Melhores do Miguel Marias

Recuerdos de una Mañana, de José Luis Guerin

Mais útil para quem quer dicas de filmes do que a minha lista é esta do Miguel Marias, ótimo crítico espanhol que ocasionalmente comenta aqui no blog.

A) Grandes filmes vistos pela vez primeira, feitos despois de 2006:

O Estranho Caso de Angélica (Manoel de Oliveira, 2010)
Litoral (Raúl Ruiz, 2008)
Deuses e Homens (Xavier Beauvois, 2010)
La Maison Nucingen (Raúl Ruiz, 2008)
Gone Baby Gone (Ben Affleck, 2007)
Meia Noite em Paris (Woody Allen, 2010/1)
A Vala (Wang Bing, 2010)
Depois da Vida (Clint Eastwood, 2010)
Mistérios de Lisboa (Raúl Ruiz, 2010)
Petit tailleur (Louis Garrel, 2010)
Habemus Papam (Nanni Moretti, 2011)
Lastuja-Taiteilijasuvun Vuosisata (Splinters-A Century of an Artistic Family) (Peter von Bagh, 2011)
Recuerdos de una mañana (José Luis Guerin, 2011)
Sorelle Mai (Marco Bellocchio, 2010)
O Porto (Aki Kauirismäki, 2011)
No (da serie La Chevelure féminine vue par…) (Abbas Kiarostami, 2010)
La Folie Almayer (Chantal Akerman, 2011)

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Melhores de 2011 20-1

20) Girimunho (Clarissa Campolina e Helvecio Marins)

Num filme como este, a maior questão é encontra a imagem e o tempo certo para seus personagens e isto é algo que Girimunho consegue quase o tempo todo. Num ano com um numero bem alto de bons filmes de jovens cineastas, esta estréia de Campólina e Marins foi o melhor deles.

19) El Sicario: Room 164 (Gianfranco Rosi)

Um homem, um quarto, uma história de horrores. O documentário de Rosi não poderia ser mais simples, cerca de 90 minutos de entrevista com um ex-matador da máfia mexicana. Só que destes poucos elementos, o cineasta extrai algo que geralmente documentários não alcançam. Nos gestos hiper ativos do entrevistado, na forma com que ele segue rabiscando no seu caderno de notas para melhor explanar e sobretudo no capaz preto que permanece sempre sobre seu rosto, Rosi  produz um documentário de uma teatralidade frontal muito em comum. È como se a ficção estivesse ali pronta para adentrar aquele espaço.

18) Kill List (Ben Wheatley)

Muito antes de algo estranho acontecer em Kill List cada plano de Wheatley parece sugerir que há algo de muito errado no universo de seu protagonista, que a qualquer momento a placidez das cenas iniciais (mais próximo de um drama realista de classe média inglesa do que de um filme de horror) dará lugar ao desastre. É um dos filmes de horror mais enervantes dos últimos anos justamente porque traz consigo esta sensação constante de que a Inglaterra que registra é um espaço doente que pode implodir a qualquer momento.

17) O Cavalo de Turim (Bela Tarr)

Bela Tarr filma o fim dos tempos. Uma experiência notável do primeiro ao último plano.

16) Disorder (Weikai Huang)

Uma pequena aula em montagem em documentário. Huang extrai seu filme todo de material da vida pública chinesa filmada por terceiros, cenas que poderiam estar soltas num You Tube, mas que ganham sentido reunidas e organizadas  pelo cineasta. Há uma fluidez na organização do mosaico de Huang que tornam Disorder bem mais do que só uma compilação de uma sociedade tomada pelo absurdo. Continue lendo

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Melhores de 2011 50-21

Como sempre nas minhas de final de ano, o critério que vale é filmes vistos por mim pela primeira vez em 2011 realizados nos últimos 3 anos.

O top 20 segue amanhã.

