanece numa camisa de força para fazer algo minimamente interessante com a sua imagem.
O filme joga com esta sua violência catártica, todo o seu significado está atrelado a cenas de Andre Pierre espancando maus policiais, que sua violência se limita a ossos quebrados e olhos roxos, que sua retribuição deve sempre esclarecer que nada de muito grave está acontecendo, é o que lentamente esvazia qualquer força que possa ter. Raramente se assiste a um filme violento tão neurótico quanto à sua própria violência. É revelador o fato de Saulnier apresentar Pierre como um Rambo que não mata (os materiais promocionais se esforçam para fazer a comparação), mas não parece interessado nem mesmo em pensar no que isso pode significar; se a abordagem não letal da violência for transformada em uma característica do personagem, isso poderá quebrar a ilusão de retribuição. O pulp não pode realmente funcionar como catarse se não for permitido ao pulp extravasar o desejo liberado. Um filme cujo libido é constantemente interrompido.
Faz sentido que Rebel Ridge passe da sugestão de que toda a cidade é cúmplice dos danos causados por sua força policial para o bode expiatório de um xerife muito corrupto e de um policial racista. O filme é previsto em uma redução de possibilidades, falsas imagens de revolta.

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