Menções Honrosas: 20 Cigarettes (James Benning), Las Acacias (Pablo Giorgelli), Adeus (Mohammad Rasoulof), Aita (José Maria de Orbe), Aterrorizada (John Carpenter), Balada Triste de Trompeta (Alex de la Iglesia), La Belle Endorme (Catherine Breillat), Belle Epine (Rebecca Zlotowski), Chantal, de Cá (Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira), Cisne (Teresa Villaverde), Cut (Amir Naderi),  A Doença do Sono (Ulrich Köhler), Era Uma Vez na Anatolia (Nuri Bilge Ceylan), Hoy No Tuve Miedo (Ivan Fund), Inquietos (Gus Van Sant), Os Monstros (Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz e Ricardo Pretti), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Secret Reunion (Hun Jang), Sexo Sem Compromisso (Ivan Reitman), Super8 (JJ Abrams), Trabalhar Cansa (Marco Dutra e Juliana Rojas), Twelve (Joel Schumacher), Velozes e Furiosos 5 (Justin Lin), La Vida Util (Federico Veiroj), Vigias (Marcelo Lordello)

50) Slow Action (Ben Rivers)

Uma ilha pós fim do mundo.  O impressionante média de Rivers é uma elegia notável a uma sociedade que decaiu antes de ter começado. Um dos pontos altos do cinema experimental em 2011 e uma das melhores ficções cientificas também.

49) Don’t Go Breaking My Heart (Johnny To e Wai Ka Fai)

Não costumo ser um dos maiores entusiastas dos romances que Johnny To faz para pagar as contas da Milkway, mas Don’t Go Breaking My Heart é um das suas melhores aventuras fora do filme de ação. Raro encontrarmos uma comédia romântica tão formalmente bem cuidada e o filme chega a lembrar Daisy Kanyon de Preminger na forma como apresenta o caso dos dois pretendentes (Louis Koo, Daniel Wu).

48) Detroit, Ville Sauvage (Florent Tillon)

No site de Tillon há um ensaio sobre Robocop e podemos dizer que este filme ensaio sobre Detroit poderia se chamar “e se Robocop fosse um texto profético?”. Mais para filme de terror do que um filme de cidade e certamente um dos filmes mais impressionantes sobre o tamanho da crise econômica americana.

47) One Minute of Darkness (Christoph Hochhäusler)

Belo filme de caçada (há algo muito estranho quando se percebe que o cinema de gênero alemão anda mais saudável que o americano). Hochhäusler conduz sua narrativa bifurcada (o criminoso solta, o detetive em crise de consciência reconstituindo sua própria investigação) com considerável precisão e simplicidade. As seqüências do assassino na floresta são notáveis como se a caçada do Essential Killing de Skolimowski encontrasse a finalidade um Lang.

46) Distinguished Flying Cross (Travis Wilkerson)

Wilkerson, um dos melhores cineastas políticos americanos, fez este ótimo média que se alterna entre a história de como seu pai ganhou uma medalha no Vietnã com cenas de combate rodadas por soldados.

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Algumas leituras de cinema favoritas de 2011

Outro dia o Gabe Klinger perguntou no Facebook quais seriam os textos de cinema favoritos dos amigos. É um bom tema para um post. Não sei porque não se faz mais destes apanhados em fim de ano.

Primeiro, alguns livros/catálogos:

Francisco Algarín Navarro, Fernando Ganzo, Moisés Granda (ed.) Lumiere No.4
Inacio Araujo, Cinema de Boca em Boca (org. Juliano Tosi)
Jonathan Rosenbaum, Goodbye Cinema, Hello Cinephilia
Tatiana Monassa (org), Clint Eastwood

Lumiere é uma revista anual espanhola. Coloca na lista porque tem mais de 400 páginas, então me parece justo coloca-la junto dos livros. A edição lida com o cinema de 2010. Ótimas entrevistas (Skolimowski, Apichatpong, Bellocchio, Guerin, etc), uma atenção especial ao experimental (pautas sobre Hutton, Lockhart, etc). Dá para baixar por pdf no site.

A recente coletânea do Inácio organizada pelo Juliano Tosi saiu no final de 2010, mas só a li este ano. Poderia ser um pouco mais ambiciosa (já quer se limita ao trabalho dele na Folha), mas é material essencial de um dos maiores críticos brasileiros.

Assim como o livro do Inácio já conhecia a maior parte do último livro do Rosenbaum (imagino que quase tudo exista no site dele),  mas uma das razões pelas quais é sempre um prazer ler uma das coletâneas dele é sua habilidade como organizador:  os textos ganham sempre um sentido novo nos seus livros.

Vale destacar também este belíssimo catálogo da recente retrospectiva do Clint Eastwood.  Ótima seleção de textos. Acho que esta disponível para download no site também.

Vale também acrescentar alguns ótimos dossiês:
Alfred Hitchcock, Interlúdio
James Gray, Foco No.3
Monte Hellman, La Furia Umana No.8

Sergio Alpendre colocou de pé uma grande equipe de colaboradores para um dossiê exaustivo que cobre a retrospectiva completa do cineasta que tivemos este ano.

Vi gente inteligente desconsiderar o dossiê Gray da Foco por conta de um editorial (que é mesmo fraco). É tão injusto com os ótimos textos quanto o Editorial.

Por fim La Furia Umana fez um grande numero centrado na figura de Hellman. É uma edição multilíngüe (com artigos em inglês, francês, italiano e português) que vale muito a pena.

Alguns artigos soltos excepcionais que li este ano:
Adrian Martin, “Turn the Page: From Mise en Scene to Dispositif”
Bill Krohn, “Cahiers for Dummies”
Francis Vogner dos Reis, “Das Ruinas:livre reflexão a parir de duas exceções”
Inacio Araujo, “Filmes que Ninguém Compreende”
Shigehiko Hasumi,” Fiction and the ‘Unrepresentable’: All Movies are but Variants on the Silent Film”

O ensaio de Martin sobre mise en scene contemporânea é essencial.

A crítica do Krohn é uma aula de como conduzir uma demolição crítica com argumentos  (o que infelizmente não é muito comum).

Este texto do Francis (sobre Os Residentes e Santos Dumont, pré Cineasta?) é o melhor artigo sobre cinema brasileiro que li este ano.

Uma grande reflexão do Inácio sobre a preguiça do espectador contemporâneo a partir de um comentário mal educado de blog.

Uma ótima provocação de Hasumi, ponto alto do excelente primeiro numero da Lola.

Ressalto também no ambito do cinema brasileiro que todos os vinte debates da mostra “Cinema Brasileiro ano 2000, 10 questões” estão disponiveis no seu site em vídeo e pdf.

Por fim vale destacar 4 belas revistas que seguiram publicando material de primeira regularmente ao longo do ano: Cahiers Du Cinema España, Cinema Scope, La Furia Umana e Miradas del Cine.

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Tudo Pelo Poder (George Clooney)

Eu teria muito mais respeito por Tudo Pelo Poder se eu acreditasse por um instante que George Clooney votará ano que vem num dos candidatos independentes americanos à esquerda dos Democratas, no lugar disso não só votará no Obama como provavelmente contribuirá mais grana a sua campanha do que a maior parte dos fãs do filme ganham num ano. Claro que Clooney faz o que bem entender, mas é um dado curioso porque reforça o quanto Tudo Pelo Poder é pouco mais que um exercício em cinismo. Espanta-me ver pessoas inteligentes apontando-o como um grande filme político quando na verdade é um dos filmes mais apolíticos do ano. Entendo plenamente a antipatia pela figura do político que leva a popularidade filmes como este (ou Tropa de Elite 2, para pegarmos um similar brasileiro), mas são raros os filmes como estes que tenham alguma idéia sobre política para além de propor um “não vote” ou “vote nulo” (e existe algo menos político do que isso?). Por todas as suas boas intenções (e eu até acredito nelas), o filme do Clooney tem o apelo e a contundência de um Reinaldo Azevedo.

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2011 no circuito

Minha lista de melhores do ano vai ao ar dia primeiro, mas resolvi fazer diferente este ano e soltar uma lista preliminar com os filmes que entraram em cartaz, já que sempre alguém reclama dos títulos que entraram em cartaz mas eram da minha lista do ano anterior.

(em ordem alfabética)

Adeus, Primeiro Amor (Mia Hansen-Løve)
Alem da Vida (Clint Eastwood)
Caminho para o Nada (Monte Hellman)
Copia Fiel (Abbas Kiarostami)
Deuses e Homens (Xavier Beauvois)
O Garoto da Bicicleta (Jeam-Pierre e Luc Dardenne)
Incontrolavel (Tony Scott)
Isto Não é um Filme (Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb)
Singularidades de uma Rapariga Loira (Manoel de Oliveira)
Tio Boonmee que Pode Recordar suas Vidas Passadas (Apichatpong Weerasetakhul)

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A Better Tomorrow (Song Hae-sung)/A Chinese Ghost Story (Wilson Wip)

A Chinese Ghost Story, de Wilson Wip

É sempre estranho quando você se coloca a frente de um objeto com qual você tem alguma afeição nostálgica. Esta semana assisti os remakes recentes do A Better Tomorrow do John Woo e A Chinese Ghost Story do Ching Siu-Tang, dois filmes bem significativos da minha adolescência. Curioso que pensando obre eles, eu não sabia disso à época, mas ambos eram também remakes. Nunca vi The Story of a Discharged Prisoner de Kong Lung que Woo refilmou (o filme até existe em DVD lá fora, mas inexplicavelmente sem nenhuma legenda) do qual sempre li comentários muito positivos, mas creio que The Enchanting Shadow seja um filme até melhor que A Chinese Ghost Story. Logo não existe muita justificativa para preciosismos da minha parte, mas não muda que refilmar estes filmes invade a minha memória afetiva.
Ver estes remakes torna impossível não ver um contraste de épocas. A Better Tomorrow e A Chinese Ghost Story (ambos não por acidente produzidos pelo Tsui Hark) são filmes bem significativos na afirmação da indústria de Hong Kong na segunda metade dos anos 80, estes remakes não deixam de ser exemplares do cinema industrial asiático contemporaneio. A Better Tomorrow (produzido por Woo) é um remake coreano que reimagina os irmãos do filme original como imigrantes norte coreanos.  O diretor Song Hae-sung (cujos filmes anteriores, eu desconheço) aumenta consideravelmente o tom de melodrama da ação e parece bem incerto sobre como se relacionar com o filme antigo alternando tentativas claras de não retomar certas cenas com imitações pálidas. É um típico filme de gênero coreano eficiente, mas bem desinteressante e há momentos em que desconfio o penteado dos atores é a maior preocupação estética do diretor. Ao menos, Jo Han Sun se diverte muito como o vilão.
O remake de A Chinese Ghost Story tem a principio um atrativo maior por ser dirigido pelo Wilson Wip, a quem sempre tive muito interesse apesar de uma filmografia bem irregular. Infelizmente este filme novo está bem mais para mau Wip do que bom Wip. Se o filme dos anos 80 era uma tentativa de fazer uma versão espetáculo do filme do Han Hsiang Li, este novo quer fazer o mesmo com o filme anterior. Só que se o filme de 87 era um exemplo de uso criativo dos recursos disponíveis, o do Wip se afunda nos efeitos digitais óbvios.  É também um filme bem típico de 2011 na sua decisão de complicar a própria mitologia e curiosamente perder no processo a força do gancho romântico que servia de base para o filme anterior. É génerico e comum em todas as maneiras que o filme de 87 era  encantador.

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